Questionada se "faz faxina", historiadora negra responde: "Não. Faço mestrado. Sou professora"

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Em contundente relato, a historiadora Luana Tolentino, que já foi babá e empregada doméstica e que recebeu a Medalha da Inconfidência de 2016, contou essa e outras experiências que passou ao longo de sua vida por conta do racismo institucional enraizado em nosso país. "No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade". Leia a íntegra e se emocione Por Luana Tolentino, em seu Facebook Hoje uma senhora me parou na rua e perguntou se eu fazia faxina. Altiva e segura, respondi: - Não. Faço mestrado. Sou professora. Da boca dela não ouvi mais nenhuma palavra. Acho que a incredulidade e o constrangimento impediram que ela dissesse qualquer coisa. Não me senti ofendida com a pergunta. Durante uma passagem da minha vida arrumei casas, lavei banheiros e limpei quintais. Foi com o dinheiro que recebia que por diversas vezes ajudei minha mãe a comprar comida e consegui pagar o primeiro período da faculdade. O que me deixa indignada e entristecida é perceber o quanto as pessoas são entorpecidas pela ideologia racista. Sim. A senhora só perguntou se eu faço faxina porque carrego no corpo a pele escura. No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel. É esse olhar que fez com que o porteiro perguntasse no meu primeiro dia de trabalho se eu estava procurando vaga para serviços gerais. É essa mentalidade que levou um porteiro a perguntar se eu era a faxineira de uma amiga que fui visitar. É essa construção racista que induziu uma recepcionista da cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência, a maior honraria concedida pelo Governo do Estado de Minas Gerais, a questionar se fui convidada por alguém, quando na verdade, eu era uma das homenageadas. Não importa os caminhos que a vida me leve, os espaços que eu transite, os títulos que eu venha a ter, os prêmios que eu receba. Perguntas como a feita pela senhora que nem sequer sei o nome em algum momento ecoarão nos meus ouvidos. É o que nos lembra o grande Mestre Milton Santos: "Quando se é negro, é evidente que não se pode ser outra coisa, só excepcionalmente não se será o pobre. (...) Não será humilhado, porque a questão central é a humilhação cotidiana. Ninguém escapa, não importa que fique rico." É o que também afirma Ângela Davis. E ela vai além. Segundo a intelectual negra norte-americana, sempre haverá alguém para nos chamar de "macaca/o". Desde a tenra idade os brancos sabem que nenhum outro xingamento fere de maneira tão profunda a nossa alma e a nossa dignidade. O racismo é uma chaga da humanidade. Dificilmente as manifestações racistas serão extirpadas por completo. Em função disso, Ângela Davis nos encoraja a concentrar todos os nossos esforços no combate ao racismo institucional. É o racismo institucional que cria mecanismos para a construção de imagens que nos depreciam e inferiorizam. É ele que empurra a população negra para a pobreza e para a miséria. No Brasil, "a pobreza tem cor. A pobreza é negra." É o racismo institucional que impede que os crimes de racismo sejam punidos. É ele também que impõe à população negra os maiores índices de analfabetismo e evasão escolar. É o racismo institucional que "autoriza" a polícia a executar jovens negros com tiros de fuzil na cabeça, na nuca e nas costas. É o racismo institucional que faz com que as mulheres negras sejam as maiores vítimas da mortalidade materna. É o racismo institucional que alija os negros dos espaços de poder. O racismo institucional é o nosso maior inimigo. É contra ele que devemos lutar. A recente aprovação da política de cotas na UNICAMP e na USP evidencia que estamos no caminho certo.