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08 de fevereiro de 2012, 19h13

Os índios em plena metrópole

Crianças correm por uma rua estreita, em meio a barracos de madeira, carros estacionados e engradados de bebidas empilhados na porta de um boteco. A poucos metros dali, numa dessas casas humildes, uma cena incomum em uma metrópole como São Paulo: um grupo de índios canta e dança, rodando em círculos. Eles usam uma vestimenta típica que cobre a cabeça e o corpo e seguram um chacoalho nas mãos, o maracá. Batem o pé com força no chão de tábua, marcando o ritmo da dança. O barulho não assusta a vizinhança, já acostumada com o ritual.

No local, no meio da favela Real Parque, Morumbi, zona Sul da capital paulista, funciona a sede da Associação SOS Comunidade Indígena Pankararu. O burburinho e a agitação ouvidos do lado de fora sugerem uma grande festa.

Em um dos barracos, todo enfeitado com quadros de santos e peças do artesanato indígena, há uma surpresa: uma aula prática da oficina de vídeo dirigida a crianças e adolescentes pankararus. O pequeno Tales, de oito anos, entrevista o avô, Manoel Alexandre Sobrinho, mais conhecido como Bino Pankararu, líder do grupo indígena, um dos fundadores e atual presidente da associação. Seguindo uma pauta elaborada pelos próprios jovens, o menino pergunta sobre o modo de vida tradicional na aldeia em Pernambuco, a alimentação, a cultura e os motivos da migração para São Paulo.

Emocionado, Bino conta aos jovens que a miséria e a seca os obrigaram a sair da aldeia de Brejo dos Padres, na região do rio São Francisco, a 412 quilômetros de Recife (PE), em busca de melhores condições de vida. Atentas, as crianças indígenas aprendem a importância de manter suas tradições e a ter claro que índio é índio em qualquer lugar. “O japonês ou o africano, quando saem da área deles, não deixam de ser o que são. O fato de morarmos em cidades não significa que renunciamos a nossa cultura e nossos direitos”, ressalta Bino. A oficina de vídeo é parte do projeto “Mais Saúde e Nutrição para o Povo Pankararu” desenvolvido pela ONG Nossa Tribo.

Os indígenas paulistanos
Os índios pankararus chegaram a São Paulo na década de 50 e participaram da construção do estádio do Morumbi. Por isso, fixaram residência nas proximidades. Com o tempo, vieram outras famílias. Hoje, somam 116 na favela do Real Parque, num total de 509 integrantes, que representam o maior núcleo fora da aldeia em Pernambuco. Mas os pankararus já se espalharam por toda a Grande São Paulo. Cerca de 2 mil membros do povo indígena estão distribuídos por outras favelas e bairros pobres paulistanos como Jardim Elba, Parque Santa Madalena, Capão Redondo, Butantã, Valo Velho, Cidade Dutra, Grajaú, Paraisópolis, São Miguel Paulista e Jardim Ângela; e em cidades vizinhas como Guarulhos, Osasco, Itaquaquecetuba, Taboão da Serra e Francisco Morato. Sobrevivem hoje na selva de pedra paulistana como operários, vigilantes ou faxineiros.

Mesmo a milhares de quilômetros da aldeia de Brejo dos Padres, longe da mata e de seu habitat natural, os índios pankararus não abandonam suas crenças e costumes. Mantêm os seus rituais religiosos na sede da associação e lutam para manter viva a tradição. Nos cânticos que surpreendem quem entra pela primeira vez na favela, os índios misturam português e expressões do seu dialeto próprio. Quando dançam o toante (o canto sagrado), incorporam o praiá (entidade religiosa), que faz parte do ritual do encantamento. “O toante é uma inspiração, a gente canta o que vai sentindo na língua do nosso povo”, diz Bino, um dos primeiros pankararus a chegar a São Paulo, em 1953. No Real Parque, os índios se apresentam para a comunidade na quadra da Escola Municipal José de Alcântara Machado Filho. “Nossa maior dificuldade é a falta de espaço físico. Não temos áreas próprias para educação social e cultural do nosso povo e dependemos da disponibilização da quadra pela escola para a gente trabalhar nossos hábitos e costumes”, desabafa Maria das Dores Prado, a Dora Pankararu, pedagoga e diretora da Casa de Saúde Indígena da Vila Mariana.

A escola municipal tem sido uma grande parceira da comunidade indígena. Lá, a associação criou um espaço de debate e conscientização da comunidade a respeito da marginalização e discriminação a que são submetidos negros e indígenas no Brasil. “Realizamos em novembro passado, em parceria com a Universidade de São Paulo, a I Semana da Diversidade e Cultura, que contou com grande participação da comunidade”, orgulha-se Dora. Ingrid, dez anos, neta de Bino e filha de Dora, gosta das atividades. “Sou índia e gosto de participar de tudo.” Para Dora, ela “sabe a importância da nossa luta”.

O enfrentamento do preconceito
Os pankararus reclamam muito do preconceito. “Somos chamados de vagabundos. A maioria das empresas não dá oportunidade. Somos discriminados em todas as áreas”, protesta Noé Guilherme dos Reis, 52 anos, representante dos pankararus da região de Guarulhos. “Para conseguir trabalho, a solução é não revelar que é índio”, conta. Nem sempre isso é possível.

Noé, no entanto, acredita que teve sorte. Depois de trabalhar muito, conseguiu se aposentar como supervisor de área numa indústria de papel. Ele relembra as dificuldades para a sobrevivência na aldeia. “Plantei uma roça de mandioca, fiquei dois anos cuidando e perdi tudo. Aí falei: não vou mais passar fome aqui”, relembra.

O índio Petrúcio Pedro dos Santos, 44 anos, começou a vida na cidade grande puxando uma carroça na rua. Recolhia sucatas. Tempos depois conseguiu montar uma cooperativa de reciclagem, com mais dois parentes pankararus e outros nove moradores da favela Real Parque. Agora, ele é um especialista nessa atividade. Passou a prestar serviços para uma rede de supermercados. “Aqui é uma família. Fui bem recebido e me tratam bem”, comemora. Em meio ao preconceito e dificuldades dos membros de seu povo para encontrar trabalho, ele se considera uma exceção. “Serviço em São Paulo tem. Para quem não é preguiçoso e gosta de trabalhar, é melhor viver aqui do que na aldeia em Pernambuco”, assegura.

Petrúcio largou tudo em Brejo dos Padres e veio para São Paulo, em 1999. Viúvo, deixou quatro dos cinco filhos com os avós, na aldeia. Trouxe apenas a mais velha, Poliana, 20 anos. “Estou feliz aqui. Minha filha também pode estudar e casar”, orgulha-se.

Parte dos pankararus recebe os benefícios do Bolsa Família. “Mas se fôssemos depender só do governo, a gente morria de fome”, reclama Bino. O líder indígena reivindica, por meio da associação, uma área para que possam deixar a favela. A prefeitura de São Paulo, o governo do estado, o Instituto de Terras (Itesp) e a Funai chegaram a analisar um local na zona Leste paulistana para abrigar 64 famílias, mas a proposta não foi levada adiante.

Segundo o censo de 2000 do IBGE, 383 mil índios vivem hoje em zonas urbanas do país, o que corresponde a 52% do total. Somente na Região Metropolitana de São Paulo estão instalados 59.989. É a terceira maior população indígena do Brasil, atrás somente da região amazônica e do estado da Bahia.

Explicar as razões desse deslocamento para as grandes cidades não é tarefa simples. Pesquisadores e lideranças de diversas etnias apontam inúmeros fatores para essa situação. Os principais são a busca por trabalho, por melhores condições de acesso à saúde e educação, a perda de suas terras e os conflitos internos nas aldeias, estimulados, muitas vezes, pelo crescimento populacional.

Em 2007, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) cadastrou 1.905 indígenas na Região Metropolitana de São Paulo. Eles pertencem a 16 etnias: atikum, fulni-ô, guajajara, jeripankó, kaimbé, kambiwa, katokin, pankararé, pankararu, pataxó, potiguara, terena, tuxá, wassu, xukuru e xukuru-kariri. A maior parte veio do Nordeste, região onde os povos indígenas historicamente sofrem com a perda de seus territórios e têm as condições de sobrevivência seriamente prejudicadas. A história dos pankararus não é exceção diante da realidade dos povos indígenas brasileiros. F

A vida de Graça na cidade
A maior parte dos índios que reside na Região Metropolitana de São Paulo vive em condições precárias, sem acesso a serviços de saúde e educação, sem moradia digna e condições de manter viva sua identidade cultural. Embora espalhados por vários bairros e municípios da Grande São Paulo, os pankararus estão organizados e formaram no Real Parque a primeira sociedade indígena “não-aldeada” reconhecida pela Funai.

Essa organização contribuipara o fortalecimento e melhoria das condições de vida de famílias como a de Maria das Graças Freire Suher, hoje moradora de Osasco (Grande São Paulo). Com apenas 14 anos, Graça chegou a São Paulo trazida por uma tia para trabalhar como empregada doméstica. “Ela queria me proporcionar uma vida melhor. Lá na aldeia, a vida era muito dura. Hoje tem água e luz, mas naquele tempo não. A gente cozinhava quase duas horas na mata até chegar na roça pra trabalhar. Aqui, como doméstica, era estar no céu”, relembra.

Três anos depois a mãe de Graça também veio para São Paulo. Com muita dificuldade e trabalho, a família comprou um terreno no bairro do Campo Limpo, na zona Sul de São Paulo, e construiu uma casa. “Todos os parentes que vinham para São Paulo ficavam por lá até se arranjarem”, conta Graça. A mãe dela, no entanto, não se acostumou com a vida na cidade e voltou para a aldeia, em Pernambuco, onde vive até hoje.

Graça casou-se com um filho de italianos e alemães e mudou-se para Osasco. Teve três filhos e fez questão que eles nascessem em sua aldeia. “Quando chegava próximo do parto, eu viajava para Pernambuco”, relata. Se lhe perguntam o que é ser índio, ela diz que não sabe. “Só sei que sou”, responde. Quando conta da sua origem, a maioria das pessoas dá risada. “Elas acham que índio tem que ter olho puxado e cabelo lisinho.”

Há alguns anos, Graça parou de trabalhar por causa de um problema de saúde. Seu filho mais velho, Marcos, 35 anos, é motorista em uma empresa de logística. A segunda filha, Grace Kelly, 30 anos, formada em turismo, está desempregada e a mais nova, Pamela, 19, cursa o segundo ano de fonoaudiologia na PUC-SP. “Mantemos nossas tradições, as comidas típicas e as cantorias. Todo ano a gente se reúne na festa dos pankararus no Real Parque para ver os praiás. Nunca perdemos o vínculo com o nosso povo”, garante Graça.

De família numerosa – oito irmãos por parte de mãe e outros oito por parte de pai –, Graça se acostumou com a casa sempre cheia de parentes. Hoje, além do marido, dos filhos e do neto, também moram com ela um irmão enfermeiro, Henrique, que veio a São Paulo prestar vestibular para medicina, e uma irmã ilustre: Maria das Dores Oliveira, “a primeira indígena do país a conseguir o título de doutora em lingüística”, comemora Graça, cheia de orgulho.


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