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02 de fevereiro de 2012, 09h48

O capitalismo obsceno

Os dez objetivos do Milênio para o desenvolvimento visam, daqui a 2015, fazer recuar a pobreza, a mortalidade infantil, garantir o acesso à água potável, etc. Qual é o seu custo de realização para o conjunto dos países do planeta? Seria necessário um fluxo de recursos que vai de 121 mil milhões de dólares em 2006 até 189 mil milhões em 2011. É evidentemente mais que a ajuda pública consagrada a estes objectivos, que é hoje de 28 mil milhões de dólares. Mas se acumularmos as necessidades estimadas daqui a 2015, chegamos a cerca de 1200 milhares de milhões. Dito de outra forma, a crise financeira acaba de engolir o equivalente às somas necessárias para arrancar uma boa parte da humanidade da miséria mais negra. Entrámos na era do capitalismo obsceno, e o cobarde alívio das Bolsas, com o anúncio de que as finanças serão suficientemente regadas de liquidez, é uma lição de coisas que teremos todo o tempo para meditar.

Porque nada está acabado, porque as diferentes crises encaixam-se como bonecas russas. A crise propriamente financeira levou o capitalismo à beira da embolia, mas é a crise económica que recebe o testemunho: o que está a partir de agora na ordem do dia é simplesmente a recessão económica. O FMI acaba de rever em baixa as suas previsões2: em 2009, o crescimento será praticamente nulo (0,5%) nos países desenvolvidos, depois de uma forte desaceleração em 2008 (1,5%). O crescimento mundial, sustentado pelos países emergentes e em desenvolvimento cairia para 3%. Para o FMI, "a retomada ainda não está à vista" e só poderá ser "gradual, quando chegar". Um tal cenário é qualitativamente o único que podemos avançar. A saída da crise financeira será, e já é, extremamente custosa e a recessão tomará imediatamente o seu lugar. Contrariamente a outros episódios semelhantes mas de menor amplitude, a retomada da normalidade vai demorar um tempo proporcional às somas absorvidas, e o mais provável cenário é à japonesa, com uma desaceleração durável. Tanto mais que é impossível voltar aos modelos de crescimento seguidos pelos Estados Unidos, a União Europeia ou mesmo a China.

Os grandes críticos empoados do capitalismo financeiro vão rapidamente voltar-se, com a violência dos que sentiram ter escapado por muito pouco, contra os seus verdadeiros adversários: vão congelar os salários em nome da "unidade nacional", promover novas reduções dos orçamentos sociais porque é preciso enxugar todo o dinheiro público desbaratado, etc.

Acrescendo à crise económica, paira a sombra da crise sócio-ambiental. Os preços do petróleo e das matérias-primas baixaram muito, mas será que isso apagou o aumento da fome e a corrida louca ao consumo de energia? Claro que não, mas a crise imediata vai ser um pretexto para relegar para mais tarde o esforço ecológico necessário, com o argumento de que essas preocupações são, apesar de tudo, uma espécie de luxo.

Tudo isto arrisca-se a não passar como uma carta no correio (privatizado): uma vez passado o efeito de choque, a realidade vai vir ao de cima. É justo congelar os salários para poder continuar a pagar os dividendos? É normal ganhar com o custo da crise? É razoável inundar os bancos [de liquidez] sem contrapartida, e fornecer-lhes a munição para a próxima bolha? Por que foi tão difícil encontrar 3 mil milhões para o RSA (Revenu de Solidarité Active, ou rendimento de solidariedade activa), quando bastou um estalar de dedos para encontrar a mesma quantia para salvar o banco Dexia? A partir de todas estas questões, um verdadeiro projecto de transformação social pode ganhar em credibilidade, a partir desta ideia simples: que não se pode mais confiar num sistema decididamente tão apodrecido e tóxico quanto os seus títulos financeiros.

Tradução de Luis Leiria

1Investir no desenvolvimento: plano prático para realizar os objectivos do Milénio para o desenvolvimento. Ver na pág. XII a lista dos 10 objectivos, e a tabela 17.3 na pág. 300 para a avaliação do seu custo.

2FMI, World Economic Outlook, Outubro de 2008.


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