“Maior escândalo ético da medicina brasileira”, diz Padilha sobre uso da cloroquina pela Prevent Senior

Durante a sessão da CPI do Genocídio dessa quinta, o senador Humberto Costa apresentou uma denúncia de 12 médicos onde detalham que a rede hospitalar fez de cobaia mais de 700 pacientes para testar o “Kit Covid”

Na abertura dos trabalhos da CPI da Covid desta quinte-feira (26), o senador Humberto Costa (PT-PE) apresentou uma denúncia de 12 médicos que trabalham na rede Prevent Senior e a acusam de ter usado mais de 700 pacientes com Covid-19 como cobaias para testar o chamado “Kit Covid”.

O ex-ministro da Saúde e deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) declarou à Fórum que se trata de um “dos maiores escândalos éticos da medicina brasileira que não pode ficar sem punição pesadíssima aos responsáveis”. Padilha também revelou que já solicitou ao Conselho Nacional de Ética e Pesquisa (Conep) informações sobre o experimento realizado pela Prevent Senior.

“Os pesquisadores simplesmente fraudaram todos os procedimentos éticos estabelecidos pelos comitês de ética e pesquisa. É um escândalo sanitário porque fazem isso no meio de uma pandemia com proporções gravíssimas”, critica Padilha.

Na denúncia que chegou até o senador Humberto Costa há detalhes do protocolo que a rede construiu para realizar o seu estudo em pacientes com a Covid. Entre eles, enfermeiros eram autorizados a utilizar a medicação do Kit Covid nos pacientes e fazer alterações no relatório dos pacientes.

Também foi revelado que existiam três estágios de teste das medicações e, caso o profissional da Prevent Senior se recusasse a aderir tal procedimento, era demitido. Além disso, era proibido informar os pacientes que eles estavam sendo usados como cobaias para uma pesquisa da rede.

Por fim, o protocolo estabelecido pela direção da Prevent Senior previa o espalhamento do vírus dentro do hospital.

“É um escândalo gravíssimo que exige uma punição pesada dos órgãos reguladores de saúde do país, porque envolve uma rede da saúde que se sente com a liberdade e a ousadia de usar os seus usuários, que pagam pelo plano de saúde, como cobaias humanas sem qualquer procedimento ético e responsável em relação à pesquisa”, diz Padilha.

O documento dos médicos denunciantes também revela que a empresa Vitamedic, que é produtora de ivermectina e que, durante o depoimento de seu diretor à CPI, revelou que durante a pandemia a empresa teve um aumento de 1.000% em seus lucros. Os profissionais que denunciam apontam uma “forte relação” entre a Vitamedi e a Prevent Senior. Essa parceria tinha um modus operandi.

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O ciclo funcionava da seguinte maneira: “a Vitamedic fornecia os principais medicamentos do “kit prevent”, a Prevent Senior fornecia os dados e os assessores Wong, Yamaguchi e Zanotto propagam a informação. Segundo relato dos consulentes que exerciam cargos na diretoria da instituição, quanto mais rápido a “roda de interesses” girasse, mais o governo federal propagava informações e mais a Prevent Senior entrava em evidência”.

Para o ex-ministro da Saúde, o experimento que Prevent Senior realizou com os seus pacientes mostra que a “busca desmedida pelo luco e ganância não rimam com o direito à saúde” e que espera uma punição “rigorosa” do Conep.

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“A Conep tem que ser rigorosa e extremamente firme com os autores desse estudo, com os responsáveis pela gestão desse plano de saúde, que já se mostram completamente antiéticos e fizeram divulgação de dados sobre o estudo estar aprovado na Conep. A gente espera uma ação muito forte não apenas pelo Conep, mas do Ministério Público”, diz o deputado, que também é médico sanitarista e ex-ministro da Saúde.

O experimento

“Quero trazer aqui um assunto gravíssimo: recebi uma correspondência, que é cópia de um processo que está sendo movido por um grupo de profissionais médicos ligados a rede Prevent Senior e que formalizaram uma denúncia contra esta instituição por conta da política de coerção que foi assumida por essa direção de termos de orientação aos profissionais para adotarem as orientações do chamado tratamento precoce. Aqueles que, em algum momento se recusaram a implementar essas medidas foram demitidos”, revelou Costa.

A Fórum teve acesso ao documento elaborado pelo gabinete do senador Humberto Costa a partir da denúncia de um grupo de 12 médicos que prestam serviço para a Prevent Senior e que ainda “desejam manter seu sigilo preservado”.

Além disso, consta no processo que havia determinação sobre o uso de máscara, pois, segundo o senador, “havia o objetivo de disseminação do vírus no âmbito hospitalar para se fazer uma pesquisa que constava da utilização de cloroquina, azitromicina e ivermectina com os pacientes”.

De acordo com o processo, o teste com os pacientes do Prevent Senior começou no dia 6 de abril e houve um pedido do Prevent Seninor para que o Conep (Conselho Nacional de Ética em Pesquisa) liberasse a pesquisa, o que aconteceu no dia 14 e seis dias depois a Conep proibiu “tal era a gravidade do experimento que estava sendo com vidas humanas”.

A direção da rede Prevent Senior também orientou para que os pacientes e seus familiares não fossem avisados de que tal experimento estava em andamento. “Isso foi um acerto entre a direção do hospital e o governo federal contra as orientações do Ministério da Saúde que havia naquela época do ministro Mandetta. E o chamado ‘Gabinete Paralelo’ era o elo entre o governo e o Prevent Senior. E lá estavam como consultores: a senhora Nise Yamaguchi, Paulo Zanoto e o senhor Antonio Wong”.

O processo também dá conta de que a pesquisa contou com a participação de empresas farmacêuticas “que lucraram com o chamado Kit Covid. Até o dia 20 de abril 700 pessoas foram tratadas dessa maneira”.

A reportagem da Fórum entrou em contato com a Prevent Senior, mas até o fechamento dessa matéria não obteve resposta.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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