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19 de dezembro de 2016, 15h22

Precisamos falar de Aleppo

As Nações Unidas denominam neste momento Aleppo de “colapso completo da humanidade.” O que esperamos para falar de nossa indignação?

Por Adriana Dias*

Esperaremos não restar civis em Aleppo, esperaremos mais e mais semanas de intenso bombardeio, esperaremos milhares de crianças mortas e refugiadas sem esperança ou futuro, para falar de Aleppo?

As Nações Unidas denominam neste momento Aleppo de “colapso completo da humanidade.” O que esperamos para falar de nossa indignação?

Quantas esperaremos morrer, tornarem-se com deficiência pela guerra, se suicidarem, para entender que precisamos falar de Aleppo?

Desde 2011, quando o presidente Bashar al-Assad se ensurdeceu para as demandas dos manifestantes pacíficos e iniciou uma imensa guerra (absurda, sob qualquer ponto de vista) contra o seu povo. Há mais de 400.000 sírios mortos e muitos milhões em fuga esperando refúgio na Europa, e no restante do mundo.

Obama e a Rússia de Putin trabalharam para remover a maior parte das armas químicas de Assad da Síria. Mas, nenhum acordo sobre paz surgiu. Nenhum controle do Estado Islâmico, que poderia ter surgido de uma aliança mútua. Estupro, morte e violência imperam na Síria em guerra. E nós, os “civilizados”, assistimos da janela.

O governo golpista de Temer fechou o Brasil aos refugiados. Estamos falando de milhões de pessoas, que precisam se deslocar ou escolher morrer. São pessoas, seres humanos. Cerca de 5 milhões de sírios deixaram a Síria, e pelo menos 3.370 refugiados – de maioria sírias – morreram afogados em 2015 ao tentar chegar à Europa pelo Mediterrâneo. Os dados são da Organização Internacional para a Migração.

Sim, é verdade que a violência no Brasil mata, e os números são assustadores. Mas, isso não nos redime do nosso silêncio acovardado e conivente com Aleppo. Precisamos chorar por Aleppo, precisamos falar de Aleppo, precisamos exigir que o Brasil receba refugiados da região e pare de agir como sua única relação internacional importante para este governo temeroso seja a que garanta a venda de todas nossas estatais. Não, não devemos vender nosso patrimônio, e sim, devemos receber refugiados.

A emergência existe. Não nos calemos: nem sobre o golpe, nem sobre Aleppo. Que a dor do povo humano nos doa sempre, seja a do refugiado sírio, seja a do negro de nossas periferias, seja a do trabalhador sem direitos e do ribeirinho sem terra.

Precisamos falar de Aleppo para nos humanizar. Quem sabe, mais humanos, nossa luta encontrará a saída desconhecida que tanto tentamos alcançar.

*Bacharel em Ciências Sociais em Antropologia,Mestre e Doutoranda em Antropologia Social – tudo pela UNICAMP. É coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia, e coordenadora de pesquisa tanto no Instituto Baresi (que cria políticas públicas para pessoas com doenças raras) quanto na ONG ESSAS MULHERES (voltada à luta pelos direitos sexuais e reprodutivos e ao combate da violência que afeta mulheres com deficiência).


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