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30 de Maio de 2016, 11h40

Para bom estuprador, meio consentimento basta

“Ah, relaxa, meu amor… ajoelhou, então vai ter que rezar!”

O verso que melhor resume a cultura do estupro não é de nenhum funkeiro, é do rapper Gabriel, O pensador.

A cultura do estupro é cruel porque permite que o homem não se reconheça como um monstro ou como um ser violento: ela quis, ela deixou, ela se colocou naquela posição.

Ajoelhou, então vai ter que rezar. Para bom estuprador, meio consentimento basta.

Um “sim” pro cinema ou pra ver “um filminho lá em casa” é, automática a irreversivelmente um “sim” ao toque, que é um sim pro sexo oral, que é um sim pra penetração vaginal, que é um sim pro sexo anal, que é um sim pro trio, que é um sim pra orgia, que é sim pro estupro coletivo – porque “uma coisa leva à outra”, porque “já viemos muito longe pra parar agora”, porque, minha filha, “ajoelhou, vai ter que rezar”.

Ai da mulher que ousar dizer um não entre uma etapa e outra. Vadia, vagabunda, piranha. “Veio aqui pra quê, então?”, “Tá de sacanagem comigo?”, “Agora vamo até o final!” – o final que é o gozo dele, a satisfação dele, o prazer dele, a vingança dele, o sadismo dele.

A mulher que diz um sim (aceita um drink? um baseadinho? quer dar uma volta? posso deitar aqui?), na cultura do estupro, literalmente se entrega: abre mão do seu corpo, entrega-o ao domínio do homem até que ele se dê por satisfeito e a rejeite, usada, vandalizada, amassada, intendeu?, imprestável.

Na cultura do estupro, a mulher de valor – se é que ela existe – é a que sempre diz não, a que não dá chance, a que não abre brecha, não se mostra, não insinua, não fala, não pensa, e se pensa, não se manifesta. Qualquer atitude afirmativa, que imponha sua presença feminina no espaço público – masculino -, é uma afronta, e é também um colocar-se à disposição.

Foi assim que todas nós aprendemos a “não dar motivo”. É por isso que eles têm que punir todas nós que desobedecemos – para continuar no controle, pra mostrar quem é que manda, quem tem o poder de penetrar, humilhar, silenciar, enquanto murmura “relaxa, meu amor…”.

Sob o patriarcado, já nascemos, todas nós que temos vaginas, ajoelhadas, prontas a prestar culto ao deus-pênis. Ser mulher é consentir.

Eu preciso – e nós precisamos – do feminismo para quebrar essa lógica, desnaturalizar esse pensamento, para proteger e preservar nossa integridade, dignidade e direito de ocupar espaços públicos – seja o baile funk, a boca de fumo ou a presidência da República – sem que isso signifique abrir mão da autoridade sobre o nosso próprio corpo.

Você não está sozinha, minha pequena. Nós somos muitas, e estamos com raiva. Aos estupradores e seus defensores reservaremos o escracho público, o cuspe, a cadeia, o nosso desprezo, o nosso clamor por justiça e pelo fim da violência contra a mulher.

Ajoelhadas nos querem, erguidas nos terão.


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