Parte da população tem “saudades” da ditadura, diz nota do Clube Militar

Texto, feito a reboque do caso Daniel Silveira, ainda diz que a democracia que o Brasil vive hoje “começou” naquele regime de exceção

Em uma nota emitida nesta sexta-feira (19) que teve como pano de fundo o caso do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), o Clube Militar disse que parte da população tem saudades da ditadura militar instaurada no país em 1964. O texto, assinado pelo presidente da entidade, general Eduardo José Barbosa, ainda traz um trecho no mínimo contraditório: diz que a “democracia que temos hoje no Brasil começou em 1964”.

A nota não se refere ao período de exceção como ditadura. Ela o chama de “regime militar”.

O texto diz fará alguns questionamentos “sem entrar no mérito” das palavras que Silveira dirigiu aos Supremo Tribunal Federal (STF). No vídeo que levou à sua prisão, o bolsonarista atacou os ministros do Supremo, insinuou venda de sentenças e ainda saudou o AI-5, mais duro instrumento da ditadura militar.

O militar questiona “por que outros pronunciamentos semelhantes” ao de Daniel Silveira, “porém ditos por políticos e jornalistas de centro esquerda não são tratados como crime”. Mas não esclarece o que seria semelhante ao conteúdo propalado pelo bolsonarista.

Em outro trecho, ele faz críticas a ministros do STF. Em um deles, pergunta por que o ministro Marco Aurélio de Mello “ameaçou os deputados, dizendo que em caso de relaxamento da prisão do deputado Daniel Silveira eles prestariam contas com o povo, nas urnas, em 2022”. E critica atitudes da corte: “Quem informou ao ilustre ministro que a população apoia as arbitrariedades do STF?”.

E então vem o excerto em que ele fala das saudades do regime de exceção. “Por que os ilustres Ministros do STF pensam que apoiar o Regime Militar que foi instaurado a partir de 1964 é crime quando uma grande parcela da população tem saudades daquela época? A Democracia que temos hoje no Brasil começou em 1964….”

Leia abaixo a íntegra da nota.

“Gen Div Eduardo José Barbosa

Presidente do Clube Militar
19 de fevereiro de 2021

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Sem entrar no mérito das palavras dirigidas aos integrantes do STF, pelo Deputado Daniel Silveira, colocamos aqui algumas reflexões:

1. Por que outros pronunciamentos semelhantes, porém ditos por políticos e jornalistas de centro esquerda não são tratados como crime?

2. Por que ameaças abertas contra a vida do Presidente da República não são também tratadas como crime inafiançável?

3. Por que a liberdade de expressão só se aplica a esses mesmos indivíduos de centro esquerda?

4. Por que esses supostos crimes praticados pelos apoiadores do Presidente recebem alta prioridade nas investigações, enquanto crimes cometidos por aliados ideológicos ou denúncias contra os próprios Ministros do STF ficam sem investigação ou aguardando a prescrição?

5. Por que o Ministro Marco Aurélio ameaçou os Deputados, dizendo que em caso de relaxamento da prisão do Deputado Daniel Silveira eles prestariam contas com o povo, nas urnas, em 2022? Quem informou ao ilustre ministro que a população apoia as arbitrariedades do STF?

6. Por que os ilustres Ministros do STF pensam que apoiar o Regime Militar que foi instaurado a partir de 1964 é crime quando uma grande parcela da população tem saudades daquela época? A Democracia que temos hoje no Brasil começou em 1964….

7. Por que os amparados pelo Poder Judiciário continuam sendo os criminosos já condenados? Esses, em sua grande maioria, enquanto puderem sustentar os melhores advogados, jamais cumprirão suas penas, podendo, inclusive, realizar passeios fora do Brasil, enquanto os que usam suas línguas para falar não podem nem sair de casa (os de direita, é claro).

8. Por que os equipamentos do Adelio e de seus aliados não são periciados?

9. Finalmente, para não citar outras dezenas de exemplos, o crime propalado pelo STF e seus aliados de esquerda é referente a ameaças verbais, ou, na realidade, é por ser o acusado apoiador daquele que foi eleito pelo povo para governar o Brasil?”

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Fabíola Salani

Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.

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