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20 de fevereiro de 2017, 12h49

Por dentro da ocupação do MTST na Av. Paulista

As calçadas da Paulista são agora o novo lar de cerca de 400 membros do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), que ocupam a frente do prédio da Presidência da República, em protesto contra retrocessos no programa habitacional Minha Casa Minha Vid

Texto e fotos por Victor Ribeiro da Silva, da Rede Fórum de Jornalismo

Nove horas da manhã de um domingo pode parecer demasiado cedo para alguns, mas nunca é o caso para a Avenida Paulista, principal via da cidade que nunca dorme. E desde a última quarta-feira (15), há algo de diferente no maior centro financeiro da América do Sul: as calçadas da Paulista são agora o novo lar de cerca de 400 membros do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), que ocupam a frente do prédio da Presidência da República, em protesto contra retrocessos no programa habitacional Minha Casa Minha Vida.

A principal mudança rechaçada pelo movimento é a suspensão de contratos de construção de moradias para famílias com renda até dois salários mínimos. Para o movimento, 84% das pessoas que compõem o atual déficit habitacional brasileiro se enquadram nesta categoria. Segundo manifesto do grupo, “as 600 mil moradias anunciadas por Temer foram para uma outra faixa da população. Aumentaram o limite de crédito do Minha Casa Minha Vida para R$ 9.000,00, ou seja, transformaram um programa social em programa de crédito imobiliário para financiar casa própria para setores que não são os mais necessitados, que não são os sem-teto e não são aqueles que mais precisam de moradia no Brasil”.

Os militantes acampados pretendem permanecer na avenida até que hajam negociações com o governo federal. Vindos de diversas ocupações – como as chamadas Palestina, Chico Mendes e Povo sem Medo – os membros do movimento criaram um extenso e organizado acampamento. Além de mutirões de alimentação e limpeza, diversas atividades culturais tomam conta do lugar, como aulas públicas e grupos de discussões.

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Neste domingo (19), a ocupação contou com uma aula pública ministrada pelo deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) sobre a reforma da previdência de Temer. O deputado foi enérgico e categórico ao expor os interesses privados da proposta. Para ele, trata-se de mais uma medida na qual os trabalhadores pagarão pela crise econômica gerada por um sistema que é governado pelas classes dominantes.

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De acordo com os militantes, as reações da população e da Polícia Militar frente ao acampamento não foram problemáticas até então, embora as páginas do movimento e os sites de notícias serem alvos constantes de comentários hostis e com tendências fascistas. Um caso isolado na ocupação foi a visita do líder do grupo Revoltados Online, Marcello Reis, na madrugada da sexta-feira (17), que sob o pretexto de “querer conversar com o Boulos (representante do MTST)”, provocou alguns militantes e acabou expulso.

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Para manter a ocupação, os ativistas dependem de dinheiro arrecadado através de vendas de camisetas e de doações de simpatizantes do movimento. “Estamos gastando mais de um botijão de gás por dia! ”, afirma uma das responsáveis pela alimentação do grupo. “100kg de arroz não estão sendo o suficiente para o almoço!”. O acampamento não nega refeições para outras pessoas necessitadas, mesmo que não façam parte da ocupação.

ocupa cozinha
José Ferreira, operário metalúrgico aposentado e natural de Pernambuco, está com os sem-teto desde 2005. “Eu vivia em Campo Limpo quando entrei em contato com o movimento pela primeira vez”, afirma ele. “Eles estavam ocupando uma área em Taboão da Serra, então eu simplesmente peguei alguns bambus e uns metros de lona e montei uma barraca junto.” Ferreira tem muito orgulho das conquistas do Movimento, e continuou militando mesmo depois de ter conquistado sua moradia, na qual sua família atualmente reside. Para ele, o movimento é de extrema importância e compõe uma luta fundamental para a questão do déficit habitacional do país.

militante MTST
“Nós precisamos de moradia”, diz D. Maria, 50, que está com o movimento há três anos. “O governo precisa começar a dialogar com o povo, ou não sairemos daqui. Se não negociarem conosco, como é que faz? As coisas aqui só voltam ao normal quando tivermos retorno”, diz.

mtst paulista
Os integrantes do movimento deixam bem claro que a luta é extremamente necessária, e não estariam ali se não fosse. São trabalhadores, aposentados e crianças. A ocupação da Av. Paulista pelo MTST é um movimento legítimo e com pautas extremamente pertinentes. “Olhe aqui, Mr. Buster”, já diria Vinícius de Moraes; você sabe lá o que é trabalhar a vida toda e não ter uma moradia digna?

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