No rastro do óleo do Nordeste
08 de novembro de 2019, 12h15

Os próximos desafios políticos de Lula, por Sidney Rezende

A liberdade de Lula dá uma paulada na moleira da Operação Lava Jato e nos outrora temidos procuradores do MP

Foto: Ricardo Stuckert

Por Sidney Rezende*

Lula livre não é só bordão. Quando o ex-presidente deixar o cárcere especial da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, ele será o animal político mais valioso da fauna brasileira solto no mundo. Para se ter uma ideia da relevância da decisão do STF contra prisão após segunda instância por 6 votos a 5, em menos de 1 hora após o anúncio, os veículos de comunicação estrangeiros já davam destaque sobre o que isso significaria para o futuro recente do Brasil.

Lula já disse que sai da prisão ainda mais “esquerdista” do que entrou. E que quer jogar pelada com a turma do MST. Não só isso. Já antecipou para amigos que ele gostaria de visitar o Papa Francisco no Vaticano e ir à posse do novo presidente da Argentina, Alberto Fernández, marcada para 10 de dezembro, em Buenos Aires.

Fernández venceu as eleições pela coalizão de esquerda Frente de Todos e sua vice é a senadora Cristina Kirchner, ex-presidente do país, muito amiga de Lula.

Ao Papa, Lula agradecerá o apoio humanitário recebido durante um ano e sete meses de confinamento no Paraná.

Na Argentina, Lula será tratado com deferência, até porque o presidente Jair Bolsonaro tornou-se um inimigo de primeira hora. A razão do desalinhamento não é só ideológica. Há motivações por ataque a interesses econômicos dos hermanos.

É nítida a insatisfação do governo argentino com o acordo entre Brasil e Estados Unidos para a importação de trigo americano livre de taxas – uma violação da tarifa externa comum do Mercosul que prejudica as tradicionais exportações do país vizinho. Este dado econômico aproxima ainda mais Fernández e Kirchner de Lula.

A difícil união das esquerdas

Superada a agenda “diplomática”, digamos, Lula se encarregará de costurar alianças poderosas para 2022. Não esqueça que o líder petista está inelegível até 2035. Para ele, interessa estar apto para disputar eleições não só para ser o cabeça de chapa “natural” do PT, mas ele pensa estar com condições plenas de ser um surpreendente “vice” como fez Cristina, na Argentina, e tenta fazer Rafael Correa, no Equador, presidente de seu país de 2007 a 2017.

Lula sonha unir as “esquerdas” em torno de um projeto sólido. Mas será que Ciro Gomes, do PDT, está disposto, novamente, a ceder sua vez? Aparentemente, não.

O PSOL marcharia unido em apoio a quem Lula indicar? Aparentemente, não.

O PCdoB que tem o trunfo na manga Flávio Dino, governador do Maranhão, para ser protagonista do pleito de 2022, faria hoje o que Lula mandar? Aparentemente, não.

Como se vê, a engenharia a ser desenvolvida não é desafio para amadores. Os partidos aliados do PT não aceitam mais o desenho “Lula, único líder”, “Lula é democracia e soberania numa só vez”… Não é esta a vibe do momento. O quadro mudou.

A liberdade de Lula, no entanto, dá uma paulada na moleira da Operação Lava Jato e nos outrora temidos procuradores do MP. Será a cereja no bolo se Deltan Dallagnol for condenado na próxima terça-feira (12). A ação, movida pelo presidente do STF, Dias Toffoli, pede que o procurador seja punido por dizer em entrevista que as decisões tomadas por ministros da corte passam a mensagem de leniência com a corrupção.

Vamos acompanhar os desdobramentos.

*Sidney Rezende é jornalista e editor do Portal SRzd

Texto publicado originalmente no SRzd

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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