Seja #sóciofórum. Clique aqui e saiba como
06 de junho de 2007, 19h53

Operação Navalha criou clima de "tensão" entre políticos e empresários

Tão logo a Polícia Federal começou a revelar os laços de “intimidade” do dono da empreiteira Gautama com os círculos do poder, um clima de nervosismo passou a dominar os corredores do Congresso e os gabinetes do governo federal e de muitos governos estaduais e prefeituras. E não só nas esferas de governo, mas também nos escritórios de muitas empreiteiras, o clima é de apreensão. Isso porque ninguém, nem mesmo a Polícia Federal, sabe até onde as investigações irão chegar.

A Operação Navalha, deflagrada pela Polícia Federal na última quinta-feira (17), não resultou apenas na prisão de 47 pessoas. A operação, que investiga desvio de verbas e favorecimentos envolvendo obras públicas, provocou também um grande reboliço nos meios políticos e empresariais.

Entre as 47 pesoas presas durante a operação, pelo menos uma dezena é de políticos e ocupantes de cargos de confiança em órgãos governamentais. Outros tantos são empresários, entre eles o empreiteiro paraibano Zuleido Veras, dono da construtora Gautama, pivô do escândalo.

Segundo relatos recentes de Zuleido a políticos, a Gautama já administra obras federais e de governos estaduais que somam R$ 1,5 bilhão. Esse valor não significa o faturamento da empresa, mas a expectativa de realização de obras.

Para conseguir a liberação desses recursos públicos, Zuleido tem estratégia própria: não é empresário ligado a este ou aquele partido, mas um “homem de negócios” que se relaciona com quase todos as legendas partidárias.Tanto é assim que as prisões e mandados de busca e apreensão realizados na Operação Navalha atingiram gente do PMDB, PT, PSB, PDT, PSDB, DEM (ex-PFL) e PPS.

Zuleido é um homem que gosta de contar vantagens para impressionar seu interlocutor. A frase preferida dele é: “Ali eu mando”. E cita, na seqüência, um político ou autoridade. Também gosta de afirmar: “Eu sou íntimo de fulano”.

E é justamente por causa desta “intimidade” com os círculos do poder que, desde quinta-feira, nos corredores do Congresso, nos gabinetes do governo federal e de muitos governos estaduais e prefeituras sente-se a tensão no ar. E não só nas esferas de governo, mas também nos escritórios de muitas empreiteiras o clima é de apreensão. Isso porque ninguém, nem mesmo a Polícia Federal, sabe até onde as investigações irão chegar.

Pelo que a polícia descobriu até agora, Zuleido corrompeu pelo menos 32 agentes públicos com dinheiro, presentes, viagens e outros tipos de suborno para garantir ou acelerar a liberação das verbas que sustentavam a empresa.

“Doa a quem doer”

Todas as principais lideranças do governo têm afirmado que a Operação Navalha é positiva e ajuda a afastar os maus elementos da administração pública e das esferas de poder. O próprio presidente Lula afirmou que operações como essa devem ser incentivadas “doa a quem doer”.

Mas, segundo informações de bastidores obtidas pelo jornalista Josias de Souza, até mesmo o presidente tem manifestado preocupação com os desdobramentos da operação. “Municiado de informações pelo ministro Tarso Genro (Justiça), Lula se diz preocupado com os desdobramentos da Operação Navalha. Receia que o novo escândalo volte a conferir ao Congresso ares de delegacia de polícia, envenenando uma pauta de votações que ainda inclui medidas privisórias do seu PAC.”, especula o jornalista em seu blog.

Esta anunciada tensão justifica-se. A crise política de 2005-2006 cujo epicentro foram as denúncias sobre o chamado –e até hoje não comprovado–“mensalão” deixou uma triste memória. Por coincidência ou não, foi também na segundo quinzena de maio, mais precisamente em 16 de maio de 2005, que a revista “Veja” publicou a reportagem com o “homem-chave do PTB” Maurício Marinho, chefe do Departamento de Contratação e Administração de Materiais dos Correios, que acabou detonando a maior crise do governo Lula.

Nas denúncias que se seguiram, surgiram dezenas e dezenas de nomes que a imprensa transformou em suspeitos e contra muitos dos quais nunca se provou nada. Ainda assim, são expostos até hoje a situações de constrangimento.

O mesmo ocorreu com as denúncias oriundas da Operação Sanguessuga – aquela que detonou o escândalo do uso de recursos públicos para a compra e venda superfaturadas de ambulâncias destinadas a prefeituras – em que muitos nomes foram denunciados mas poucas provas foram encontradas.

No caso da Operação Navalha, a situação pode se repetir. Afinal, Zuleido está para a Operação Navalha assim como Luiz Antônio Vedoin esteve para a Operação Sanguessuga e dependerá dele abrir ou não a “caixa de pandora” das obras financiadas com dinheiro público.

Até o momento, a PF diz ter encontrado uma lista com o nome de governadores, prefeitos e grande número de parlamentares federais e estaduais, entre os quais pelo menos três senadores. Ao lado dos nomes aparecem valores e anotações que poderiam sugerir o envolvimento deles com os esquemas da Gautama. Também já circulam pela imprensa o nome de outras três empreiteiras que supostamente estariam usando os mesmos expedientes da construtora de Zuleido.

Mas entre ter o nome numa lista e estar efetivamente envolvido em práticas ilícitas existe um abismo de diferença.

O problema é que boa parte dos editores que atuam na chamada “imprensa grande” estão mais preocupados em vender escândalos do que propriamente apurar as denúncias.

E é esse comportamento da imprensa que mais assusta políticos e empresários que em algum momento tiveram relações diretas ou indiretas com os personagens envolvidos no escândalo deflagrado pela Operação Navalha.

Em texto publicado no site Conversa Afiada, o jornalista Paulo Henrique Amorim chega a brincar com a situação. Depois de listar quase uma dezena de grandes construtoras que estão “sob suspeita”, ele provoca: “Qual será o(a) primeiro(a) político(a) brasileiro(a) suficientemente macho para subir à tribuna da Câmara ou do Senado e pedir para abrir uma CPI da empreitagem nacional?”

 

Vermelho


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum

#tags