Rudá Ricci

16 de fevereiro de 2020, 12h03

O deslocamento dos bolsonaristas para Moro, por Rudá Ricci

Sociólogo analisa a pesquisa que aponta Sergio Moro como a pessoa capaz de dar ordem à crise política que eleitores esperavam que seria alcançada com a eleição de Bolsonaro

Bolsonaro e Sérgio Moro (Foto: Divulgação/MJSP)

Prometi que hoje comentaria a pesquisa em profundidade realizada em 2019 pela Esther Solano com 24 eleitores bolsonaristas das classes C e D e que revelou uma crescente rejeição com o presidente que elegeram. Esses entrevistados apontaram Sergio Moro como a pessoa capaz de dar ordem à crise política que esperavam que seria alcançada com a eleição de Bolsonaro.

O perfil deste eleitor é antiesquerdista, antissistema, antipartidário e anti-intelectual. Foram feitas algumas rodadas de entrevistas: início de 2018, entre fevereiro e março, e em setembro último. Na última rodada, Moro foi mencionado como o líder capaz de dar jeito no país.

A opinião dos bolsonaristas é antissistêmica. Uma ilustração vem desta passagem da fala de um dos entrevistados: “São todos iguais. PT, PSDB. Poder é poder. Não querem saber da gente. É tudo corrupto, tudo… Eu não voto por esquerda nem direita, voto na pessoa.”

O mesmo entrevistado cita os motivos para votar em Bolsonaro (antes da decepção do final do ano passado): “Ah, eu acho que Bolsonaro é diferente e pode mudar tudo isso. A gente acredita nele. A gente tem fé nele, que ele vai melhorar.”

E é por aí que surge a Lava Jato como cruzada moralista. Todos a percebem como a primeira grande operação de combate à corrupção que realmente conseguiu punir os criminosos. Não raro, aparece como uma ação messiânica. Moro, então, se apresenta aos olhos dos entrevistados como “salvador”. Mais que isso, como “um enviado capaz de limpar o Brasil”.

Uma segunda característica marcante dos entrevistados bolsonaristas é o tradicionalismo patriarcal. Odeiam as pautas identitárias, dos movimentos feministas, LGBT e negro. Sentem saudades da época em que não se questionava o ideário masculino da família tradicional patriarcal.

Ver pessoas do mesmo sexo se beijando na rua gera repugnância. Seu grau de percepção sobre direito é quase nulo. Questionam o motivo para não existir Lei Maria da Penha para o homem. Sugerem que se trata de uma lei que não promove igualdade de direitos, mas distinção.

E, finalmente, a articulação da defesa da família com a religião. Como um deles disse à pesquisadora: “voto no Bolsonaro porque ele defende a família, ele é do lado religioso. O PT queria fazer o kit gay, ia liberar os presos, e também isso das crianças escolherem na certidão se querem ser meninos ou meninas. Ia acabar com a família. Uma bagunça. Teve até aquela coisa de Bíblia gay”.

Mas, aí veio a “bagunça”, como alguns entrevistados qualificam o primeiro ano do governo Bolsonaro. O presidente se revelou muito polêmico – o que parece contradizer com a noção de ordem dos eleitores ultraconservadores – e violento – novamente, a ofensa à ordem, à paz social. Moro, por aí, reforça seu perfil de “salvador” e “enviado por Deus”.

Analisemos friamente.

De um lado, é evidente o pendor anti-esquerda (ou anti-petista, que se confunde no discurso desses eleitores) dos entrevistados. Disso, não há dúvida.

Quanto representariam do total do eleitorado brasileiro? Os dados levantados pelo Datafolha e Vox Populi sugerem algo ao redor de 30%, o mesmo percentual de apoiadores do PT. Se equivalem e é por este motivo que disputaram o segundo turno em 2018. A força dos dois permanece estacionada neste patamar.

Então, não há o que surpreender no deslocamento de Bolsonaro para Moro.

Barrington Moore Jr. escreveu um interessante estudo (“Injustiça: As Bases Sociais da Obediência e da Revolta”) onde desenvolve a tese de que rebeliões e revoluções são desencadeadas pelo sentimento de ruptura do código moral que estabelecia as relações até mesmo entre dominados e dominadores. Trata-se de um código moral que confere segurança e esperança.

Rompido, o sentimento de injustiça e de injustiçado aflora, se expande, explode em ondas de revolta. Foi assim na revolução francesa, mas, também, sugere Moore, nas revoluções alemã (1848) e russa. A revolta e o sentimento de injustiça esteve presente na ascensão do nazismo.

Moore procura dialogar com polos aparentemente opostos: a indignação e a submissão moral. Analisa os ascetas, que vivem no sofrimento e que sentem orgulho de sua condição (como os intocáveis hindus); a Síndrome de Estocolmo, que chega a motivar o ressentimento por prisioneiros a outros em igual condição que tentam resistir à autoridade de seus algozes. Situações em que o sentimento de injustiça é sufocado.

Acontece que em nossa sociedade contemporânea, de alta exigência de desempenho pessoal, a autoestima deve ser constantemente renovada. E o grupo governante deve garantir esta renovação, esta crença no futuro e na própria existência. O sofrimento, neste caso, passa a ser compreendido como passageiro, como um salvo-conduto para um futuro promissor. É neste sentido que os dois polos se aproximam: só vale o sofrimento se projeta uma vida melhor. O que significa uma recusa peculiar da opressão.

Mas, há um outro dado importante neste deslocamento: a frustração com Bolsonaro. Esta é uma novidade da maior relevância. Houve um degelo em relação à projeção que os eleitores de Bolsonaro fizeram. Desmanchou uma convicção que se apresentava como uma pedra. Moro, então, aparece não como sucessor, mas como aquele que renova as promessas. Mas, e depois de Moro, caso ele fracasse?

O que gostaria de sugerir é que esta primeira trincheira foi quebrada. Talvez, a mais importante delas: a convicção quase religiosa. Como se fosse a primeira batalha perdida numa Cruzada Santa. Perdida pelo líder dos templários.

Bolsonaro não é Moro. Bolsonaro tem um perfil mais próximo do brasileiro mediano: afirma sua ignorância quase diariamente (como em relação aos temas da economia), é desajeitado, exagera, não segue protocolos e despreza a liturgia do cargo que ocupa.

Aprecia postar vídeos e mensagens escatológicas. Parece um bicão na festa que seria improvável que fosse convidado. Quantos humilhados diariamente não sentem a desforra em ver Bolsonaro distribuindo impropérios e desaforos?

Pois bem, Moro não tem este perfil. Está mais para um bom-moço de classe média. Não há como negar: há um distanciamento nítido em relação ao brasileiro médio. E não possui nem de longe a estrutura política montada pelos Bolsonaro desde 2014.

Este deslocamento enfraquece o bolsonarismo, mas ainda não cria um “morismo” ou algo que o valha. Moro terá que comer muito feijão para deixar de ser promessa e se tornar realidade.

O deslocamento dos bolsonaristas é uma primeira derrota da extrema-direita histérica. Uma primeira decepção consistente. Uma defecção. Um racha. Um enfraquecimento que as forças democráticas deveriam estar preparadas para explorar.


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