Alexandre Padilha

19 de maio de 2017, 19h02

Padilha: A maminha que a Lava Jato ignorou

Nas denúncias da JBS envolvendo Temer e Aécio Neves pouca luz foi dada a um aspecto fundamental: a diferença de métodos investigativos e resultados entre a força tarefa da Lava Jato em Curitiba e o conjunto de promotores e investigadores que conduziram a coleta de provas que embasa a delação dos executivos da JBS. Eles mostram que sim, é necessário combatermos a relação quase sempre promiscua de empresários e o poder público, mas é possível fazê-la substanciadas em provas

Por Alexandre Padilha*

A gravidade da crise instalada com as revelações da JBS envolvendo Temer e o presidente do PSDB e líder do golpismo, Aécio Neves, foi tão intensa que pouca luz foi dada a um aspecto fundamental: a diferença de métodos investigativos e resultados entre a força tarefa da Lava Jato em Curitiba e o conjunto de promotores e investigadores que conduziram a coleta de provas que embasa a delação dos executivos da JBS. Eles mostram que sim, é necessário combatermos a relação quase sempre promiscua de empresários e o poder público, mas é possível fazê-la substanciadas em provas e com o menor impacto possível na atividade econômica envolvida. Cortar a corrupção sem quebrar a empresa e os empregos associados.

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Coincidência ou não, é a segunda vez que o instrumento da delação premiada vem amparada de gravações que não deixam dúvidas quanto aos crimes praticados por integrantes do alto comando da aliança PMDB/PSDB. A anterior fora pelo senhor Sérgio Machado registrando conversas com senadores do PMDB. Nesta atual, chama atenção para a riqueza de evidências: diálogos, vídeos, gravações, dinheiro rastreado, que sepulta o governo Temer e apanha Aécio Neves com a boca na botija. A operação foi feita em Brasília, enquanto a força-tarefa de promotores da Lava Jato dedica-se a tentar apresentar uma prova contra Lula ou a produzir mais uma delação.

Diferentemente do roteiro alardeado como modelo pela Lava Jato, os delatores não estavam há anos em prisões preventivas que se estendem. Não haviam feito à versão um, dois e três de delações. Não haviam paralisados suas atividades empresariais, nem suas empresas estavam durante anos impedidas de realizar contratação com o serviço público. Não há registro de empresa quebrada nesse caso. Aliada a delação, foi vista como meio provável, primeiro interromper a chantagem milionária dos personagens da aliança PMDB/PSDB sobre os empresários, segundo para permitir que a empresa caminhasse para acordo de leniência nos EUA, onde ocupou o mercado. Em um método, a delação é meio de sair depois de um longo período de prisão preventiva. Por outro lado, é vista com oportunidade de não quebrar a empresa.

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As diferenças de método revelam o quanto os operadores da Lava Jato não têm como qualquer prioridade a manutenção da atividade econômica. Em parte por mais uma convicção, de que o maior mal do país é a corrupção e não a desigualdade. Em outra pelo lugar de onde agem de carreiras de Estado estabelecidas, muito bem remunerados, em geral muito acima do teto constitucional independente dos abalos do emprego e da economia. Já diziam os filósofos Delleuze e Guattari o “novo pensamento não, se desgarra do território que vivemos” ou a sabedoria popular “a cabeça pensa onde o pé pisa”.

É claro que a Lava Jato trouxe impactos/desmontes na economia, principalmente as empresas que correm risco de insolvência. Especialistas dizem que a operação causa mais prejuízos econômicos do que alegam ter sido desviado de corrupção.
O não interesse dos operadores de Curitiba pela JBS começou a ficar nítida  em novembro passado, quando o juiz Sérgio Moro vetou 21 das 41 perguntas que a defesa de Eduardo Cunha fez a Temer no processo de ação penal da Lava Jato que Cunha responde em Curitiba, o juiz vetou as perguntas alegando que não faziam parte do objeto daquele processo.

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Mas para bom entendedor meia palavra basta. Cunha já dava indícios que queria ser comprado e, quem diria, o produtor de mortadela derrubou o governo de coxinhas.

E por falar em coxinha, um dos presos na missão foi o procurador da República Ângelo Goulart Vilel, também delatado pelo dono da JBS, o mesmo que defendeu no ano passado, em discurso na Câmara dos Deputados, o pacote do Ministério Público das ’10 Medidas Contra a Corrupção’ (!!!).

alexandre padilha
*Alexandre Padilha
é médico, foi secretário municipal da saúde na gestão de Fernando Haddad e ministro nas gestões Lula e Dilma.

 

 

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