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02 de fevereiro de 2012, 09h48

O combustível que vem da cozinha

Em Montenegro (RS), distante 55km de Porto Alegre, uma iniciativa do Instituto Morro da Cutia de Agroecologia (Imca) está mobilizando os moradores da cidade. A campanha “Sinal verde para o óleo de cozinha” está mostrando que o óleo vegetal, depois de utilizado, não deve ser jogado na pia ou no lixo, hábito que pode contaminar águas superficiais, ecossistemas aquáticos e o solo, impermeabilizando a área afetada.

A campanha, no entanto, vai além do alerta sobre os danos ambientais e sanitários provocados pela destinação inadequada do produto. É que o óleo de cozinha usado, para o Imca, é importante matéria-prima para um biocombustível de eficiência compatível com a do diesel comum. Por isso, a população está aprendendo, também, a coletar o produto, para que ele possa ser reciclado e utilizado como fonte de energia.
A campanha é um desdobramento do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social. Na edição de 2007 do concurso, o projeto “Óleo Vegetal Usado como Biocombustível” foi vencedor da categoria “Aproveitamento e Tratamento de Rejeitos, Resíduos e Efluentes de Processos Produtivos”. Agora, com os R$ 50 mil da premiação, o Imca está investindo na mudança de comportamento dos moradores, na melhoria do sistema de coleta, em equipamentos para o tratamento do óleo usado e na revisão do veículo piloto do projeto.

Para o diretor do Imca, Paulo Roberto Lenhardt, a premiação trouxe visibilidade para o projeto e a oportunidade de novas parcerias. Mas é a palavra reconhecimento que, segundo ele, melhor explica o impacto local e a maciça adesão dos moradores: “Neste aspecto, a premiação foi muito positiva”, diz. Antes, o óleo era recolhido somente de restaurantes. Depois do reconhecimento, o Hospital da Unimed de Montenegro passou a servir como central de coleta do óleo usado nas residências dos funcionários da instituição.

Lenhardt estima que cada morador utilize 0,8l de óleo vegetal por mês e a meta é conseguir coletar 10t de óleo usado até abril de 2009.

Sinal 

Montenegro deu mesmo um sinal verde para a campanha de educação ambiental e coleta de óleo usado. “Estamos intervindo em escolas, associações comunitárias, grupos de pais, em reuniões da terceira idade e até nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) daqui”, comemora a educadora Andréa Caroline Hartmann.

Na rede de ensino pública e privada do município, cerca de 5 mil crianças e jovens em idade escolar estão participando da iniciativa. Nas turmas do maternal, por exemplo, Hartmann conta com o engajamento das professoras e trabalha com crianças de 3 anos de idade ou até menos:“Nessas classes, procuramos mostrar como todos precisamos de água pura e como o óleo contamina a água. As crianças estimulam a mudança de hábitos dos adultos. Certa vez, uma mãe me contou que sua filha pequena disse que ‘lugar de óleo usado é no trator’”, comenta a educadora.

A campanha também ensina como transformar garrafas PET em vasilhames adequados para a coleta e o transporte do óleo doméstico. Depois de utilizada e devidamente acondicionada, a substância segue para os postos de coleta – um em cada bairro da cidade. A motocicleta do projeto, adquirida com parte do dinheiro da premiação, coleta o material e leva tudo para o depósito que funciona em um espaço cedido pela Prefeitura de Montenegro.

“Os moradores se interessam muito pelas questões ambientais, mas a maioria desconhecia o impacto negativo do óleo que é jogado nos lixões ou esgoto. Reciclar é uma coisa prática; algo que eles percebem que podem fazer, como cota individual para a preservação do ambiente”,observa Hartmann.
Tecnologia social – A destinação final do óleo vegetal usado na preparação de alimentos nos lares, restaurantes e indústrias é um problema ambiental pouco discutido. Dentre as soluções conhecidas para a reutilização do óleo vegetal, nenhuma leva em conta as potencialidades de sua utilização como combustível para automóveis e utilitários.

A tecnologia social “Óleo Vegetal Usado como Biocombustível”, além de preservar os recursos hídricos, pode garantir o empoderamento comunitário, ao gerar energia apropriável e reaplicável nas comunidades.

A primeira etapa é a implantação de um sistema de coleta do material. Uma vez recolhido, o óleo é levado à estação de limpeza, onde é filtrado e decantado, tornando-se apropriado para a utilização como biocombustível. Para cada 10l, é possível produzir cerca de 6l de combustível.

O óleo vegetal pode ser usado como combustível nos veículos automotores movidos a diesel adaptados para recebê-lo. Como a conversão é simples e de fácil operação, as comunidades que têm seus veículos convertidos passam a deter todas as ferramentas necessárias para incentivar processos de coleta dentro de suas próprias regiões.

O Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social concede, a cada dois anos, para cada tecnologia social vencedora, R$ 50 mil destinados a atividades de expansão, aperfeiçoamento ou reaplicação do projeto. A premiação busca difundir produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidos na interação com a comunidade, que representem soluções efetivas de transformação social.


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