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08 de julho de 2020, 18h34

Pressionado por criticar Bolsonaro, presidente da Associação de Oficiais da PM renuncia

Coronel Glauco Carvalho afirma que Bolsonaro “é a antítese do que é um militar” e que integrantes da entidade cometem “grave erro” ao apoiá-lo

O coronel Glauco Carvalho, quando era comandante do policiamento na capital paulista (Foto: Reprodução/YouTube)

O coronel da reserva e ex-comandante do policiamento da capital da Polícia Militar de São Paulo Glauco Carvalho entregou o cargo de vice-presidente da Associação de Oficiais da PM do estado nesta quarta-feira (8). Em carta de renúncia, Carvalho afirmou ter sido pressionado pela base da entidade, composta, segundo ele, por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Carvalho vinha intensificando suas críticas ao presidente pela participação em atos golpistas e pela conduta na crise do coronavírus. Com isso, passou sofrer ataques com mais frequência do integrantes da associação. Além da carreira na PM, ele é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.

“É a decisão mais coerente que eu poderia tomar. Se apregoo e defendo a democracia, nada mais justo e lícito que pedir minha saída, uma vez que o eleitorado da Associação de Oficiais é majoritariamente bolsonarista”, afirma Carvalho, em trecho de sua carta.

“Convivi com um jovem deputado chamado Jair Messias Bolsonaro no inicio dos anos 90. Ele é a antítese do que é um militar na acepção lata da palavra”, disse.

“Como todo espertalhão, prega a ordem, mas descumpriu a ordem estabelecida em normas legais no final dos anos 80. Como todo falastrão, defende o militarismo, mas foi um indisciplinado por excelência. Como todo estelionatário, prega moralismos, mas é useiro e vezeiro em transgredir preceitos éticos públicos. Como todo incauto, despreza e desdenha da doença e da dor alheias. Como todo insensato, cria confusões e disputas em torno de problemas que na realidade não existem. Como todo radical, agride verbalmente e ofende seus adversários. Como todo imaturo, não pode ser contrariado. Como todo estulto, quer valer-se das armas para depor os mecanismos pelos quais ele foi alçado ao poder. Como todo arrivista, quer o poder pelo poder”, completou Carvalho.

O coronel da reserva destaca ainda os acontecimentos recentes que forçaram sua oposição ao presidente.

“Mas, como em toda e qualquer democracia (…) eu deveria e devo respeitá-lo. Até ele namorar e querer casar com golpes militares. A firmeza e a higidez de princípios dos comandantes da três Forças Armadas o fizeram dissuadir de seus propósitos mais tacanhos, perversos e retrógrados”, diz.

“Ele, então, abandona tudo aquilo que pregou e vai assentar-se ao lado do dito ‘centrão’, seja lá o que isso quer dizer. Depõe sua confiança em parte do estamento político contra o qual fez toda sua campanha. Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto e companhia. Belo exemplo. Suas relações incestuosas com a família Queiroz são o retrato mais aparente da prática delituosa da família Bolsonaro’, completa.

Por fim, Carvalho destaca que os oficias da PM cometem um “grave erro”ao apoiar Jair Bolsonaro.

“Tenho a firme convicção de que a oficialidade comete grave erro. Um erro histórico. Não a instituição, organização independente da vontade de seus componentes. Essa permanece firme em seus propósitos legais e na defesa do ordenamento jurídico, à semelhança do que ocorreu com as Forças Armadas. Mas de seus integrantes, que, por um engodo, tem feito uma opção que julgo não ser a mais adequada”, escreve, antes de anunciar que deixa o posto.


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