quarta-feira, 28 out 2020
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Por que Trump cresceu e está praticamente empatado com Joe Biden? Por Heloisa Villela

Se o número de mortes por Covid19 continua disparado nos Estados Unidos e a população desempregada também cresce sem parar desde o começo da pandemia, como o presidente Donald Trump está praticamente empatado com o democrata Joe Biden nas pesquisas?

E mais: em que momento Biden perdeu a vantagem de mais de dez pontos percentuais que tinha sobre o adversário? São perguntas que aparentemente não preocupam os democratas, reunidos em torno de telas de TV, esta semana, para acompanhar a primeira convenção 100% virtual da história dos Estados Unidos. Mas certamente deixam intrigados os organizadores da campanha de Joe Biden.

É verdade que as pesquisas mostram números bem diferentes. Mas, comparando todas elas, fica claro que Trump estancou a sangria. Parou de perder pontos e até se recuperou um pouco. O fato inegável é que nada está garantido para o republicano ou para o democrata. E o desafio é entender o que influencia a mudança de opinião dos eleitores. Ou a tomada decisão para quem ainda estava em cima do muro.

A grande imprensa, do lado liberal, garante que não existe nada de errado quando se compara os números, agora, com eleições passadas. Só Bill Clinton tinha uma situação melhor em relação ao adversário nesse ponto da campanha. Mas nenhum caso anterior serve de modelo para um país que já tem quase 170 mil mortos em seis meses de pandemia, com uma taxa de desemprego que triplicou no período. Definitivamente, não são outros tempos. E quem está na Casa Branca, obrigado a dar resposta a esses desafios, normalmente estaria encarando uma provável derrota fragorosa nas urnas. O que não é o caso.

Entre maio e junho Biden subiu nas pesquisas. Foram os meses de manifestações gigantescas contra o racismo da polícia nas principais cidades do país. Trump fez um papelão: mandou liberar, na marra, a rua que margeia a praça diante da Casa Branca.

Manifestantes que estavam ali há horas, de pé, sentados, cantando, foram expulsos a balas de borracha e bombas de gás. Uma cena que os americanos só estão acostumados a ver em países do terceiro mundo. E assim que a rua foi liberada, Trump cruzou a praça para fazer uma foto com uma bíblia nas mão, diante da igreja que fica a uma quadra da residência oficial do presidente.

A repressão brutal foi uma cena forte e amplamente condenada no país. Naquele momento, os movimentos contra a violência policial ganhavam mais e mais adeptos. Foi a segunda grande mancada de Trump. A primeira, claro, foi tratar a pandemia como uma gripe sem importância. E quando começou a levar a Covid a sério, nunca demonstrou empatia com quem estava sofrendo a perda de parentes ou atendendo doentes em hospitais sobrecarregados. Mas a popularidade dele nunca caiu abaixo dos 38%.

Agora, os protestos sumiram. O impacto daquela cena vai se evaporando e pouco a pouco, ele se recuperou. Nada dramático. Dois pontos aqui, três ali. Mas a campanha ficou mais apertada.

Trump está usando três armas básicas: continua batendo na China, culpando o país pelo desemprego por aqui. Isso faz sucesso com o eleitorado dele. Dizer que os chineses roubaram os empregos dos americanos. Como se a globalização, que os Estados Unidos também brigaram para impor ao mundo, não fosse a grande culpada pela transferência das fábricas para o Oriente.

Trump também tem feito um apelo cada vez mais descarado aos separatistas brancos. Ao eleitorado que teme deixar de ser a força dominante no país. Ele chegou a dizer, esta semana, que os democratas querem construir moradias de baixa renda “nos nossos subúrbios”. Talvez no Brasil a referência seja muito sutil. Mas aqui nos Estados Unidos ela é óbvia: significa dizer que os democratas querem colocar negros em bairros de brancos acabando com o “sonho americano”. O sonho da segregação permanente, da qualidade de vida e dos melhores bairros para os brancos. E isso mobiliza um eleitorado fiel.

A outra arma, claro, é a disseminação de mentiras e conceitos no mínimo truncados. A primeira reação de Trump ao discurso de Michele Obama e demais democratas na primeira noite da convenção do partido é um bom exemplo.

Trump disse que Joe Biden é um fantoche na mão da extrema esquerda, lotada de fascistas, que quer acabar com as fronteiras dos Estados Unidos, doutrinar as criancinhas do país, acabar com o direito ao porte de arma, eliminar os departamentos de polícia em todas as cidades e outras tantas acusações sem base na realidade.

Mas, para uma população desinformada, que até hoje, em grande parte, ainda acredita que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa escondidas no país, as afirmações categóricas de um presidente ainda são levadas a sério. Por mais mirabolantes que elas soem para quase metade do eleitorado.

E os democratas não ajudam. Convidaram Colin Powell para discursar na convenção do partido na terça-feira. Ele que foi Secretário de Estado do governo George Bush, um republicano, e foi à ONU com fotos secretas e tudo, garantir aos americanos e ao mundo que Saddam Hussein era um perigo para a humanidade com suas armas secretas que ele sabia muito bem que não existiam. Segue o baile.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.