Preços da comida sobem em um mês mais que a inflação no ano todo

Grupo alimentos e bebidas subiu 0,78% em agosto, e IPCA acumula 0,70% no ano; inflação oficial foi 0,24% no mês passado, maior índice para o mês desde 2016

O preço de alimentos e bebidas subiu mais no mês passado no país do que o índice geral da inflação no ano. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta quarta-feira (9) que esse grupo aumentou 0,78% em agosto. E o IPCA acumulado no ano bateu em 0,70%.

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo, a inflação oficial do país, ficou em 0,24% em agosto, maior índice para o mês desde 2016.

A divulgação do IBGE bate com o que o consumidor está sentindo no bolso. O que mais subiu mês passado foi o tomate (12,98%), o óleo de soja (9,48%), o leite longa vida (4,84%) e o arroz (3,08%).

O cereal, aliás, tem sido destaque no noticiário e nas redes sociais nos últimos dias, por causa de novos aumentos.

“O arroz acumula alta de 19,25% no ano e o feijão, dependendo do tipo e da região, já tem inflação acima dos 30%”, disse Pedro Kislanov, gerente da pesquisa do IPCA no IBGE. “O feijão preto, muito consumido no Rio de Janeiro, acumula alta de 28,92% no ano, e o feijão carioca, de 12,12%”, destacou.

Não é o auxílio emergencial

Importante destacar que o auxílio emergencial, pago pelo governo a quem perdeu renda com a pandemia do coronavírus, não é causador dessa inflação, como disse o presidente Bolsonaro.

“Não é o auxílio emergencial, são os produtores”, disse a economista Patrícia Lino Costa, do Dieese.

Segundo ela, a cotação do dólar a R$ 5 favorece a exportação. “Há um volume imenso de exportação da soja brasileira e, com ela, seus derivados”, explica. Além disso, pontua a economista, uma parte do óleo que fica no país é usada na produção de biocombustível. “Assim, começa a faltar internamente e sobra para o bolso do consumidor.”

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Já a alta do preço do arroz se explica, segundo a economista, com uma combinação de fatores: estiagem, entressafra e estoque por parte dos produtores, que estão buscando preços melhores para vender o cereal.

Por outro lado, o corte que o governo Bolsonaro vai realizar no auxílio, para R$ 300, vai deixá-lo com valor menor do que uma cesta básica. É o que mostra o levantamento mensal do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos em 17 capitais.

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“Em vez de ficar gritando ‘patriotismo’, o governo podia pensar políticas que subsidiassem o alimento”, disse Costa. O presidente Jair Bolsonaro disse que ia pedir “patriotismo” a varejistas para não elevarem os preços dos produtos mais básicos, como arroz, feijão, óleo e carne.

Corte no Imposto de Importação, compra de parte dos produtos no exterior por parte do governo e venda a preços menores no mercado interno e estímulo à agricultura familiar para aumentar produção nacional são alguns dos exemplos mencionados pela especialista.

O que segurou

Segundo o IBGE, o que segurou a inflação de agosto pelo IPCA foi a Educação, com retração de -3,47% no grupo como um todo. Isso porque várias instituições de ensino passaram a aplicar descontos em suas mensalidades no período de isolamento em razão da pandemia de Covid-19. Os abatimentos foram feitos em virtude da suspensão das aulas presenciais.

Os preços dos cursos regulares recuaram 4,38%. A maior queda foi observada na pré-escola (-7,71%), seguida pelos cursos de pós-graduação (-5,84%), pela educação de jovens e adultos (-4,80%) e pelas creches (-4,76%).

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Fabíola Salani

Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.

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