domingo, 20 set 2020
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“Quem trai o pobre, trai Cristo!”

Este texto sai carregado de memórias afetivas. Hoje, 13 de agosto, se ainda estivesse vivo, Fidel Castro completaria 94 anos. E, no último sábado, perdemos Dom Pedro Casaldáliga. Dois nomes fundamentais na minha construção cristã-socialista.

Hoje pastor evangélico, iniciei minha caminhada cristã na Igreja Católica, em Teresópolis, ainda criança/adolescente. Havia em Teresópolis um padre “revolucionário”, adepto à Teologia da Libertação, com quem eu tive conversas muito longas sobre fé e revolução. Foi o Padre Adamastor quem me apresentou Dom Pedro Casaldáliga (também Leonardo Boff, Frei Betto, Dom Hélder Câmara, entre outros).

Adolescente devorador de livros e apaixonado por cristianismo e política, li pronta e avidamente “Jesus Cristo Libertador” e “Igreja: Carisma e Poder” de Leonardo Boff, “Com Deus no meio do povo” de Dom Pedro Casaldáliga e um livro que seria um divisor de águas na minha caminhada cristã: “Fidel e a Religião – Conversas com Frei Betto”. Ali nascia o cristão-socialista que sou até hoje.

Por isso, ao pensar em Fidel e em Dom Pedro Casaldáliga, meu coração fica aquecido por entender que essa caminhada junto ao povo, sendo povo, desde sempre lutando por direitos e por justiça social, por educação digna para todos, saúde como direito, moradia como sinônimo de dignidade humana e contra toda exploração dos poderosos eram lutas indissociáveis de minha caminhada cristã.

Portanto, causa-me muita estranheza quando alguém me questiona o fato de ser cristão e socialista. Não é a mim que deve ser feita essa pergunta, mas ao cristão que abraça o capitalismo. É ele quem está em contradição, não eu.

“Por que as ideias de justiça social têm que se chocar com as convicções religiosas? Por que têm que se chocar com o cristianismo? Conheço bastante os princípios cristãos e as pregações de Cristo. Tenho minha convicção de que Cristo foi um grande revolucionário. Essa é a minha convicção. Era um homem cuja doutrina está toda consagrada aos humildes, aos pobres, a combater os abusos, a injustiça e a humilhação do ser humano. Eu diria que há muito em comum entre o espírito, a essência de sua pregação e o socialismo.” Palavras de Fidel Castro.

A luta anticomunista de alguns religiosos deve ser lida a partir de um único viés: o do poder econômico. Digo isso sem medo de errar. Todas as nuances dessa discussão apontarão no final para uma religião detentora do poder econômico e que em nome do seu amor ao dinheiro (que a Bíblia afirma ser a raiz de todos os males e Jesus compara à uma divindade) é capaz de defender, como no Brasil, até mesmo o “direito” de oprimir e de mentir. Basta ver a luta de pastores contra a decisão do TSE sobre o “abuso do poder religioso” e contra a “CPI das Fake News”.

Sim, vivemos para ver pastores e outros religiosos lutando pelo “direito” de mentir.

Mas não há para onde escapar, ao ler os Evangelhos, da defesa dos pobres e vulneráveis, das minorias e dos excluídos, daqueles que não tem terra, nem teto, nem sua dignidade assegurada. Lembro do poema de Dom Pedro Casaldáliga, que dedicou sua vida aos pobres, aos indígenas, aos ribeirinhos, ao povo simples da região do Araguaia:
“No ventre de Maria, Deus se fez homem.
Na carpintaria de José, Deus se fez classe.”

E termino com a frase-título deste texto, do “aniversariante do dia”, Fidel Castro: “Quem trai o pobre, trai Cristo!”

E os traidores estão no poder…

PS.: E alguns desses traidores estão nas Minas Gerais, neste exato momento, tentando retirar o povo pobre do Quilombo Campo Grande, em Campo do Meio-MG. Aqui registro minha denúncia e minha oração por justiça!

*Esse artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

Zé Barbosa Junior
Zé Barbosa Junior
Teólogo, pastor da Comunidade Cristã da Lapa, escritor, membro do Comitê Estadual de Defesa da diversidade religiosa de MG