Petrix, BBB e as redes: por que o programa ainda mobiliza tanta gente?

Em meio a uma ameaça fascista, um governo desgovernado e um absurdo novo a cada dia, o Big Brother toma os trending topics noite e dia

Até 2011, eu nunca tinha assistido um BBB. Não porque me ache um cristal encantado superior moral e intelectualmente, mas porque a televisão não fazia parte da minha realidade. Pois em 2011 eu arrumei um emprego em entretenimento e meu trabalho era justamente assistir o Big Brother.

Então, eu assistia. E fiquei passada com o quanto o programa mexia com as pessoas, pautava assuntos desde o bandejão da firma até o chapeiro da padaria e o elevador do prédio chique da reunião. Um fenômeno que fui entendendo aos poucos: “lá dentro” era um reflexo “aqui de fora” e reverberava porque as pessoas ou se reconheciam, ou reconheciam afetos e desafetos da vida. Aquele colega babaca. Aquela moça querida. Aquele homenzinho feio e burro mas com a autoestima nas nuvens.

O que acontece “lá dentro”, é claro, pode ser manipulado com tensão, bebida e o psicológico abalado por estar isolado com desconhecidos em uma casa. É um experimento onde as cobaias são voluntárias em troca de… sei lá. Um milhão e meio não paga a paz do anonimato e sua legenda intacta. Mesmo que você não tenha legenda alguma, qualquer coisa é melhor que “ex-BBB”. Poucos se safaram disso, como Jean Wyllys e Grazi Massafera.

Um amigo estava indignado esses dias com o tanto que o programa pauta as redes e nossos amigos, e até alguns políticos. Mas nessa edição, diante do comportamento do ginasta Petrix, que não cansava de assediar as mulheres do programa e falava nojeiras inacreditáveis, não tinha mesmo como calar.

Por que? Porque o que acontecia ali era o puro suco da normalização da cultura de estupro. E vinda de um homem que foi abusado quando criança! Como pode? Pois pode. E não é o único caso. Se os telespectadores – e até quem não assiste mas viu as imagens nas redes – se calassem diante disso, diante de um homem assediador em rede nacional, no horário nobre, se esfregando nas mulheres alcoolizadas e achando que estava arrasando, seria admitir que não há nada demais nisso, que é aceitável, que, em nome de audiência e barracos vale tudo.

Há alguns anos, talvez passasse batido. Mas não mais.  Ainda bem. Que não passe e que os militantes não descansem, não.


 

 

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Clara Averbuck

Escritora e jornalista, autora de 9 livros.

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