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27 de outubro de 2019, 19h46

“O governo ignora o que está acontecendo”, diz economista sobre óleo no Nordeste

O economista espanhol Hugo M. Ballesteros, especialista em pesca, alerta para a necessidade de um compromisso político para resolver tragédia no litoral

Foto: Wilfred Gadêlha

Por Wilfred Gadêlha

Membro do Grupo de Economia Pesqueira da Universidade de Santiago de Compostela, o espanhol Hugo M. Ballesteros sabe muito bem o que um desastre como esse que atinge as praias do Nordeste pode causar. Doutor em economia pesqueira, com parte de seu mestrado feito na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele faz um alerta: “É preciso ter um compromisso político para resolver esse problema”. De férias em Salvador, ele se engajou em um grupo de voluntários na praia de Rio Vermelho, e, munido de ferramentas de jardinagem, luvas e botas de PVC, ajudou no esforço coletivo. Ballesteros salienta, em entrevista exclusiva à Fórum, que os danos da maré negra não atingem apenas quem vive da pesca. “Os problemas do mar são da sociedade”.

Como esse problema do óleo nas praias do Nordeste deveria ser encarado pelo governo?
Problemas complexos nunca têm soluções simples. É preciso um pacote de medidas. Pela experiência que eu sei de desastres ecológicos como os que ocorreram no Alasca e na Galícia, tem que ser dado um passo político. Os governos devem ter a responsabilidade de agir. Pelo que tenho visto, o governo ignora o que está acontecendo. O primeiro passo seria ter políticos que apoiassem esta causa. Em nível individual e coletivo, a gente pode fazer coisas. Mas o mais importante não pode ser feito pela gente. Deveríamos estar mais bem equipados, deveríamos estar formados para limpar o petróleo. Os locais que tem mais manchas deveriam ser identificados. Seria interessante que o produto fosse analisado e quais são os efeitos que ele pode causar. Não pode ser uma solução simples: precisa de biólogo, precisa de economista, precisa de político, das pessoas da comunidade, dos pescadores, que trazem este conhecimento do meio, para que, todos juntos, possamos encontrar uma solução. E caminhar junto numa só direção, que é a de recuperar os recursos, salvar a economia pesqueira. Essa é a ideia fundamental: primeiro, ter garantias políticas, um compromisso político. E entender que isso não é apenas uma questão de uma pessoa ou um coletivo. Não, temos que todos – cientistas, pessoas das universidades, pescadores – irmos no mesmo caminho.

Qual é o impacto que uma maré negra como esta pode causar na economia pesqueira?
Essa é uma grande pergunta. Depende do tamanho da devastação, da quantidade de vazamento. Mas quero chamar a atenção para uma questão fundamental: quando falamos dos recursos marinhos, do ponto de vista econômico e social, não estamos falando apenas de pescador, de marisqueira. O poder econômico da pesca é muito maior. Não somente estamos falando do extrator, o pescador. Estamos falando de muitas outras atividades econômicas relacionadas com isso. Um pescador pesca. Para pescar, ele precisa de um barco. Esse barco precisa de materiais, precisa de gasolina. Quando o peixe chega no mercado, tem uma peixaria. Essa peixaria tem funcionários. O dono da peixaria, com certeza, tem alguém que faz a sua contabilidade. Ele precisa de gelo, precisa de caixas, precisa que alguém transporte esse peixe. O dono do restaurante pega o peixe e vende para os clientes. E assim por diante. A questão é a seguinte: a pesca é uma atividade econômica muito mais complexa do que a gente pensa. Quando falamos do impacto, não é apenas do que vai causar no pescador artesanal. É um impacto que vai chegar a muitos outros lugares da economia local. Vai chegar de modo invisível. Vai atingir o contador da peixaria. Isso é fundamental para dar valor ao problema. Os problemas do mar não são apenas dos pescadores: são da sociedade. Obviamente, tem o impacto econômico, mas tem o impacto social e o ecológico. Ou seja: afeta a população de muitas maneiras. Quando se degrada o mar, o turismo fica também afetado. Donos de pousada têm problemas. E assim por diante.

Como a experiência dos derramamentos ocorridos na Espanha pode ajudar a resolver o problema aqui?
A Galícia fica bem no noroeste da Espanha, bem acima de Portugal. É uma área com grande número de pescadores e marisqueiras. Estamos falando e mais de 5 mil barcos de pesca artesanal e de mais de 5 mil marisqueiras. Ou seja: um contexto bem complexo no qual um desastre ecológico desse tipo tem um impacto muito grande. Houve vários acidentes, mas o último foi em 2002. Um barco chamado Prestige transportava 77 mil toneladas de petróleo. Nas primeiras 20 horas, no mínimo 15 mil toneladas vazaram. O que aconteceu é muito comum nessas situações: o governo galego e o governo espanhol minimizaram o problema. Falaram nas primeiras horas que não tinha problema, que estava tudo controlado, que não era tão grande assim. Demoraram para agir. Não ouviu o conhecimento de marinheiros e pescadores. O que fez o Estado espanhol foi afastar o barco da costa. Tentou botar o barco para dentro do mar para que virasse um problema internacional e não um problema só da Espanha. Os marinheiros falaram para o governo: “Não façam isso porque as correntes marinhas vão fazer com que o petróleo chegue de modo massivo se o navio afundar.

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