Repressão aos protestos sociais no Chile provoca recorde de pedidos de dispensa do serviço militar

Segundo a psicóloga Jeannette Rosentreter, “ser parte do Exército se tornou algo antipopular, e a classe militar é vista como inimiga da população”

A forte repressão das Forças Armadas e policiais chilenas, observada durante as manifestações diárias no país desde outubro deste ano, ainda não levou a nenhuma punição judicial contra o presidente Sebastián Piñera e as instituições armadas, mas sim uma punição moral.

Tal situação pode ser medida, por exemplo no número recorde de pedidos de dispensa do serviço militar obrigatório. Nesta quarta-feira (20), o DGMN (Departamento Geranl de Mobilização Nacional), responsável pelo alistamento e seleção militar, anunciou a cifra recorde de mais de 7 mil pedidos de dispensa registrados somente até a segunda (18).

O prazo para efetuar esses pedidos vencia naquela mesma quarta, e como ainda havia longas filas de jovens solicitando sua liberação do serviço obrigatório, a autoridade decidiu estender o prazo para protocolar os pedidos até o dia 31 de dezembro.

Segundo a psicóloga Jeannette Rosentreter, que faz parte da Comissão de Direitos Humanos da Associação dos Psicólogos do Chile, um fator relevante sobre este tema é que a ação das Forças Armadas nos trabalhos de segurança interna do país durante o Estado de exceção decretado por Sebastián Piñera (entre os dias 20 e 27 de outubro) fez aumentar o repúdio da sociedade às instituições militares.

Segundo a psicóloga, “essa expressão de força e controle da população gerou um sentimento forte de temor e angústia em muitos familiares, que não ocorria antes, ao menos nessa proporção, os pais temem que seus filhos sejam convocados a tarefas de repressão nas ruas, como aconteceu durante o Estado de exceção”.

Para Rosentreter, também a um elemento de recriminação social entre os jovens. “Ser parte do Exército se tornou algo antipopular, esse desprestígio à classe militar, que passou a ser vista como inimiga da população, é algo que vem crescendo. É um clima que não sei quanto tempo pode durar, mas que está muito presente agora, que a repressão está na memória recente das pessoas”, comenta a psicóloga.

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Victor Farinelli

Jornalista formado pela Universidade Católica de Santos, há 15 anos é correspondente na Argentina (2004 e 2005) e no Chile (desde 2006).