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22 de dezembro de 2018, 10h17

O Estado de exceção na Assembleia Legislativa de MG, por Beatriz Cerqueira

A exceção de Estado fica nítida quando um mestre de cerimônia se sente no direito de arrancar das mãos de uma deputada eleita a sua identidade partidária

(Foto: Lidyane Ponciano/ Sind-UTE/MG)

Por Beatriz Cerqueira*

Eu acompanhei com respeito e educação a diplomação do Governador eleito Romeu Zema. Ouvi seu pronunciamento sem manifestar qualquer deselegância ou agressão. Ele foi eleito. Mesmo que eu não concorde com suas ideias, não teria o direito de lhe arrancar o discurso das mãos.

Também assisti com o mesmo respeito e educação a diplomação dos senadores eleitos que representarão Minas Gerais. E assim me comportei com todos os deputados estaduais e federais. Vi gente batendo continência num ambiente que não caberia tal gesto. E nem por isso saí gritando para que não o fizessem. Quando a deputada federal eleita Aurea Carolina foi anunciada para ser diplomada, parte do público presente agiu com extrema hostilidade. Isso não incomodou o cerimonial do TRE. A hostilidade a uma mulher, negra, que tem uma forma de fazer política que cada vez aglutina mais pessoas não foi um problema para a Cerimonial. A mulher com maior votação para a Câmara de Vereadores de Belo Horizonte! Uma mulher com a representatividade de mais de 160 mil votos! Ela ter sido ostensivamente hostilizada pareceu normal à maioria dos que estavam na Cerimônia. Ela fez uma bela homenagem a Marielle Franco. As pessoas que a vaiavam estavam aplaudindo o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro?

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Após manifestações de parte do público presente para que eu escondesse a placa que levava junto a bolsa onde estava escrito ‘Lula Livre’, a moça do Cerimonial (não sei o seu nome), pela segunda vez, me solicitou que retirasse a placa. Respondi que não faria. Ela me disse que meu comportamento estava tumultuando a cerimônia. Discordei. Eu estava apenas com a placa. Não tinha feito, até aquele momento, nenhum gesto com ela além de carregá-la comigo. Era a hostilidade de parte do público que estava atrapalhando, incapaz de conviver com pensamento divergente do seu. Após ouvir a opinião do deputado estadual que estava ao meu lado e que era favorável que a placa fosse retirada, ela arrancou a placa da minha mão e saiu. Seu comportamento foi aplaudido por parte do público.

Li todas as orientações e recomendações para a cerimônia da diplomação. Eu fui pessoalmente ao Cerimonial do TRE buscar isso. Em nenhum lugar estava escrito que eu deveria esconder a minha identidade partidária, ideológica e de pensamento.

A exceção de Estado fica nítida quando um mestre de cerimônia toma partido, concorda com a opinião de convidados que gritavam na plateia e de outro deputado que estava sendo diplomado e se sente no direito de arrancar das mãos de uma deputada eleita que estava sendo diplomada a sua identidade partidária.

Eu ouvi, sem agredir ninguém, inúmeros insultos, piadas, ironias durante o período da cerimônia. Isso também parece não ter incomodado o cerimonial. Os gestos simulando metralhadora também não significaram um problema para o Cerimonial.

A tentativa de arrancar das mãos do deputado federal eleito Rogerio Correia a outra placa também não foi um problema.

Espero que, nesta quinta-feira, o Cerimonial do Tribunal Regional Eleitoral me devolva a placa que ilegitimamente foi arrancada das minhas mãos. É um objeto que não lhe pertence e não tem o direito de ficar com ele. Fica apenas com a responsabilidade do que fez hoje e com silêncio e omissão que teve diante da hostilidade que pessoas com pensamento diferente vivenciaram.

*Beatriz Cerqueira, Deputada Estadual eleita com 110 mil votos em Minas Gerais, 19 de dezembro de 2018

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