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02 de fevereiro de 2012, 09h48

Opinião: A crônica do juro virado do avesso

Juro que não consigo entender: quando o Brasil estava em crise, sem crescimento econômico nenhum, como foram os anos 90, o governo brasileiro, comandado pelo Banco Central, colocou os juros no topo do mundo, totalmente bizarro diante de todas as outras economias nacionais, tanto de países ricos quanto de países pobres, tanto de países ultra-neoliberais quanto de países nacionalistas e socialistas. Os discursos oficiais insistiam que os juros altos garantiam o controle do consumo e o combate à inflação. Na definição dos gênios dessa política, o consumo de bens é gerador de inflação. Se fosse verdade, os Estados Unidos seriam o país mais inflacionário do mundo, pois consumo é o que não falta. Em compensação, muitos brasileiros continuam fora da sociedade de consumo porque o Banco Central faz de tudo para não transformar o consumo em inflação. Pimba! Juros altos sufocam o consumo!

Juro que não consigo entender: quando o Brasil começou a navegar em águas mais tranqüilas, nos anos 2000-2007, em parte porque os especuladores internacionais estavam ganhando muito dinheiro fácil com a papelada sem lastro na produção, os governos de plantão, seus economistas, empresários e banqueiros – todos proclamaram com bastante ufanismo que o País tinha tudo para crescer, que a economia estava bem, que agora sim tudo seria melhor. Mesmo nesse céu de brigadeiro os juros continuaram muito altos, baixaram um pouco, é verdade, mas ainda ficaram entre os mais altos do mundo. De novo, os discursos oficiais diziam que os juros ajudavam a fazer um crescimento sem inflação, já que o importante era combater a perspectiva de inflação. Portanto, vivemos alguns anos considerados sem nenhuma crise, mas os juros fixados pelo Banco Central do Brasil continuaram os mais altos do mundo.

Juro que não consigo entender: agora que o Brasil volta a enfrentar a ameaça de uma nova e grave econômica, junto com uma crise mundial iniciada nos Estados Unidos e imediatamente espalhada pelos países ricos mais envolvidos com a economia norte-americana, e que ameaça pegar o Brasil mais uma vez no contrapé, de novo as autoridades preferem segurar os juros lá no alto, no marco dos 13,75% ao ano, acima da maioria dos países capitalistas e socialistas do mundo, acima de ricos e pobres, acima do próprio centro da crise, os Estados Unidos, que decidiram baixar os juros para 1% ao ano. Isso mesmo, o centro da crise coloca o juro do dinheiro oferecido para a indústria, o comércio e os consumidores a 1% ao ano, enquanto o Banco Central do Brasil aprova categoricamente a taxa de 13,75% ao ano.

O que acontece com o Brasil? Depois de tentar entender a relação da taxa de juros com a situação geral da economia, com o crescimento positivo ou negativo do PIB, com o aumento do consumo e da inflação, cheguei a conclusão de que a fixação da taxa de juros no Brasil não tem nada a ver com a conjuntura econômica, não tem nada a ver com nada. É preciso entender a taxa de juros como uma bela cortesia que o Banco Central, na condição de representante dos bancos privados e do capital internacional no controle do cofre público, faz com a poupança do povo brasileiro: repassa às elites nacionais e aos especuladores internacionais, grandes corporações e bancos que operam no Brasil. Trata-se de um confisco nítido e claro da riqueza produzida pelos trabalhadores brasileiros que é transferida para os centros de acumulação de capital. Os juros têm a ver apenas com a remuneração certa dos especuladores – nada mais do que isso. Não tem a ver com consumo e muito menos com inflação, não tem a ver com câmbio e nem com comércio exterior. É a taxa que pagamos todos nós porque vivemos num País sem soberania, tutelado pelo Banco Central. É apenas um País que paga para sobreviver. E muito mal…

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Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor da PUC-SP

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As opiniões manifestadas no artigo são da responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as opiniões da revista Fórum.


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