Para economista, saída da Ford do Brasil terá impacto em outros setores e afeta recuperação do país

Especialista ainda destaca que fechamento da unidade de Camaçari (BA) tem influência negativa relevante sobre a economia do Nordeste

O encerramento da produção automotiva da Ford no Brasil, anunciado nesta segunda-feira (11), é mais um capítulo do processo de desindustrialização que o Brasil enfrenta. E não deve ser o último.

A avaliação é do economista João Emboava Vaz, coordenador-geral do coletivo Arroz, Feijão e Economia, movimento que reúne especialistas na área.

Nesta segunda-feira, a montadora dos EUA anunciou que vai fechas as suas três fábricas remanescentes no país, em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE).

Em entrevista à Fórum, o especialista disse que a saída da Ford vai impactar não só nos empregos diretos que ela vai fechar, mas também na recuperação econômica do país. “A indústria foi muito importante em 2020, um dos setores que mais cresceram no ano passado, especialmente com o aumento no consumo de bens duráveis”, afirmou.

Vaz disse que o encerramento das atividades fabris da Ford tem impacto sobre outros setores da indústria, como na de alumínio, vidro, motores, autopeças. Para ele, essa saída pode incentivar fechamento de plantas industriais nesses segmentos.

Outro ponto destacado pelo economista é o impacto sobre a economia regional do Nordeste. Uma das fábricas fechadas pela Ford fica em Camaçari, na Bahia. A região, destaca ele, é uma das que tem menor desenvolvimento industrial. “A saída da Ford é relevante para o Nordeste”, disse.

Desindustrialização

A notícia da saída da Ford é, na visão do economista, mais um capítulo do processo de desindustrialização por que passa o Brasil e, provavelmente, “não será o último”. Para ele, esse fenômeno tem relação com uma série de políticas adotadas por governos nos últimos anos e, também, com uma conjuntura internacional em que as fábricas estão transferindo suas unidades produtivas para a China.

Suas causas passam, na visão do economista, pelo desaquecimento do mercado interno e pelo fim do investimento público em infraestrutura. Por esse motivo, ele avalia que outras montadoras podem seguir o mesmo caminho da Ford e encerrar suas atividades por aqui.

Mas há como reverter esse processo? O economista diz que essa é uma “pergunta de 1 bilhão”, mas aponta caminhos.

“Precisamos de um programa nacional, um projeto de país, pautado na retomada do investimento público, aumento real do salário mínimo, programas de transferência de renda”, afirmou.

A indústria automobilística – Ford incluída – vinha se alimentando no Brasil do mercado interno. “Os anos 2000, sob o governo Lula, demonstram isso. Eles vendiam muitos carros populares aqui.” Para Vaz, é necessário retomar aquela política de investimentos em infraestrutura para voltar a atrair recursos da iniciativa privada ao país.

“Vale colocar: essa questão de investimento público é uma das que mais dividem liberais e a esquerda”, afirmou. Enquanto os primeiros pregam o teto de gastos públicos como mantra, os progressistas têm outro projeto de país, diz Vaz. “Eles visam o desenvolvimento nacional com distribuição de renda.” Para ele, é necessário que as forças de esquerda alinhem esse programa econômico para reverter o processo de desindustrialização em curso.

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Fabíola Salani

Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.

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