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09 de setembro de 2008, 12h38

Projeto agroextrativista da favela cria fundo rotativo para agricultor

Tecnologia social investe em melhores condições de trabalho do agricultor familiar

Tecnologia social investe em melhores condições de trabalho do agricultor familiar

Por Redação 

Há mais de um século, um episódio da luta do sertanejo contra a miséria e a opressão, a Insurreição de Canudos, na Bahia, popularizou o nome de uma planta que emprestou sua denominação às favelas brasileiras. Do Morro da Favela, em Canudos, a fava d’anta, ou favela, foi levada, após o massacre dos revoltosos, ao Morro da Providência, no Rio de Janeiro, por soldados que passaram a viver em condições precárias no local. De lá para cá, as favelas se multiplicaram nas cidades, mas a favela, a planta, continua como símbolo de outras lutas no campo.

Exemplo disso é o projeto “Agroextrativismo Sustentável da Favela”, que está mudando a realidade de mais de 1,3 mil famílias organizadas na Rede de Comercialização Solidária de Agricultores Familiares e Extrativistas do Cerrado. Vencedor do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, em 2007, na categoria Centro-Oeste, o projeto está criando, com o valor do prêmio – R$ 50 mil –, um fundo rotativo solidário destinado à compra de carroças e animais para transporte dos frutos. Os recursos foram utilizados, ainda, para imprimir 3 mil cartilhas de orientação ao agroextrativista.

A premiação, realizada em parceria com a Petrobras, com apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e da KPMG Auditores Independentes, é concedida, a cada dois anos, para identificar, certificar, premiar e difundir tecnologias sociais. O conceito compreende produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade, que representem soluções efetivas de transformação social.

Com apoio do Centro de Desenvolvimento Agroecológico do Cerrado (Cedac), a rede desenvolve, desde 2000, ações de organização social coletiva, manejo sustentável, beneficiamento e comercialização de frutos do cerrado. A favela (Dimorphandra sp), por exemplo, é uma leguminosa de grande interesse para a indústria farmacêutica. De seus frutos são extraídas substâncias como a rutina, usada no tratamento do glaucoma e de doenças circulatórias, e a quercetina, açúcar utilizado em complementos alimentares.

Autonomia

Segundo a coordenadora técnica do Cedac, Alessandra Karla da Silva, o novo projeto, de fortalecimento do agroextrativismo sustentável no cerrado, bancado com os recursos do prêmio, busca melhorar a autonomia do agroextrativista para organizar a produção, aumentar a capacidade de coleta dos frutos da favela e, conseqüentemente, a renda familiar. Valorizar a organização das cooperativas, promover a capacitação de novas famílias e propiciar condições mais dignas de locomoção são outras das metas do projeto.

A maior dificuldade enfrentada era justamente a falta de condições de transporte dos frutos, pois os agricultores têm que percorrer longas distâncias, a cavalo ou de bicicleta, sem conseguir carregar muitas favelas. “O projeto vai melhorar as condições de trabalho das famílias e o resultado será revertido para os próprios produtores”, ressalta.

A gestão do fundo rotativo será compartilhada com a Rede de Comercialização Solidária, fortalecendo sua dinâmica social. A execução do projeto será realizada pelo Cedac e a administração ficará por conta da Cooperativa Mista dos Agricultores Familiares, Extrativistas, Pescadores, Vazanteiros e Guias Turísticos do Cerrado (Coopcerrado). Já as despesas com o funcionamento serão custeadas com recursos fornecidos por outros parceiros institucionais do Cedac.

Financiamento

O fundo atenderá, diretamente, no primeiro ano de funcionamento, 30 famílias dos municípios de São Domingos e São João d’Aliança, em Goiás, e Lassance, Ibiaí, Jequitaí e Paracatu, em Minas Gerais. A previsão é que os agricultores recebam, em agosto, as primeiras 30 carroças aro 21 com os arreios. Os agroextrativistas terão quatro anos para pagar o financiamento por meio da produção da favela.

Segundo Alessandra, o Prêmio Fundação BB de Tecnologia Socialfoi importante para divulgar o projeto junto aos agroextrativistas. “Com a divulgação, novos grupos, especialmente do Piauí e de Tocantins, já entraram em contato para participar da rede. E quando apresentamos o vídeo sobre a tecnologia, durante as reuniões com as comunidades, os produtores ficam sempre muito animados”, conta Alessandra.

Outro ganho, segundo a coordenadora, é a propagação das utilidades da favela para as indústrias farmacêuticas e de complementos alimentares. “Este reconhecimento valoriza o agroextrativista lá na ponta, que está gerando renda, conservando um bem maior que é o cerrado”, acredita.

Atualmente, a rede vende o fruto para a unidade industrial farmacêutica Merck Maranhão, que realiza o processamento e vende o produto para o exterior. O agricultor recebe o valor bruto de R$ 1,28 por quilo do fruto seco, o que equivale a um rendimento líquido de R$ 0,70. Somente na safra deste ano, 60 toneladas serão enviadas para a indústria. “A meta é ampliar o número de participantes da rede, aumentando a capacidade de produção e de negociação”, revela Alessandra.

Tecnologia Social

Em 2000, o Cedac fez um diagnóstico sócio-ambiental do extrativismo da favela em sete municípios do nordeste goiano. Os resultados indicaram extração predatória, baixa produtividade, desequilíbrio na cadeia de comercialização regional – já que os coletores ficavam com a menor parte dos rendimentos –, trabalho infantil e desvalorização da força de trabalho feminina. Para reverter a situação, o Cedac organizou o
Projeto Agroextrativismo Sustentável da Favela para envolver extrativistas de Minas Gerais, Goiás e Bahia em uma rede do bioma cerrado. A proposta era promover uma série de capacitações que resultasse no desenvolvimento da coleta dos frutos, na implementação do manejo sustentável, domínio sobre a cadeia da comercialização e aumento da renda.

A atividade começou com um grupo-piloto de 52 pessoas de seis comunidades do município de São Domingos/GO. O primeiro passo foi eliminar a figura do atravessador. Em 2006, o número de famílias passou para 400, organizadas em núcleos comunitários. Cada um tem um monitor responsável por devolver à comunidade as informações repassadas nas reuniões mensais, pela mobilização e organização do pessoal para o trabalho em rede e pela implementação das atividades. A participação dos agroextrativistas da favela na Rede de Comercialização Solidária de Agricultores Familiares e Extrativistas do Cerrado e na Coopcerrado possibilitou o aumento da produção e da renda, a venda direta às indústrias e a criação das primeiras reservas extrativistas do cerrado, a Lago do Cedro, em Aruanã, e a Recanto das Araras de Terra Ronca, em São
Domingos, ambas em Goiás.

Atualmente, o projeto reúne 1.305 famílias de agricultores, assentados, pescadores, extrativistas, vazanteiros e guias turísticos, que vivem em 28 municípios dos estados de Goiás, Minas Gerais e Bahia.

(Matéria originalmente publicada no site da Fundação Banco do Brasil)


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