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08 de fevereiro de 2012, 19h13

Os EUA e a maior crise de refugiados do planeta

Não há nenhuma dúvida: a terrível crise humanitária que neste momento ocorre na área do Nordeste do Paquistão, fronteiriça com o Afeganistão e descrita pelo Alto Comissariado para os Refugiados da ONU (UNCHCR, em inglês) como a pior crise de refugiados desde a crise no Ruanda em 1994, foi causada diretamente pelo governo dos Estados Unidos e pelo Pentágono.

Mais de 2 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar os seus lares quando o exército paquistanês, financiado e equipado pelo Pentágono, entrou no Vale Swat após uma semana de intensos bombardeamentos com aviões de guerra e helicópteros equipados com metralhadoras.

A UNCHCR disse que quase um milhão e meio de pessoas se registaram para receber assistência desde que a luta começou, elevando o número de deslocados na província fronteira noroeste para mais de 2 milhões, sem incluir os 300.000 que o governo provincial crê que não se registaram (The Guardian/UK, 19 de Março). Grande parte da população na área está em sofrimento. "Segundo os relatos da ONU, somente 130.000 pessoas estão acomodadas nos campos dos distritos de Mardan e Swabi, enquanto que a maioria está sendo forçada a alojar-se com amigos e parentes, até 85 pessoas numa casa", continua a relatar o Guardian.

Não há uma contagem dos mortos nem dos feridos. Não se permite que a imprensa entre na área.

Washington exigia esta ofensiva há muitos anos. Ainda o general Pervez Musharraf era o ditador "eleito" do Paquistão, e alguns artigos no New York Times e no Washington Post expressavam as frustrações da política exterior dos Estados Unidos e dos militares pela sua hesitação em se movimentar contra estas regiões semi-autônomas ao largo da fronteira.

Musharraf teve que entregar o seu posto quando, há um ano, um movimento popular massivo colocou o partido da oposição na liderança, e a sua candidata presidencial, Benazir Bhutto, foi assassinada depois do seu regresso do exílio. O seu lugar foi ocupado pelo marido, Asif Ali Zardari.

Zardari, agora presidente do Paquistão, cedeu à tremenda pressão de Washington e lançou a ofensiva contra as áreas que os Estados Unidos afirmam estar controladas pelos Talibans, um grupo político-religioso que os Estados Unidos apoiavam até há pouco, quando queriam derrubar o governo progressista do Afeganistão, que estava próximo da União Soviética.

Uma abominável mudança de comando
Ao mesmo tempo, o Secretário da Defesa dos Estados Unidos Robert Gates, substituiu o comandante no Afeganistão, general David McKiernan, pelo tenente General Staley McChrystal. McKiernan era mau. Parece que McChrystal será ainda pior para as gentes desse país.

O currículo de McChrystal inclui anos no cargo de Comando de Operações Especiais Conjuntas, efetivos “special ops”, que são treinados para ignorar as leis convencionais da guerra e foram descritos como tipos que “cortam pescoços e comem serpentes”. Em outras palavras, são os especialistas na forma mais depravada de matar.

A administração Obama também enviou mais alguns milhares de tropas dos Estados Unidos para o Afeganistão, apesar do óbvio mandato que recebeu do povo para acabar com as guerras, ali e no Iraque, e trazer as tropas para casa.

Todo este sangue derramado e as ameaças não podem apagar o fato de a guerra dos Estados Unidos no Afeganistão estar num profundo aperto. Admite-se nos meios de comunicação ocidentais, cada vez mais abertamente, que a população está claramente contra a guerra e a ocupação. Os protestos ocorrem com regularidade, especialmente quando mais uma pequena povoação foi bombardeada e dezenas de pessoas são incineradas ou despedaçadas por bombas dos EUA. 

À sua maneira típica, os imperialistas intensificam a guerra para a tentar alterar. Despoletaram uma cadeia inteira de circunstâncias no Paquistão, esperando forçar uma confrontação entre muçulmanos militantes contra os que desejam um país secular. Contam também em usar o exército paquistanês contra o povo, tal como fizeram anteriormente, com êxito, com uma larga série de ditadores militares sustentados pelos EUA.

O império britânico foi construído apoiando-se na estratégia de dividir para conquistar. Seria útil aos falcões do Pentágono recordarem o que se passou com os britânicos quando tentaram conquistar o Afeganistão em outra ocasião, nos anos 1890.

Os britânicos destruíram mas não conquistaram
Apesar da sua política de terra queimada e do emprego de soldados mercenários da Índia, os britânicos não puderam conquistar Malakand, a mesma região que agora é bombardeada, na sua campanha de 1897 contra o povo pashtu. O próprio Winston Churchill participou nessa campanha e escreveu um livro vilmente racista sobre o tema.

Os britânicos possuíam metralhadoras e puderam massacrar os heróicos defensores pashtus, mas nunca os puderam conquistar.

Hoje, o diretor da região Ásia-Pacifico da Amnistia Internacional, Sam Zarifi, afirmou que o exército paquistanês "parece que está prosseguindo uma política de terra queimada" em Malakand. O exército impôs uma política de "disparar contra tudo o que mexa", contra qualquer pessoa que viole o toque de recolher indefinido que se impôs. (Washington Post, de 14 de Maio)

Mas o espírito de resistência á dominação imperial/colonial que derrotou os britânicos em 1897 continua forte no Vale Swat e na região inteira da Fronteira Noroeste. As atrocidades mais recentes irão marcar mais profundamente o coração das gerações futuras.

Deirdre Griswold é membro do Workers World Party e foi candidato à Presidência da República dos EUA em 1980.
Tradução de Guilherme Coelho.

Publicado em ODiario.info.


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