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08 de fevereiro de 2012, 19h05

Quando o nativo não é herói

Vários casos em que a tradição e a dita modernidade se chocam são relatados e discutidos no FSM. Mas ontem, durante a mesa Associativismo e redes sociais na perspectiva socioambiental, a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Neide Esterci apresentou um estudo que mostra que tal diferença é difícil de ser compreendida até mesmo por ativistas.
Com o movimento de ambientalização que se fortaleceu no Brasil principalmente no fim da década de 80, próximo à realização da ECO-92, as comunidades nativas da Amazônia passaram a ser vistas por muitos como protagonistas de uma “nova era”, já que representavam os ideais de preservação ambiental. Se isso por um lado foi positivo, já que atraiu a atenção do mundo para as culturas locais de povos da Amazônia, por outro agravou a exclusão daqueles que não seguiam exatamente o roteiro de tradição esperado.
Foi o que aconteceu com populações ribeirinhas do Médio Solimões, no Amazonas, local onde Neide realizou seu estudo. Parte delas migrou de seus lugares de origem para as cidades maiores em busca de melhores condições de vida. “Os que ficaram, continuaram sendo chamados de ribeirinhos, enquanto os que saíram passaram a ser identificados simplesmente como ‘pescadores‘, o que não é correto”, explica Neide.
Essa diferenciação entre pessoas que possuem a mesma cultura, mas que se distanciaram geograficamente, gerou uma situação de exclusão para quem migrou. “Quem ficou era visto como aliado do meio ambiente, já os demais, mesmo explorados pela indústria pesqueira, eram encarados como depredadores”, explica.
A situação precisou chegar a um nível alarmante para atrair a atenção das autoridades. Em 2002, um conflito entre os pescadores das colônias e os ribeirinhos fez com que a questão passasse a ser encarada de outra forma, por parte de ambientalistas e também do Estado. “A partir de um episódio lamentável o poder público conseguiu criar instrumentos que garantiram uma qualidade de vida melhor para os pescadores que moram nas cidades. E a relação entre eles e os ribeirinhos do interior também melhorou, tanto que eles fizeram a despesca (retirada de peixes de manejo comunitário) juntos”.


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