O stand-up como ethos

O comediante de stand-up talvez seja o simulacro do cidadão consciente que paga suas contas, declara seu imposto de renda, vai à igreja aos domingos e ajuda o Criança Esperança uma vez ao ano

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O comediante de stand-up talvez seja o simulacro do cidadão consciente que paga suas contas, declara seu imposto de renda, vai à igreja aos domingos e ajuda o Criança Esperança uma vez ao ano

Por Carlos Eduardo Rebuá, no Blog da Boitempo

Já há algum tempo, mas sobretudo desde os episódios de Junho que a crítica de direita no Brasil – aquela que tem sido chamada de “crítica coxinha” (ainda que existam vários tipos de coxinhas, com ou sem catupiry) – tem flertado com um gênero de humor que a partir dos anos 2000 ganhou cada vez mais representantes e entusiastas por aqui: o stand-up. No atual cenário político do país, de acirramento de novas e velhas tensões e de hipertrofia da pequena política (na acepção gramsciana do conceito: a política do dia a dia, parlamentar, de corredor, de intrigas), é possível verificar, principalmente nas redes sociais, que estamos diante de um processo de “standupização” do discurso político, variante da política como espetáculo adaptada aos tempos hodiernos. Uma “ironia piadística”, um tom de anedota de stand-up e traços da arrogância agressiva do “humorista solitário” tem sido a tônica de muitas falas recentes, majoritariamente do campo mais reacionário.

Paripassu com a profusão do stand-up em todo o país, artistas, políticos, humoristas e até figuras de parca expressão passaram a reproduzir este formato comédia em pé em suas falas, formato que assume o papel de invólucro da crítica conservadora, seja ela estritamente política (Kim Kataguiri e Fernando Holiday do Movimento Brasil Livre são os grandes exemplos), oriunda de artistas (Lobão e Roger do Ultraje a rigor) e/ou dos próprios protagonistas deste tipo de comédia (Danilo Gentili).

No intrigante documentário O riso dos outros (2012), de Pedro Arantes, que radiografa o humor no Brasil contemporâneo tendo como eixo central o stand-up, fica evidente nas falas dos principais representantes do gênero a opção explícita pelo escárnio a priori, o menosprezo pelas minorias, a crítica despolitizada da política. Num dos momentos do filme afirma Gentili: o comediante tem que ser uma prostituta. O que eu quero é riso. Eu me vendo por riso. Se você riu, eu estou falando”. Vale tudo no mundo da comédia à la carte.

Ao mesmo tempo em que o stand-up e sua difusão monumental chega à tevê e ao teatro (há inclusive programas nos canais à cabo onde comediantes sabatinam convidados), provocando reações as mais diversas (ao abordar questões como a opção sexual, a cor da pele, o sexo com grávidas, a origem social, o estupro, a corrupção, a obesidade etc.), também se difunde para o espaço da política, flertando com a ideologia do cinismo de que fala Žižek  ou fundindo-se nela, sendo capaz de assumir um papel de ethos que impregna tanto a fala do coxinha do Leblon quanto do favelado de Pirambu no Ceará.

Da “Dilma sapatão-guerrilheira” ao “Não estupro você porque não merece” vemos todo um repertório dos bares e pubs onde ocorrem apresentações de stand-up comedy, que na maioria das vezes, ao se referirem às mulheres, aos homossexuais, aos negros (as), aos favelados (as), aos gordos (as) destilam toda uma carga de preconceito e de ódio que em alguns momentos lembram – guardadas as enormes diferenças – o crescimento do nazismo na Alemanha dos anos 1920-30, quando o recurso do humor desempenhou uma eficaz função de amálgama social antissemita, anti-estrangeiros, anti-gays, anti-ciganos, anti-portadores de necessidade especial etc. A escalada do autoritarismo, nos mostra a História, quase sempre vem acompanhada de um suporte humorístico que reitera e dissemina o ódio através de uma forma mais soft

Não estamos dizendo que o humor é tendencialmente de direita ou inclinado naturalmente ao descarte do “cachorro morto”, tampouco que vivemos (como muitos dizem de forma inadvertida ou descuidada conceitualmente) um momento nazi ou fascio. O humor como ruptura, a abordagem lúdica como crítica radical está bastante presente em nossa história recente, como comprovam O Pasquim e as trajetórias de nomes como Jaguar, Ziraldo, Henfil, Laerte, Angeli, Dahmer etc. O que queremos enfatizar é que no Brasil dos Bolsonaros, Sheherazades e Reginas Duarte, o humor, em sua carapuça stand-up, tem sido bastante exitoso na camuflagem do conservadorismo atroz de nossa sociedade, que ainda mantém elevadores de serviço nos prédios, que possui como 80% de seus deputados homens brancos e que condena o aborto a cada esquina.

Talvez o ethos stand-up traduza de maneira vigorosa o ethos liberal da resolução individual das coisas, das miradas atomizadas, como o comediante sozinho no palco, “com a cara limpa” e com texto próprio, que enfrenta a plateia. O comediante de stand-up talvez seja o simulacro do cidadão consciente que paga suas contas, declara seu imposto de renda, vai à igreja aos domingos e ajuda o Criança Esperança uma vez ao ano: ele dá conta sozinho! A standupização da política dialoga diretamente com outros processos cotidianos do Brasil, como a condominização da vida na cidade (que o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker tem trabalhado de forma original), a gourmetização da culinária (vide os reality shows de chefs que estão em todos os canais de tevê), a realityzação das relações humanas, a coxinhização do eleitorado.

Talvez caiba ampliar a assertiva gramsciana acerca da pequena e da grande política (“é grande política reduzir tudo à pequena política”), afirmando que no Brasil do nosso tempo, é grande política “standupizar” os grandes temas historicamente adiados ou atacados, reproduzindo via humor o que existe de pior no pensamento dominante do/no país e tornando a política uma anedota de quem perde o amigo, mas não perde a piada. Perdemos todos.

REFERÊNCIAS

DUNKER, Christian I. Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo, 2015. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere (v. 3). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 21. ŽIŽEK, Slavoj. “Como Marx inventou o sintoma?” In.: ŽIŽEK, Slavoj (org.). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. p. 59-61.

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Carlos Eduardo Rebuá é Historiador, doutorando em Educação pela UFF e professor da UNIGRANRIO. Dele, leia também, Hereges marxistas: similaridades e permanências, sobre Walter Benjamin e Antonio Gramsci, Sobre Sheherazades, Batmans e demônios, e “Muros e silêncios: o ataque ao Charlie Hebdo em perspectiva ampliada“, no Espaço do Leitor do Blog da Boitempo.