sexta-feira, 18 set 2020
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O que Obama não diz sobre o Afeganistão

O presidente dos EUA põe-se em posição precaríssima ao conclamar à escalada, na guerra do Afeganistão. Por mais que, para alguns, essa seja “a boa guerra”, a opinião pública nos EUA e no Afeganistão já começa a dar sinais, no mínimo, de confusão.

Há boa razão para desconfiar de que o limitado apoio que a guerra ainda encontra rapidamente se evaporará, tão logo aumente o número de mortos dos dois lados e as forças de segurança do Afeganistão deteriorem-se ainda mais.

Problema importante que surge sempre que se quer avaliar a guerra é a tremenda falta de informação confiável sobre as razões pelas quais tantos norte-americanos opõem-se à guerra.

Especialistas têm observado uma tendência, nas empresas de pesquisa, para “construir socialmente” a opinião pública, mediante o recurso de nunca propor perguntas sobre os desafios morais que se impõem à política exterior dos EUA.

Benjamin Ginsberg argumenta em The Captive Public que “as pesquisas em geral levantam questões que interessam aos clientes e compradores de dados de pesquisa – empresas jornalísticas, candidatos, agências governamentais e corporações comerciais (…).

Perguntas que não têm qualquer importância imediata para os governos, as empresas ou os candidatos jamais aparecem nas pesquisas. Isso é pa rticularmente verdade em relação a questões como a validade do sistema capitalista ou a legitimidade da autoridade governamental, questões que empresários, candidatos e governos preferem jamais propor; nunca, de fato, em pesquisas que sejam pagas por empresários, candidatos ou governos.”

No caso do Afeganistão, as pesquisas perguntam se a guerra “é guerra que vale a pena combater” – “considerando os custos” – e se os EUA estariam “vencendo ou perdendo a guerra”. As pesquisas perguntam aos norte-americanos se “o esforço militar vai bem? Ou vai mal?” De fato, só interessa saber se os norte-americanos ainda creem que ainda seja possível vencer aquela guerra.

Os pesquisadores perguntam aos respondentes se o apoio à guerra está aumentando ou diminuindo. Mas não investigam o que as pessoas pensam sobre o número de mortes entre os afegãos causados por bombas norte-americanas; ou sobre se os bombardeios são meios legítimos para promover valores humanos; ou sobre se os cidadãos apoiarão o fim da guerra se for exigido pelo povo afegão.

É preciso propor muitas outras questões, para determinar se os americanos aceitariam mudanças fundamentais nas políticas dos EUA – mas nenhuma dessas questões aponta para direções que interessem aos pesquisadores explorar.

Os norte-americanos estão muito ansiosos com a escalada no Afeganistão. Em agosto de 2009, pesquisa da ABC-Washington Post descobriu que 51% dos norte-americanos entendem que “não vale a pena guerrear no Afeganistão”.

A mesma pesquisa descobriu também que apenas 24% dos norte-americanos apóiam o envio de mais soldados; 45% apóiam uma diminuição no número de soldados; e 32% apóiam a situação como está hoje. Pesquisa feita em julho pela CNN mostrou que 41% aprovam a continuação da guerra do Afeganistão, contra 54% que se opõem.

Os norte-americanos desconfiam cada vez mais de promessas de usar guerras como instrumento para. Veem a confiança que os EUA sempre demonstram no recurso à violência como contraproducente e perigosa.

Pesquisa do grupo Pew, de fevereiro de 2009 mostrou que 50% dos norte-americanos entendem que reduzir o número de soldados no exterior é fator que contribuirá para “reduzir o terrorismo” (apenas 31% apoiam um aumento no número de soldados na luta anti-terrorismo).

Essa oposição aumentou significativamente depois de 2002 – imediatamente depois dos ataques de 11 de setembro –, quando apenas 29% dos norte-americanos apoiavam a redução do número de soldados empenhados no combate ao terror.

Nenhum desses resultados deve ser interpretado como indicação de que os norte-americanos opõem-se à violência.

O apoio à escalada no Afeganistão ainda é alto; as posições favoráveis à guerra são mais freqüentes entre homens brancos Republicanos e conservadores, e entre os mais idosos e de escolaridade mais baixa.

O Instituto Pew também descobriu que, em julho de 2009, seis de cada 10 norte-americanos são favoráveis à criação de “um programa da CIA exclusivamente para assassinar líderes da al-Qaida.”

Os que apoiam a escalada em Washington serão encorajados pela evidência de que muitos afegãos apóiam a presença dos EUA; mas aí está um resultado de pesquisa que exige interpretação cuidadosa.

É verdade que, segundo pesquisa da BBC, de fevereiro de 2009, cerca de sete em cada dez afegãos estão satisfeitos por os EUA terem derrubado o governo dos talibãs em 2001; e mais de seis em cada dez apóiam a presença de soldados dos EUA no Afeganistão.

À primeira vista, são dados que parecem harmonizar-se com a escalada de Obama no Afeganistão. Obama prometeu “destruir, desmantelar e derrotar a al-Qaida e seus aliados extremistas” inclusive os talibãs.

Esses objetivos são compatíveis com os desejos dos afegãos? A verdade é que não há qualquer evidência de que os afegãos desejem que os EUA combatam os fundamentalistas islâmicos.

Os afegãos querem que os EUA permaneçam no país – não para bombardear “insurgentes” – mas para reconstruir o país. Segundo pesquisa da BBC, em fevereiro, apenas 33% dos afegãos creem que os governos de EUA e do Afeganistão conseguirão algum dia destruir a al-Qaida e os talibãs.

A maioria deles esperam que se configurem cenários alternativos; o cenário mais provável para a maioria dos afegãos será um dos seguintes: 1. os talibãs sairão vitoriosos do confronto; a luta não terá vencedores; ou 3. o governo afegão negociará um acordo com os talibãs. Seja qual for a solução, a maioria não aceita a versão norte-americana da história, na qual toda a vitória será de Obama e toda a derrota será da al-Qaida e dos talibãs.

A maioria dos afegãos opõem-se veementemente à violência do exército dos EUA. Para 77% dos afegãos, essa violência é “inaceitável”; como é inaceitável que os EUA usem seus “ataques aéreos” para derrotar os talibãs e outros combatentes anti-governo” – sobretudo porque esses ataques “são grave ameaça à vida de muitos civis inocentes”.

A maioria dos afegãos tende a culpar os EUA pelo alto número de civis mortos (e a maioria não considera que a culpa caiba às “forças de oposição ao governo” que vivem “misturadas às populações civis”.
A oposição afegã à ocupação tende a aumentar, se houver a escalada que Obama planeja, porque todos esperam mais construções e menos bombardeios. Cerca de 65% dos afegãos ainda não sofreram bombardeios pelos jatos dos EUA, da Otan ou das Forças Internacionais de Segurança.

Se a violência dos ataques dos EUA disseminar-se e alcançar regiões que ainda não foram atacadas, o mais provável é que aumente a oposição pelos afegãos, à presença dos soldados norte-americanos.

Os comandantes norte-americanos não se mostram particularmente interessados em reconstruir o Afeganistão. Por outro lado, o povo afegão só vê aumentarem seus problemas econômicos – pobreza, desemprego –, que os preocupam mais do que quaisquer questões “de segurança” sobre as quais os generais e políticos norte-americanos tanto falam.

Segundo pesquisa feita pela BBC, sete de cada dez afegãos consideram “muito difícil” ou “difícil” a situação de falta de oportunidades econômicas e de empregos. Para a maioria, as condições da infra-estrutura viária do país – estradas e pontes – além do suprimento de energia elétrica são também “muito difíceis” e “difíceis”. Muitos admitem dificuldades para atender às necessidades mínimas de sobrevivência das famílias.

Por que, afinal, surpreender-se por os afegãos não aceitarem com gratidão, as condições de ocupação violenta que lhes são impostas? Que surpresa há, se as pessoas ressintam-se pela falta de emprego e por ver seu país destruído – os parentes e os amigos mortos – em nome do “progresso”, do “combate contra o terror” e da “democracia”?

Como escreveu o jornalista britânico Patrick Cockburn: “No Afeganistão, os exércitos norte-americanos e britânicos intrometeram-se em guerras civis que a simples presença de estrangeiros exacerbaram e tornaram mais inextrincáveis. Os governos dos EUA e do Reino Único persistentemente ignoraram o quanto a ocupação militar desestabilizou o Afeganistão (…). Potências ocupantes só muito raramente foram bem acolhidas, em toda a história. Forças de ocupação são regidas, primeiro, pelos seus próprios interesses econômicos, políticos, militares; muito mais, sempre, do que pelos interesses dos governos aliados que a ocupação apóia ou espera-se que apóie. Isso roubou legitimidade ao governo de Cabul e permitiu que seus opositores aparecessem como oposição patriótica. Além disso, exércitos estrangeiros, sejam quais forem suas intenções declaradas, sempre se impõem pela violência – o que invariavelmente cria atritos com as populações locais.”

Faríamos muito bem se levássemos muito a sério as observações e intuições de Cockburn, sempre que se considere, nos EUA, a expansão da guerra do Afeganistão.

*Anthony DiMaggio é professor de Política Norte-americana e Global, na Illinois State University. É autor de Mass Media, Mass Propaganda (2008) e de When Media Goes to War (no prelo). Recebe e-mails em [email protected] Original em http://www.counterpunch.org/dimaggio08312009.html, publicado no Vermelho.

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