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04 de abril de 2013, 15h09

Quando o véu não é apenas um detalhe

Leia matéria da edição 121 da Fórum e veja porque feministas da Tunísia contestaram o Femen, acusando o grupo de difundir informações equivocadas

Leia matéria da edição 121 da Fórum e veja por que feministas da Tunísia contestaram o Femen, acusando o grupo de difundir informações equivocadas 

Por Adriana Delorenzo

Poucos dias antes do início do Fórum Social Mundial, em Túnis, circulou pelas redes sociais a notícia de que uma jovem tunisiana, do grupo feminista Femen, teria sido condenada à morte. Amina Tyler, de 19 anos, divulgou em sua página no Facebook uma foto de topless, em protesto pela liberdade das mulheres. O líder islâmico Adel Almi teria dito que a jovem deveria ser apedrejada até a morte pelo seu grave pecado. Um abaixo-assinado em defesa de Amina se espalhou pela internet.

Em comunicado, a Rede Muçulmana, que reúne feministas, afirmou que não se tratava de fatwa [pronunciamento legal emitido por um especialista em lei religiosa] alguma, “senão supostas declarações misóginas e criminais muito graves, sem peso legal algum, já que na Tunísia não há pena de morte”. No mesmo comunicado, a rede defende que esses clérigos “misóginos” sejam desautorizados a dar esse tipo de declaração, e dá todo o apoio a todas as formas de protesto pacífico “contra o patriarcado”. E termina denunciando “a manipulação dos meios de comunicação que servem como uma correia de transmissão para expressões racistas e islamofóbicas”. E protesta contra o grupo Femen, que não teria corrigido a informação.

 

Mulheres protestam no Fórum Social Mundial, em Túnis (Adriana Delorenzo)

Apesar de não poder ser condenada à morte pela legislação tunisiana, a jovem poderia ser condenada a uma pena de seis meses a dois anos e multa de 100 a 1.000 dinares (equivalente a cerca de 1.400 reais) por “atentado ao pudor”, como afirmam as feministas muçulmanas. Um ato global estava sendo convocado pelo Femen para o dia 4 de abril, após o fechamento desta edição da Fórum: “Vá para a embaixada da Tunísia e proteste de topless, com ‘Meu corpo contra o Islamismo’ escrito em seu corpo, tire uma foto de você mesma e poste na sua rede social”.

Outro lado: islamofobia e preconceito

Para a jornalista e mediadora intercultural Brigitte Vasallo, em seu blogue “Perder el Norte”, trata-se de mais um caso de islamofobia. Em 2012, o Femen protagonizou um protesto contra a participação de países islâmicos nas Olimpíadas de Londres. Afora as práticas do grupo, a religião e as mulheres são temas presentes na Tunísia, onde se estima que 99% da população seja muçulmana.

Durante o Fórum Social Mundial, um protesto chamou a atenção na Universidade El Manar, onde o evento foi realizado: várias mulheres e alguns homens pediam o direito delas usarem niqab (véu que cobre todo o corpo e rosto, só deixando os olhos à mostra) nas aulas e nas provas nas universidades. Antes da revolução, em 2011, era proibido usar qualquer tipo de véu nas ruas, tanto o hijab (que cobre apenas os cabelos), quanto o niqab. “A polícia me prendeu muitas vezes por causa disso. Você acha amedrontador ver uma mulher usando um véu? Para mim não é. Eles dizem que é um símbolo do terrorismo, mas eu sou uma mulher normal, não sou terrorista, não há razão para não me aceitar”, explica a estudante de Sociologia, Dorra Bader, de 19 anos.

Hoje é possível usar todos os tipos de véu nas ruas e mesmo no espaço da universidade. Mas não durante as aulas e nas provas. E isso é o que tem motivado os protestos deste grupo. “Espero que haja liberdade e que nos aceitem na universidade. Posso ser uma socióloga e fazer muitas coisas pela sociedade e pelo meu país. A mídia sempre mostra os muçulmanos como terroristas e retrata as mulheres que usam o véu como estúpidas, que não sabem pensar por si próprias, mas quando você conversa conosco, descobre que somos normais. É apenas um julgamento errado. Somos normais e vivemos normalmente. Deveríamos aceitar uns aos outros. É só isso.”

Há quem tema o desconhecido, porque não está acostumado a ver pessoas diferentes, porque se fala de extremismo na Tunísia”, afirma Ben Chalila Cyrine, de 19 anos, estudante de Biologia, e membro da União Geral Tunisiana dos Estudantes (UGTE). “As pessoas têm medo dessa mudança, talvez seja um medo do desconhecido, porque não estão acostumadas a ver quem pensa diferente”, diz ela sobre a nova liberdade conquistada de poder usar o véu nas ruas. Para ela, apesar de a vida ter melhorado após a revolução, a liberdade para as mulheres ainda não é “perfeita”.

Boudhraa Safa, 19 anos, estudante de Física, e militante da UGTE, tem opinião semelhante. Considera a revolução um avanço porque hoje já se pode dizer ao menos o que se pensa. “Antes da revolução nós não tínhamos pessoas com ideologias diferentes. Na Tunísia, não tínhamos nenhuma ideia do que era realmente a política. Hoje, estamos aprendendo o que é a democracia no nosso dia a dia. Depois da revolução, as coisas ficaram muito melhores, porque temos a liberdade de protestar, de discordar e de expressar nossas opiniões.”

Mas, assim como Dorra Bader luta pelo direito de poder usar o seu niqab, a jovem Raâfa Ayadi, presidente da Associação pela Promoção das Mulheres Tunisianas (Araafa), preocupa-se com a interferência do governo islâmico na vida das mulheres. Para ela, “o niqab não é um símbolo de liberdade, não é um símbolo de educação, é um símbolo de violência, agressão, extremismo e de exclusão de mulheres”. Para Raâfa, se com Ben Ali era proibido, agora com o partido Ennahda no poder o sinal se inverteu. Hoje há pressão para que as mulheres vistam véus. Apesar disso, comemora o ressurgimento dos movimentos feministas no país. “Antes só havia a associação da ex-primeira-dama.”

Na assembleia das mulheres, realizada no primeiro dia de FSM, que lotou o auditório da Faculdade de Direito da Universidade El Manar, Halima Jouni, da Associação Tunisiana das Mulheres Democratas (ATFD), disse ao jornalista Maurício Hashizume, da Carta Maior, que as mulheres tiveram um papel central nas revoltas que derrubaram Ben Ali, mas o governo atual vem boicotando a luta feminista por meio de estratégias meticulosas como associar a luta pelos direitos das mulheres com as demandas do movimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais e transgêneros (LGBT) para dificultar a aceitação de mudanças por parte da sociedade tunisiana”.

No FSM, grupos organizados de feministas preferiram não discutir o tema com profundidade e inclusive evitaram tratar do assunto, alegando que não seria central no debate sobre os direitos da mulher. Mas, o fato é que ele se mostrou uma das principais demandas das mulheres tunisianas e da região do Magreb presentes ao FSM. E parece ser central, inclusive, no debate sobre o caminho que a democracia vai tomar no país. Leia a seguir duas abordagens distintas sobre o uso dos véus e do niqab.

Confira a matéria completa na edição 121 de Fórum, na semana que vem, em bancas. Leia também:

– O fator Feliciano – Eleição de deputado para a presidência da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara mostra o relativo desprezo com que temas importantes são tratados pelo Parlamento.

– Entrevista com Marcelo Freixo – o deputado estadual e ex-candidato a prefeito do Rio de Janeiro fala sobre o saldo político da sua campanha, rememora sua trajetória de militância e afirma que “a luta por direitos humanos é a essência da nova luta de classes”.

– Dossiê especial FSM 2013 – a cobertura completa em onze páginas sobre o Fórum Social Mundial realizado em Túnis, na Tunísia.

– Entrevista com Juca Ferreira – o atual secretário municipal de Cultura de São Paulo fala a respeito do papel que a capital paulista pode desempenhar, culturalmente e em outras áreas, e também faz uma avaliação sobre como a especulação imobiliária tem dado duros golpes nas atividades e práticas culturais.

 


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