Entrevista exclusiva com Lula
06 de junho de 2007, 21h58

Para especialista, Haiti precisa de nova forma de cooperação internacional

Rogério Seitenfus, professor na Universidade Federal de Santa Maria (RS) afirma que o Haiti está pacificado desde a eleição de René Garcia Préval e que o poder político haitiano descongelou.

Rogério Seitenfus, professor na Universidade Federal de Santa Maria (RS) afirma que o Haiti está pacificado desde a eleição de René Garcia Préval e que o poder político haitiano descongelou. Porém, para combater o subdesenvolvimento e a miséria é preciso mudar a mentalidade da cooperação internacional mudar e aceitar as características específicas do povo haitiano.

Por Brunna Rosa

O Informe anual de Anistia Internacional sobre os Direitos Humanos no Haiti disse que, apesar de a eleição do presidente René Garcia Préval ter recuperado a estabilidade política do país, o novo governo permaneceu incapaz de garantir os direitos econômicos, sociais e culturais da população. Em entrevista a Fórum, Rogério Seitenfus, professor na Universidade Federal de Santa Maria (RS) e autor de “Haiti, a Soberania dos Ditadores”, o país encontra-se pacificado e a eleição de René descongelou o poder político haitiano, porém precisa-se combater o subdesenvolvimento, a exclusão e a miséria do país. Segundo Seitenfus, o combate só será bem sucedido se a mentalidade da cooperação internacional mudar e aceitar as características específicas do povo haitiano.

Seitenfus, viajou, várias vezes, como enviado político do governo Luiz Inácio Lula da Silva ao Haiti.

FÓRUM- A Anistia Internacional considera que Préval não foi capaz de atender às necessidades básicas da população. A ONU prevê que na atual situação mais quatro anos de apoio seriam necessários. Qual sua opinião a respeitos destas informações?

RICARDO SEITENFUS- Acredito que mais quatro anos seriam pouco. O apoio internacional tem que, urgentemente, adotar uma nova forma. Precisamos levar em consideração as características sociológicas, antropológicas, psicológicas e históricas do Haiti. Nem todos do Haiti desejam seguir o modelo consumista, capitalista e ocidental. Ainda prevalece uma visão “passada” no Haiti. De modelos africanos, modelos de auto-sustentação de economia agrícola, sobretudo de subsistência. Há uma grande parte da população isolada nas montanhas, longe de tudo, de eletricidade, de Estado e de tecnologia. O Haiti é um país absolutamente destruído do ponto de vista ambiental e agrícola. Houve uma erosão extraordinária que levou as boas terras haitianas para o mar do caribe. Se deixado à própria sorte Haiti é um “cliente” para qualquer um tomar o poder e transformar em uma ditadura sanguinária onde o narcotráfico vai imperar.

FÓRUM- O senhor fala de uma nova forma de cooperação. Como seria?

SEITENFUS– Os Estados que cooperam no Haiti tem muita dificuldade em se adequar às circunstâncias do país. Quem mais consegue se adequar são as ONGs [organizações não-governamentais] que trabalham com os movimentos sociais, igrejas ou movimentos como Médicos sem Fronteiras. Há centenas delas trabalhando no país e, de certa forma, é isso que o sustenta. As ONGs conhecem a situação básica do Haiti e têm feito um trabalho que, de certa forma, é um esparadrapo em cima de um grande corte, que não impede o país de continuar sangrando. Precisamos mudar a mentalidade da cooperação internacional por meio do convencimento das autoridades que tomam as decisões e com aqueles que fornecem os recursos técnicos e financeiros para implementá-los. Sempre é necessário que se tenha a perspectiva de que quem recebe o benefício da cooperação, no caso os haitianos, não são objetos, mas sujeitos. Este sujeito tem que estar convencido que o que está sendo feito é de interesse dele, é o que ele deseja. Caso contrário a simples transferência de tecnologia ou de recursos para o Haiti é como um tiro na água.

FÓRUM- E quanto a presença militar no Haiti?

SEITENFUS– Ela é necessária. Não nos moldes e nem em relação à quantidade de soldados que temos hoje. Precisamos de uma presença policial. A militar está sendo aos poucos mudada com as equipes de batalhões de engenharia que estão indo para fazer o trabalho de infra-estrutura. O grande salto será quando trocarmos os soldados pelo cooperante.

FÓRUM- O senhor esteve presente várias vezes no Haiti. Quais são os avanços ?

SEITENFUS- A realização de eleições limpas, transparentes e participativas. Houve durante dois anos o congelamento do poder e agora temos um presidente legítimo e legal. Levamos a vida política do Haiti a uma pacificação. Houve também avanços quanto à desarticulação das ações dos bandos de narcotraficantes e seqüestrados, que faziam a lei em alguns bairros de Porto Príncipe [capital do Haiti]. Isso foi obtido há pouco tempo, em janeiro deste ano. Agora falta o essencial: atacar o verdadeiro problema que é a desesperança, o subdesenvolvimento, a miséria e a exclusão.


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