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28 de agosto de 2007, 18h03

Olívio Dutra pede resgate de valores e da inserção popular do PT

Para o ex-governador do RS, partido ajuda mais seus governos como interlocutor dos movimentos populares do que só fazendo propaganda da gestão

Para o ex-governador do RS, partido ajuda mais seus governos como interlocutor dos movimentos populares do que só fazendo propaganda da gestão

Por Anselmo Massad 

O ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro das Cidades, Olívio Dutra, acredita que os delegados não vão ao 3º Congresso do PT para levantar crachás. Ele acredita na possibilidade de construção coletiva dos rumos do partido, ainda que os signatários da tese “Construindo um novo Brasil” tenha maioria.

Dutra, presidente do diretório estadual do partido, integra a corrente Democracia Socialista (DS). Ele defende o resgate de valores do partido, como a aproximação com o movimento social e na inserção popular. “O PT ajuda mais os governos sendo interlocutor do que apenas como propagandista das gestões”, sustenta.

O 3º Congresso ocorre de sexta-feira, 31 de agosto, a domingo, 2 de setembro, em São Paulo. A Fórum terá cobertura direto do Centro de Exposição Imigrantes.

Fórum – Quais são suas expectativas para o 3º Congresso do PT?
Olívio Dutra –
Como um dos milhares de militantes e um dos fundadores do PT, tenho a melhor das expectativas para o Congresso. Não poderia ser diferente. Viemos de um processo de organização de baixo para cima e, na etapa nacional, tem que culminar em um resgate de valores históricos. Um deles é a busca pela construção do bem comum com protagonismo do povo brasileiro. Outro ponto é que o PT não surgiu de gabinetes. Ao conquistar espaços institucionais, é preciso lutar por mudanças no Estado, por justiça, igualdade, radicalidade democrática, um socialismo democrático. Do Congresso, temos que sair com clareza sobre esses valores. Tem que dar apoio e sustentação para representantes no Legislativo e no Executivo, mas precisamos reafirmar os projetos estratégicos de transformação da sociedade. Não pode ser o partido da acomodação, mas o da transformação, e colocar o Estado dentro da função pública. Um outro valor fundamental é a auto-sustentação financeira do partido que não pode depender da receita de [parte do salário de militantes em] cargos públicos. O PT tem que ter vida não só nas eleições internas ou gerais, e não depender nem de gabinetes nem de algum mecenas. Recuperar essa cultura por parte dos militantes, cada um segundo suas possibilidades é uma necessidade.

Fórum – Uma das críticas internas ao PT durante a crise de 2005 era direcionada à falta de democracia e transparência internas. O senhor fala de resgate de valores e aproximação da base. Continua a faltar democracia interna?
Dutra –
Um dos valores do PT é sempre aprender e não ter distância, nem nas instâncias municipais, nem estaduais, nem nacional, entre dirigentes e a base. Os dirigentes não podem se comportar como educadores que se dirigem aos educandos da base, mas ambos são, ao mesmo tempo, educadores e educandos. É preciso aprender também com o povo, e permitir que o partido seja instigador da mobilização popular – não os únicos nem os “certos”, mas provocadores permanentes.

Fórum – O 3º Congresso chega com maioria de delegados signatários da tese “Construindo um novo Brasil”, entre os quais muitos dos integrantes do antigo Campo Majoritário. Diante disso, há possibilidade de mudanças nos rumos do partido?
Dutra –
Os delegados não vão ao Congresso para levantar crachás de acordo com a posição de caciques. Aliás, esse é outro valor a resgatar. Eles vão ouvir e construir juntos, dentro do Congresso, a linha do partido. O PT tem uma rica vida interna, a organização em correntes é positiva e é de sua natureza, mas nenhuma delas pode se arvorar como superior à instância partidária. O mesmo vale para os dirigentes, independentemente do cargo que ocupem. O melhor momento para afirmar isso é no Congresso, o terceiro em 27 anos de existência do partido. Em todas as teses há elementos que permitem ao partido sair revigorado, preparado para o desafio de levar o governo presidido por um dos fundadores do PT a aprofundar as mudanças já iniciadas. O projeto do partido não pode ser prisioneiro de uma administração, seja federal, seja estadual, seja municipal. O PT tem de ser interlocutor do desejo de mudança. Ninguém tem ilusão de que todas as mudanças represadas por séculos possam acontecer assim que se conquistar espaços institucionais, mas é preciso buscá-las junto com os movimentos sociais. Inclusive na defesa de valores republicanos, de respeito à igualdade, à fraternidade, à democracia, ao dinheiro público. Há o desafio dos próximos anos, com Lula na Presidência e, depois, sem Lula. Precisamos de um projeto estratégico de partido, para enfrentar o neoliberalismo.

Fórum – Essa interlocução com os movimentos sociais e o não-alinhamento automático com o governo é uma crítica que ocorreu tanto no primeiro mandato de Lula quanto em outras administrações petistas. Há mais condições agora para agir de modo diferente?
Dutra –
Amadureceu em todos nós, no exercício ou não de cargos públicos, que o PT ajuda mais os governos sendo interlocutor do que apenas como propagandista das gestões. Tem que sustentar suas administrações, mas sem esquecer das lutas com o povo. Tem que resgatar a inserção com o povo, que não faz mal, só faz bem.


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