Pantanal pode precisar de ação humana para se recuperar, avalia especialista

Combinação entre mudanças climáticas e fogo provocado levou a recorde de focos de incêndio; ONG lidera iniciativa para montar brigada permanente

Para se recuperar dos efeitos das queimadas sem precedentes que está enfrentando neste ano, o Pantanal pode precisar de mais do que sua força natural de recuperação. A ação humana, com replantio e repovoamento da fauna, pode se fazer necessária.

A avaliação é de Thiago Junqueira Izzo, professor e coordenador da pós-graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).

“Eu acredito que será necessário um trabalho de restauração ativa, possivelmente trazendo organismos, animais de outros lugares”, disse ele.

O Pantanal bateu neste ano recordes históricos de focos de incêndio. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) contabilizou, até a quarta-feira (16), 15.756 pontos de fogo. É o maior número desde 1998, quando começa a medição.

Para Izzo, essa proporção de fogos mostra que a origem dos focos não é natural. “O fogo espontâneo é muito difícil de acontecer”, pontua. Portanto, de forma acidental ou provocada, essa quantidade de focos de incêndio é provocada pela ação humana.

O governo de Mato Grosso informou que dados comprovaram que os incêndios ocorridos em 40 mil hectares de quatro localidades do estado foram provocados por ação humana. A Delegacia de Meio Ambiente (Dema) mato-grossense está apurando a origem, para punir os responsáveis.

Além da intervenção humana, as mudanças climáticas também estão contribuindo para a disseminação das queimadas pelo bioma. “O problema é o aumento brutal na variação climática”, disse Izzo, da UFMT. “Invernos cada vez mais gelados e verões mais quentes, e secos. As chuvas aumentam e são torrenciais ou diminuem. Não tem mais uma distribuição equitativa de chuvas ao longo do ano, isso está sendo perdido”, afirmou.

A doutora em ecologia Michèle Sato, integrante do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte (GPEA) da UFMT, concorda com Izzo acerca dessa influência sobre o agravamento dos incêndios. E alerta: “Segundo estudos climáticos, as catástrofes irão piorar cada vez mais”.

As temperaturas cada vez mais altas também contribuem para piorar a situação atual. Para Izzo, elas provocam um maior potencial inflamável da matéria, o que aumenta a dificuldade no controle dos focos.

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Brigada permanente

Pensando em uma alternativa para prevenir a situação nos próximos anos, o Instituto Homem Pantaneiro está liderando uma iniciativa de constituir uma brigada permanente contra os incêndios no Alto Pantanal. 

A ideia, segundo o diretor de relações institucionais da entidade, Angelo Rabelo, é preencher a lacuna deixada pelo estado. Isso porque as brigadas contratadas pelos órgãos de governo só atuam no local de julho a dezembro de cada ano. “Estamos lidando com fogo desde fevereiro neste ano, e estamos em um lugar muito distante”, afirmou.

A iniciativa começa a arrecadar fundos para formar uma brigada profissional, com homens treinados, equipados e remunerados. Eles irão patrulhar as regiões da Serra do Amolar, o Parque Nacional do Pantanal e o Parque Estadual Encontro das Águas.

Na avaliação de Rabelo, a formação desse grupo será fundamental para evitar uma tragédia das proporções da deste ano. “O primeiro confronto com o fogo pode ser determinante para sua propagação ou extinção”, afirmou.

As informações sobre como doar e sobre o projeto estão no site www.brigadaaltopantanal.org.br.

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Fabíola Salani

Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.