questaodegenero

15 de junho de 2015, 10h58

Photoshop é a mulesta!

Cordel – Photoshop é a mulesta!

(Jarid Arraes)

Nessa tal modernidade
De um tudo se inventou
Coisa útil e importante
Que essa vida melhorou
Mas nem tudo é positivo
Como enfim se intentou.

Falo do tal Photoshop
Que até pode ser usado
Para fim interessante
Para muito ser criado
Mas acaba distorcido
Sendo então manipulado.

É o exemplo das revistas
Ensaios e propagandas
Feitas com mulher bonita
Que nem fosse uma barganha
Vende o produto exibido
Faz do corpo uma façanha.

Photoshop nesses casos
Serve só para enganar
Muda o corpo por completo
Que é prassim ludibriar
A mulher comum que vê
Tal mentira a desejar.

É um danado dum estica
Puxa aqui, puxa acolá
Tira isso e tira aquilo
E esse vamo é clarear
Diminui, só emagrece
No padrão faz encaixar.

De um modo que a mulher
Que está na fotografia
Nem com si mesma parece
E por isso se avalia
Como sendo incompleta
Sem nenhuma simetria.

A modelo tão perfeita
Que essa mídia idolatra
Vira uma grande mentira
Caso de um psiquiatra
Autoestima destruída
Tiro sai pela culatra.

Então busca sem parar
Nessa torpe obsessão
Corrigir o seu defeito
Que é não ter a perfeição
Odiando ser quem é
Procurando o tal padrão.

A mulher que não tem fama
Mas não é também modelo
Se despreza ainda mais
Vive o cruel pesadelo
De não ser capa de nada
E não ter nenhum desvelo.

Gasta um dinheiro do cão
Na indústria da beleza
Que já sendo muito esperta
Bem oculta a safadeza:
Cria uma suposta falha
E oferece a “gentileza”.

A indústria desgraçada
Introjeta bem na mente
Toda paranoia aguda
Que muito infelizmente
A mulher vai e acata
Querendo ser diferente.

Nada é bom o bastante
Tudo tem que melhorar
Coisa que nem percebia
Ela passa a observar
Sentindo muita agonia
Vai atrás de transformar.

Compra mil tipo de creme
Pra seu corpo consertar
Tem pro dia, tarde, noite
E tem shake pra tomar
Vai também pra academia
Que isso não pode faltar.

Se não encontra mudança
Nem pesando a malhação
Pega bastante dinheiro
E vai buscar cirurgião
Porque só no bisturi
Encontra a satisfação.

Mas ás vezes nem assim
O “problema” é resolvido
Porque o defeito mesmo
Tá muito do escondido
Bem profundo e natural
Por ela subentendido.

Quando olha as revistas
E os vídeos das famosas
Nem sempre se compreende
As forças habilidosas
Que vendem tanta mentira
De formas minuciosas.

Por isso que não devemos
À mulher empurrar culpa
Pois a este sofrimento
Pouco se oferece escuta
E o danado do machismo
A realidade oculta.

Também quero destacar
Que a responsabilidade
É de todas as pessoas
Que com animosidade
Gostam só de criticar
A vulnerabilidade.

Por isso não adianta
Só dizer que desaprova
Se no seu cotidiano
Fala de mulher gostosa
E segue assim tratando
Como coisa apetitosa.

O machismo tá presente
Nesse ato de tratar
A mulher como objeto
Feito só pra enfeitar
E é isso que estimula
O padrão a sujeitar.

Se você chama de gorda
Quem não é muito magrinha
E pra gorda só dispensa
Uma enorme ladainha
Que só manda perder peso
E é só pura abobrinha.

Se você chama de feia
Quem não é padronizada
Se tem regra para tudo
E a beleza enfatizada
É somente a da revista
Que se faz canonizada.

Se você chama de ruim
Se o cabelo é cacheado
E a lei pra ser bonito
É se o fio for alisado
Além de ser um machista
O racismo é revelado.

Então sem hipocrisia
Analise o que cê faz
Porque sua culpa nisso
Pode ser até demais
Afinal, essa cultura
Tem seus próprios serviçais.

Pra começo de conversa
Deixe de se acreditar
Que a beleza só existe
Como a mídia apresentar
Pense na diversidade
E comece a aceitar.

Eu que sou do meu sertão
Tenho um termo assertivo
Que revela a desgraceira
Desse porco objetivo
Que é botar toda mulher
Num modelo normativo.

A indústria da beleza
Vejo como epidemia
Massacrando sem temor
E esmagando a alegria
Se alastra como praga
Só gerando hipocondria.

É por isso que afirmo
Que a beleza desonesta
É tal praga catimboza
Nada nessa peste presta
Quem tem ouvido que ouça:
Photoshop é a mulesta!

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Foto de capa: Reprodução

 


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