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08 de fevereiro de 2012, 19h05

Opinião: O Brasil entre duas comemorações

A revista francesa Le Nouvel Observateur contém o olhar da elite do mundo e suas informações são comprovadas por uma equipe internacional de jornalistas. O número que saiu no Natal de 2008 veio com muitas informações sobre os países do chamado mundo dos pobres. O que mais me surpreendeu foi a reportagem principal da revista, o dossiê deste mês: uma grande reportagem de várias páginas sobre a solução que as empresas ricas encontraram para ajudar os países pobres. O título da reportagem é “20 milhões de hectares no mercado: os países pobres estão à venda”. Assinado por um jornalista chamado Doan Bui, o artigo começa colocando o problema: “Como alimentar seu povo, quando se tem gente demais e poucas terras cultivadas? Basta procurar onde estas terras estão. É assim que a China, a Coréia do Sul e os Estados do Golfo se lançaram em uma verdadeira corrida à terra. Não estão interessados em comprar apenas colheitas inteiras. Compram regiões inteiras, em países nos quais o governo não tem como alimentar sua população.

O artigo continua contando uma espécie de leilão entre os ricos da terra: “Quem quer comprar o Sudão?”. Eu compro o Kazakistão”. E aí vêm as cifras espantosas: “A Indonésia vendeu 1, 6 milhões de hectares de terra para a produção de soja, cana de açúcar e arroz. O Congo vendeu um milhão de hectares à China. O Zimbábue vendeu 100 mil hectares para o mesmo governo chinês. Quase caí para trás quando vi o mapa da América Latina em vermelho e os dois países que mais venderam terra a investidores estrangeiros: A Argentina com 4,5 milhões de hectares de terra vendidos e o Brasil com 2,2 milhões de hectares adquiridos por estrangeiros, somente entre novembro de 2007 e maio de 2008. Suspeita-se que este número mais do que triplique se entrarem as terras vendidas a estrangeiros na Amazônia nos anos do governo Lula. O jornalista conta que os governos estão felicíssimos com o investimento ganho. Em alguns países tem surgido um pequeno problema que os investidores internacionais contam com o governo para solucionar: a resistência de um ou outro grupo minoritário de índios ou de lavradores sem terra que não aceitam deixar suas lavouras para a agroindústria avançada e atrapalham o progresso do país. Também, neste ponto, diz a reportagem, o país mais complexo é justamente o Brasil, porque existe um tal de “Movimento dos Lavradores sem Terra (MST)” que as multinacionais e a grande imprensa tentam há anos criminalizar, mas, infelizmente conta com o apoio e o crédito de vários organismos internacionais da ONU. Tendo recebido prêmios internacionais pelas vitórias que têm alcançado no campo da educação, este movimento é o único obstáculo para que o Brasil não seja vendido a empresas estrangeiras, amigas do governo brasileiro.

Confesso que nunca imaginei ler um dossiê como este em uma revista internacional européia. Esta leitura dolorosa e espantada coincide com o convite que recebo para viajar ao sul e participar, junto de personalidades do Brasil e de outros países, das comemorações do aniversário de 25 anos do MST que, de fato, eu assessoro no campo da educação e da espiritualidade, desde o surgimento do movimento em 1984.

Atualmente, o movimento envolve em seus quadros mais de um milhão e meio de pessoas. Segundo os dados da FAO, organismo da ONU, são 350 mil famílias assentadas já com posse da terra adquirida e mais de cem mil acampadas, em situação precária e esperando a legalização do INCRA. Em todo o Brasil, o MST sustenta 400 associações de produção, comercialização e serviços. Coordena 49 cooperativas de produção agro-pecuária que atingem e ajudam a 2299 famílias, antes jogadas nas periferias de nossas cidades, sem perspectiva de vida e de futuro e, hoje, produzindo quase 70% da alimentação que chega às feiras de nossas cidades. O prêmio internacional que o MST ganhou em Bruxelas foi por causa do sucesso das 1500 escolas públicas nos assentamentos. Elas atingem 150 mil crianças que estudam da primeira à quinta série. São 3500 professoras/es que dedicam suas vidas a esta causa e toda vez que passamos em um assentamento do MST, é bonito e comovente ver a organização das crianças e como participam de toda a vida da comunidade e, de fato, superaram aquela fase difícil em que a geração dos jovens não queria voltar ao campo e tinha dificuldade de acompanhar os pais. Ao ver em casa a comida na mesa e a terra não só como lugar de trabalho, mas de relação humana e de equilíbrio ecológico e familiar, a sedução da cidade é vencida.

Infelizmente, muitos brasileiros continuam preferindo celebrar a venda do Brasil às multinacionais do que a vida e a liberdade do nosso povo do campo. Infelizmente, quem não apóia a realidade dos lavradores, acaba sendo cúmplice da entrega de nossas terras aos estrangeiros. Que o MST complete mais 25 anos e Deus o abençoe e o conduza sempre.

Marcelo Barros é monge beneditino e escritor. Tem 30 livros publicados, dos quais o romance indigenista: "A Noite do Maracá"(Goiás- Rede da Paz).

Publicado originalmente no Brasil de Fato.


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