Entenda como a Prevent Senior teria usado pacientes como cobaia para testar o “Kit Covid”

O médico e diretor da rede hospitalar Pedro Benedito Batista Junior depõe nesta quarta na CPI da Covid

A CPI da Covid ouve nesta quarta-feira (22) Pedro Benedito Batista Junior, diretor-executivo da empresa de plano de saúde Prevent Senior.

A rede hospitalar é acusada de utilizar pacientes como cobaias para a aplicação do “Kit Covid“. De acordo com a denúncia de um grupo de médicos da rede, tudo era feito sem o consentimento dos clientes.

Além disso, a CPI também quer saber se a Prevent Senior ocultou mortes de pacientes decorrentes do teste que eles estavam fazendo para testar hidroxicloroquina, associada à azitromcina para tratar a Covid-19.

A denúncia

Durante a abertura a da sessão da CPI da Covid do dia 26 de agosto, o senador Humberto Costa (PT-PE) revelou que um grupo de médicos está processando a Prevent Senior, pois, a direção da rede hospitalar teria obrigado os médicos a adotarem o chamado tratamento precoce. Quem se recusava, era demitido.

A Fórum teve acesso ao documento elaborado pelo gabinete do senador Humberto Costa a partir da denúncia de um grupo de 12 médicos que prestam serviço para a Prevent Senior e que ainda “desejam manter seu sigilo preservado”.

Segundo a denúncia, a política de coerção com relação as orientações e posições clínicas adotadas pela empresa é prática corrente da Direção da Prevent Senior.

“O gabinete teve acesso a mensagens de Whatsapp encaminhadas pelo Diretor Clínico, Dr. Roberto de Sá, aos médicos que trabalham na instituição lembrando dos conceitos de ‘lealdade’ e ‘obediência’ já expostos pela Prevent Senior no momento de contratação. Os profissionais de saúde que não se se submetem as diretrizes são punidos com a demissão”.

Aliança com o governo Bolsonaro

Em março de 2020, o então Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, criticava dura e publicamente a política e os resultados de atendimento Prevent Senior durante a pandemia.

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Diante disso, a solução encontrada pela referida operadora de plano de saúde teria sido a aproximação de assessores próximos ao Presidente Jair M. Bolsonaro e ao Ministério da Economia, evitando conflitos com o Ministério da Saúde.

O pacto assim teria sido firmado no final de março de 2020: a Rede Prevent Senior aderiria às diretrizes do Governo Federal e do Ministério da Economia repassadas por novos “assessores”, e o Ministério da Saúde pararia com as críticas e acusações contra a Prevent Senior, ainda que fosse necessário trocar o Ministro da Saúde Mandetta para tanto.

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As experiências e o “Terceiro Reich”



Dentre os diversos relatos que a advogada descreve de clientes, o mais impactante foi de um coordenador cuja afirmação é que ele sentia como se participasse do Terceiro Reich. A terceira categoria de experiências tinha por objetivo desenvolver e testar medicamentos, bem como métodos de tratamento para enfermidades.

Os kits experimentais eram organizados assim: Hidroxicloroquina, Azitromicina, Ivermectina.

Além desses, outros medicamentos de uso desconhecido para o tratamento de pacientes com a síndrome respiratória aguda grave ocasionada pelo COVID19 também foram “experimentados” pela Rede Prevent Senior, são eles: Metotrexato, Flutamida, Etanercepte.

Além da utilização de medicamentos ineficazes para o tratamento de doentes acometidos pelo vírus COVID 19, alguns experimentos foram realizados, dos quais destacam-se: Tornar a heparina inalatória; Ozonioterapia; Imunoterapia

Óbitos fraudados



Além das experiências, os denunciantes apontam para a possibilidade de que o Dr. Antony Wong, que compunha o gabinete paralelo, e a mãe do empresário Luciano Hang teriam tido os seus respectivos óbitos fraudados.

Reportagem publicada pela revista Piauí confirma as suspeitas: o médico Antony Wong faleceu em decorrência da Covid-19, mas o seu óbito foi adulterado para esconder o real motivo de seu falecimento.

Governo Bolsonaro acompanhava de perto protocolo de “kit Covid” da Prevent Senior

Segundo o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o dossiê mostra que a Prevent agiu em conluio com o presidente Jair Bolsonaro. “O documento informa que a disseminação da cloroquina e outras medicações foi resultado de um acordo entre o governo Bolsonaro e a Prevent. Segundo o dossiê, o estudo foi um desdobramento do acordo. Ouvir a Prevent continuará em nossa agenda”, escreveu no Twitter.

Esse conluio citado por Randolfe fica expresso em um vídeo de maio de 2020 divulgado na matéria do portal Metrópoles. Trata-se de uma conversa entre Pedro Batista Jr, diretor-executivo da Prevent Senior, e o virologista Paulo Zanotto, apontado pela CPI como integrantes do “gabinete paralelo” que aconselhava Bolsonaro.

“Maior escândalo ético da medicina brasileira”, diz Padilha

O ex-ministro da Saúde e deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) declarou à Fórum que se trata de um “dos maiores escândalos éticos da medicina brasileira que não pode ficar sem punição pesadíssima aos responsáveis”. Padilha também revelou que já solicitou ao Conselho Nacional de Ética e Pesquisa (Conep) informações sobre o experimento realizado pela Prevent Senior.

“Os pesquisadores simplesmente fraudaram todos os procedimentos éticos estabelecidos pelos comitês de ética e pesquisa. É um escândalo sanitário porque fazem isso no meio de uma pandemia com proporções gravíssimas”, critica Padilha.

o protocolo estabelecido pela direção da Prevent Senior previa o espalhamento do vírus dentro do hospital.

“É um escândalo gravíssimo que exige uma punição pesada dos órgãos reguladores de saúde do país, porque envolve uma rede da saúde que se sente com a liberdade e a ousadia de usar os seus usuários, que pagam pelo plano de saúde, como cobaias humanas sem qualquer procedimento ético e responsável em relação à pesquisa”, diz Padilha.

O documento dos médicos denunciantes também revela que a empresa Vitamedic, que é produtora de ivermectina e que, durante o depoimento de seu diretor à CPI, revelou que durante a pandemia a empresa teve um aumento de 1.000% em seus lucros. Os profissionais que denunciam apontam uma “forte relação” entre a Vitamedi e a Prevent Senior. Essa parceria tinha um modus operandi.

O ciclo funcionava da seguinte maneira: “a Vitamedic fornecia os principais medicamentos do “kit prevent”, a Prevent Senior fornecia os dados e os assessores Wong, Yamaguchi e Zanotto propagam a informação. Segundo relato dos consulentes que exerciam cargos na diretoria da instituição, quanto mais rápido a “roda de interesses” girasse, mais o governo federal propagava informações e mais a Prevent Senior entrava em evidência”.

Para o ex-ministro da Saúde, o experimento que Prevent Senior realizou com os seus pacientes mostra que a “busca desmedida pelo luco e ganância não rimam com o direito à saúde” e que espera uma punição “rigorosa” do Conep.

“A Conep tem que ser rigorosa e extremamente firme com os autores desse estudo, com os responsáveis pela gestão desse plano de saúde, que já se mostram completamente antiéticos e fizeram divulgação de dados sobre o estudo estar aprovado na Conep. A gente espera uma ação muito forte não apenas pelo Conep, mas do Ministério Público”, diz o deputado, que também é médico sanitarista e ex-ministro da Saúde.

O experimento, que tem sido comparado a práticas nazistas, foi realizado no início da pandemia do coronavírus, no ano passado.

O Ministério Público Federal, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo e a Agência Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) investigam as denúncias, que vieram a partir de relatos de médicos que trabalhavam junto à operadora de saúde. A Prevent Senior nega as acusações.

Segundo o dossiê, a empresa ocultou 7 das 9 mortes de pacientes que foram submetidos ao experimento e há relatos de familiares de algumas dessas pessoas de que o plano de saúde não as informou sobre o procedimento que estava sendo adotado.

À Fórum a advogada Luciana Munhoz, que é especialista em bioética, afirmou que, se comprovadas as irregularidades no estudo com “kit Covid”, a Prevent Senior poderia ter incorrido em infração ética e moral, passível de sanção nas esferas penal e civil.

“Quando pensamos na ética dos profissionais e na responsabilização legal, estamos falando de um erro que ocorreu na relação dos profissionais com os pacientes. Os pacientes precisam entender o que está acontecendo. É importante que essas condutas sejam avaliadas e que as instituições sejam punidas para que situações como essa não voltem a acontecer”, afirma a advogada.

“Sempre atuamos dentro dos parâmetros éticos e legais”

Por meio de uma nota enviada à Fórum, a Prevent Senior afirma que “sempre atuou dentro dos parâmetros éticos e legal e, sobretudo, com muito respeito aos beneficiários”.

O comunicado da rede hospitalar também afirmou que “todas as dúvidas e questionamentos formulados pela CPI foram devidamente esclarecidos Junto às autoridades competentes”.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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