Petroleiros baianos protestam contra privatização da refinaria Landulpho Alves

Após um ano da greve histórica dos petroleiros, que paralisou cerca de 120 unidades do Sistema Petrobras, petroleiros da RLam cruzam os braços e atrasam quatro horas a entrada no expediente

Continua a todo vapor o processo de desmonte do sistema Petrobras e de desindustrialização do Brasil realizado pelo governo ultraneoliberal de Bolsonaro e Paulo Guedes.

Ano passado, a FAFEN-PR, que poderia estar suprindo o estoque de oxigênio hospitalar e fabricando nitrogênio líquido para conservar vacinas foi fechada. Em seu entorno o cenário é desolador: pequenas fábricas que envasavam oxigênio também fecharam. É uma destruição em cadeia que vai ruindo a economia, ampliando o desemprego e reduzindo a pó a capacidade produtiva do país.

O mais grave é que o governo vende bens públicos muito lucrativos. A Refinaria Landulpho Alves- RLam é responsável por 30% da produção da Petrobrás de óleo combustível para navios (bunker) com baixo teor de enxofre, atendendo exigência da Organização Marítima Internacional (IMO), um tipo de combustível que tem sido bastante demandado no mercado internacional. As exportações de bunker amenizaram os resultados financeiros ruins da Petrobrás nos três primeiros trimestres de 2020, informa a Federação Única dos Petroleiros (FUP).

Deyvid Bacelar, coordenador da FUP, denuncia: “A gestão da Petrobrás vai entregando ativos lucrativos e importantes para o resultado da empresa. Com a venda de tantos ativos que dão lucro, o que será da Petrobrás? Por isso afirmamos que a empresa está sendo privatizada aos pedaços. Não vai sobrar nada. A Petrobrás vai ser tornar uma empresa pequena e mera exportadora de petróleo cru, sujeita a perdas imensas com o sobe-e-desce das cotações internacionais de petróleo”.

Venda pela metade do Preço e monopólio regional

A política de desindustrialização de Paulo Guedes faz uma verdadeira liquidação do patrimônio público. A RLam está sendo vendida pela metade do preço, de acordo com os cálculos do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep). Segundo o Instituto, a refinaria que foi vendida para o Fundo Mubadala, por US$ 1,65 bilhão vale entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões.

Para Barcelar ocorre um desperdício de dinheiro público no processo privatista: “A RLAM recebeu investimentos de R$ 6 bilhões somente em hidrotratamento nos últimos dez anos. No entanto, a refinaria está sendo vendida por preço baixo, num momento economicamente ruim em todo o mundo. Não é apenas a planta de refino que está sendo vendida a preço de banana, mas toda a infraestrutura de armazenamento e escoamento da RLAM. São quase 800 quilômetros de dutos, fora os tanques de armazenagem. É um péssimo negócio para a Petrobrás, para a Bahia, para o Nordeste e para todo o Brasil.”

Além da Refinaria Landulpho Alves no pacote privatista está o Terminal Marítimo de Madre de Deus e os Terminais Terrestres de Candeias, Jequié e Itabuna. Ou seja, Guedes e Bolsonaro estão vendendo todo o sistema logístico integrado à Refinaria.

Para Bacelar, isso significa vender o mercado consumidor da Bahia e demais estados da região Nordeste e do Norte de Minas.

A população já é penalizada pela política da atual gestão da Petrobrás que adotou o Preço de Paridade Internacional (PPI). Só este ano a gasolina foi reajustada três vezes, o diesel e o gás de cozinha duas. O Fundo Mubadala (grupo dos Emirados Árabes) terá total liberdade de cobrar o preço que quiser pelos produtos que a RLAM produzir ou exportar. Pode ainda fechar a refinaria, parando a produção por completo e utilizá-la como parque de tancagem, importando derivados de outras refinarias que o grupo dos Emirados Árabes possui no Golfo do México. Por isso a privatização amplia o risco de monopólio na região Nordeste, que pode levar ao aumento dos preços dos combustíveis e ao desabastecimento.

Paralisação: “Vai ter luta”

A Landulpho Alves é a primeira refinaria do Sistema Petrobrás e segunda do país em capacidade de processamento, a RLAM tem hoje cerca de 900 trabalhadores próprios e aproximadamente 1700 terceirizados. Ela é símbolo da soberania energética brasileira, contribuiu para o desenvolvimento social da Bahia e de todo o Nordeste e continua contribuindo.

Desde dezembro de 2020, o Sindpetro Bahia e a FUP vem discutindo ações para enfrentar a privatização da RLam e a entrega do patrimônio público. A FUP vem realizando setoriais com a categoria em todo o país, articulando um movimento nacional em defesa da Petrobras.

Bacelar explica que a assinatura do contrato de venda da RLam e de todos os ativos integrados não significa que o processo está concluso, há ainda muitas etapas. Os petroleiros contam com isso para suas ações de resistência.

Ontem, em protesto à venda da Rlam, 1.500 petroleiros ( do turno e do administrativo) e trabalhadores terceirizados da RLam paralisaram durante quatro horas a entrada na refinaria. Participaram também do ato representantes de diversas entidades sindicais como a CUT, CTB, APUB, UEB, UNE, Sitticcan, UJS, MPJ Disparada e Unegro. Pela FUP, participou o coordenador-geral, Deyvid Bacelar, pela CUT, o  vice-presidente da Central na Bahia, Leonardo Urpia e pela CRB, o metalúrgico e diretor da entidade, Aurino Pedreira.

Desde o dia 9 vem ocorrendo o seminário de planejamento da FUP. No sábado, em Salvador, no Seminário de Qualificação de Greve, a diretoria do Sindipetro e a categoria analisarão as sugestões, organizarão e escolherão o melhor dia para dar iniciar ao movimento paredista. A greve já aprovada em assembleia será definida próximos dias. A FUP fará o comunicado de greve, cumprindo o prazo e 72 horas para o movimento paredista.

A FUP também está elaborando uma carta à sociedade baiana e brasileira explicando os motivos da greve. Bacelar explica: “É de suma importância que a sociedade brasileira entenda que a privatização deste patrimônio nacional é prejudicial para a própria Petrobras, para os municípios baianos, para o estado da Bahia que perderão arrecadação, especialmente dos royalties do petróleo. O prejuízo é do povo baiano, do povo brasileiro“.

Há indicativo de que outras unidades do Sistema Petrobras paralise também, Macaé e Campos farão videoconferência hoje, às 19H para discutir a adesão.

Com informações do Sindpetro

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