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02 de fevereiro de 2012, 09h48

Opinião: Intolerância

Levaremos muitos anos até que a democracia se consolide para além do voto universal e sigiloso e de eleições periódicas. Ela precisa compor o pensamento e a prática cotidiana.

A intolerância que se manifesta contra os movimentos grevistas, movimentos sociais, protestos de rua não se atém ao repúdio dos empregadores e governantes, atingindo todas as classes da pirâmide social.

Diante de um movimento grevista, ouve-se habitualmente: “quem não está contente com o salário devia procurar outro emprego”.

Se um desinteressado pelas notícias ouvisse os últimos pronunciamentos sobre a greve dos policias em São Paulo, suporia tratar-se de documentário do período da ditadura militar.

Vamos esquecer, apenas por um momento, que se trata de policiais e, que a greve deles está proibida.

Como se justifica tanto temor por que pessoas protestam na frente da sede de um governo? Se esses trabalhadores são empregados do governo estadual de São Paulo, onde deveriam mostrar seu descontentamento? No monumento dos Bandeirantes?

Três barreiras da Tropa de Choque da Polícia Militar, cavalos, cachorros, bombas de gás lacrimogênio e outras de “efeito moral” – eu os vi.
É… “negociação é coisa para se fazer na mesa e não com armas que devem ser usadas contra bandidos”. Isso disse o governador Serra, na maior incoerência, no maior cinismo (será que é possível enganar toda a população? Talvez seja…).
O próprio governo transgrediu os limites da paz ao hostilizar, ao provocar com medidas de segurança tais que transformou aquele espaço num campo de guerra. Quem usou as armas de combater bandidos contra os policias foi o governo do estado de São Paulo.

E as citações:
– “Viram-se bandeiras da CUT e da Força Sindical” – como se fossem grupos terroristas. São legítimos representantes dos trabalhadores e não só podem como devem estar representados nos seus movimentos;
– “Tinham um carro de som” – por que não? Que ordem de alegações condenaria grevistas por comunicarem à população as razões do seu movimento?
– “Há partidos políticos por trás do movimento” – que argumento mais antigo, mais covarde! Na ditadura se dizia que estudante foi feito para estudar, trabalhador para trabalhar e que não deviam confundir tais campos de atuação. Como se a sociedade sofresse de esquizofrenia crônica (“fragmentada e com perda de contato com a realidade”).
Tão intransigentes esses trabalhadores (!) que bastou um carro e um deles pedir calma que o confronto terminou, com várias pessoas feridas, como se verificou no confronto. Precisava? Era necessário? Por que não deixar que os manifestantes seguissem em passeata até o Palácio? Chamassem para um entendimento, mostrassem verdadeira vontade de negociar de forma leal, com transparência.

Que medo é esse? Que menosprezo é esse para com a categoria dos policiais? Entre o povo e os cavalos, os cavalos.

Voltando à proibição da greve desta categoria, concorde-se, como esta, outras são essenciais à integridade do cidadão, porém, e justamente porque atividades essenciais, que razão justifica serem tão maltratadas, mal reconhecidas?

E se todos os descontentes pedissem demissão? Quem assumiria o risco de perder a vida, todos os dias, na cidade mais violenta do país? Ah, avive-se a memória, por apenas três a cinco salários mínimos. Explique-se: identificou-se o serviço como essencial, mas não pode reivindicar um salário essencial para a sobrevivência da própria família. A insensibilidade decorre justamente desse “detalhe”.

A quem interessa o exibicionismo e a demonstração de força? A imagem de governante que, do alto, emite ordens insensatas porque não transige com bandidos e nem com policiais – tratados da mesma forma.

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Mírian Gonçalves é mestre em Direito do Trabalho, pela Universidad Internacional de Andalucía. Atua há mais de 20 anos como advogada trabalhista no Paraná.


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