Fórumcast #20
07 de agosto de 2013, 13h18

PSDB blindado pela mídia

Para especialistas, cobertura da imprensa em relação ao caso de corrupção no Metrô e na CPTM mostra partidarismo dos veículos de comunicação

Para especialistas, cobertura da imprensa em relação ao caso de corrupção no Metrô e na CPTM mostra partidarismo dos veículos de comunicação

Patrícia Benvenuti, do Brasil de Fato

(Foto: Daniel Guimarães / Governo do Estado de São Paulo)

O governo tucano de São Paulo fica cada vez mais enredado no caso de cartel das licitações do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Documentos apresentados pela Siemens ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) comprovariam o pagamento de propinas a autoridades envolvidas no esquema que lesou os cofres públicos paulistas em pelo menos R$ 425 milhões.

As denúncias de cartel são investigadas pela Operação Linha Cruzada, realizada pelo Cade em conjunto com a Polícia Federal. As suspeitas apontam para o envolvimento de 13 empresas na formação de cartel em seis licitações para aquisição de trens, manutenção e construção de linhas ferroviárias e de Metrô em São Paulo e no Distrito Federal.

As fraudes, ocorridas entre 1998 e 2007, começaram a ser reveladas pela Siemens em julho, depois de um acordo de delação premiada para garantir imunidade para a companhia e seus executivos.

Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, o Cade analisa diários da Siemens que contêm registros sobre as reuniões entre representantes da transnacional alemã e o governo de São Paulo. De acordo com os documentos, o cartel, apelidado de a “grande solução”, era o desfecho preferido pela Secretaria de Transportes por garantir “tranquilidade na concorrência”.

O cartel em São Paulo teria sido formado em 2000, no governo de Mário Covas (PSDB), para a construção da linha 5 do Metrô, e continuado durante as gestões de Geraldo Alckmin (2001-2006) e também no primeiro ano do governo de José Serra (2007). A ideia era formar um consórcio único para vencer licitações e depois subcontratar as empresas perdedoras, o que acabou acontecendo.

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Imprensa

Apesar da magnitude, o esquema de corrupção começou a ser noticiado de forma tímida na imprensa corporativa. Em sua edição de 14 de julho, a Folha de S.Paulo trouxe o assunto em uma manchete e repercutiu as denúncias no dia seguinte. O jornal só deu visibilidade ao caso novamente em 2 de agosto, com uma matéria sobre os diários da Siemens. Seu concorrente, o Estado de S.Paulo, não aproveitou o hiato da Folha para dar repercussão ao caso – publicou apenas matérias curtas e sem destaque.

Reprodução

Quem deu fôlego às denúncias foi a revista IstoÉ, que apresentou duas reportagens de capa sobre a formação do cartel. As outras semanais não se interessaram muito. Com exceção da Carta Capital, que abordou a denúncia em suas páginas, Veja e Época trataram do caso em poucas linhas – nenhuma das duas cita nomes de autoridades envolvidas.

Nos canais de TV, o silêncio é ainda maior. As emissoras repercutiram pouco o caso. O Jornal Nacional, da TV Globo, só trouxe o assunto à tona em 2 de agosto, depois de as denúncias terem sido abordadas em jornais, revistas e, principalmente, nas redes sociais.

Blindagem

A postura dos meios de comunicação corporativos, porém, não surpreende os especialistas. Para o professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) Laurindo Leal Filho, a cobertura atual da mídia se assemelha ao que ocorreu durante as denúncias sobre o chamado “Mensalão Mineiro”, envolvendo lideranças do PSDB naquele estado.

“A cobertura é bastante diferenciada quando é em relação ao PSDB. Há uma preocupação em não expor o partido, seus dirigentes e os governantes ligados ao partido envolvidos no caso”, afirma. Cobertura oposta ao que ocorreu quando o alvo das denúncias eram lideranças do PT. O professor lembra que em 2005, durante a CPI do Mensalão, o assunto foi destaque nos noticiários durante meses. A atenção foi tanta que as notícias pipocavam até mesmo fora dos telejornais, durante a grade normal de programações da TV Globo.

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Outra peculiaridade é a ênfase no nome das empresas. Em outros casos de corrupção, explica Filho, é comum que os nomes das companhias sejam preservados, deixando o peso sobre os “corrompidos”. Agora, porém, os governos do PSDB são citados – quando o são – de forma discreta nas matérias.

“Isso prova mais uma vez que essa mídia tem um lado bastante definido. E quando esse lado está sob algum tipo de ataque, ela faz todo o possível para minimizar o fato”, analisa.

O presidente do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, Altamiro Borges, critica a “blindagem” dos veículos em relação às denúncias de corrupção. Para ele, o caso ilustra a seletividade da imprensa, que trabalha as informações de acordo com seus interesses.

“O que não interessa para a mídia ela esconde e omite. O que interessa ela dá destaque, realça, dá manchete, faz várias matérias. O que a gente está vendo nesse caso é a confirmação da tese do professor Perseu Abramo”, afirma, referindo-se aos estudos do jornalista Perseu Abramo (1929-1996) sobre a mídia. Em seu livro Padrões de Manipulação na Grande Imprensa, Abramo defendeu que a manipulação não consiste em apresentar inverdades, e sim em criar realidades distorcidas a respeitos dos fatos.

A própria nomenclatura escolhida para os “mensalões”, de acordo com Altamiro Borges, é um exemplo do tratamento diferenciado. “O caso do chamado Mensalão envolvendo o [José] Dirceu e o [José] Genoino é o Mensalão do PT; o Mensalão envolvendo Eduardo Azeredo e Aécio Neves em Minas não é o Mensalão Tucano, é o Mensalão Mineiro”, observa.

Se a cobertura como um todo gera críticas, as mais fortes vão para os canais de televisão. “É uma obrigação, principalmente nas concessões públicas, o respeito mínimo à diversidade e à pluralidade informativas, mas isso não existe na mídia brasileira”, dispara o presidente do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé.

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Protesto

Se na imprensa corporativa as denúncias de formação de cartel não ganham destaque, nas redes sociais o assunto é debatido há várias semanas. O caso vem sendo lembrado em diferentes manifestações em São Paulo e tem contribuído para engrossar os pedidos de impeachment contra o governador Geraldo Alckmin.

Um grupo de cerca de 20 manifestantes chegou a acampar em frente à sede do governo pedindo, dentre outras reivindicações, a abertura de uma CPI para apurar as irregularidades.

Para o jurista Fábio Konder Comparatto, as denúncias podem motivar a abertura de uma ação penal. “Parece um caso manifesto de corrupção. É preciso abrir inquérito (se é que já não foi aberto) e aguardar que o Ministério Público inicie a devida ação penal”, afirma.

Para 14 de agosto, está prevista nova manifestação contra o desvio de recursos no Metrô e na CPTM, convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL), Sindicato dos Metroviários e movimentos sem teto.

Para Altamiro Borges, as mobilizações nas ruas podem forçar a mídia corporativa a dar mais relevância às denúncias. “Se o caso do propinoduto tucano ganhar as ruas e se outros jornais ou revistas de menor tiragem forem dando [notícias relacionadas], isso vai forçando os ‘caras’ [veículos] a se pronunciarem”, diz.

Laurindo Leal Filho, no entanto, é mais cético. Segundo o professor, o elo entre a imprensa com o PSDB é tão forte que nem mesmo as mobilizações farão muita diferença para as próximas coberturas. “O compromisso deles [veículos] com o PSDB é tão grande que eles vão resistir ao máximo”, avalia.

(Colaborou: Marcio Zonta)

(Foto de capa: Jonathan Pereira da Silva / WikiMedia Commons)


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