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15 de fevereiro de 2017, 14h04

Romantismo apolítico de Adele vence o Grammy em tempos de Trump

A cantora britânica Adele, com seu álbum “25”, venceu o Grammy. Romântico, bem produzido e sem gosto, o álbum ficou à frente de “Lemnoade”, de Beyoncé, negra, crítica, plural e, sem a menor sombra de dúvidas, com muito mais corrida e amadurecimento artístico. Vendeu, mais uma vez, o mercado

A cantora britânica Adele, com seu álbum “25”, venceu o Grammy. Romântico, bem produzido e sem gosto, o álbum ficou à frente de “Lemnoade”, de Beyoncé (foto), negra, crítica, plural e, sem a menor sombra de dúvidas, com muito mais corrida e amadurecimento artístico. Venceu, mais uma vez, o mercado.

Por Julinho Bittencourt

A cantora britânica Adele foi a grande vencedora do Grammy. Levou melhor canção, melhor gravação e melhor álbum, o “25”. O disco é, de fato, tudo o que o mercado fonográfico sonha desde os seus primórdios, ou seja, romântico, bem cantado, muito bem produzido, com várias canções dignas de sucesso e anódino.

“25” não fede, não cheira e não sangra. É plácido, tranquilo do começo ao fim, assim como toda a breve discografia da cantora, verdade seja dita. De um romantismo a toda prova, a cantora tem a seu favor, para rimar com esses tempos de inclusão, o peso. Bela e gordinha, ela faz a alegria de várias adolescentes do mundo que, ao percebê-la irreverente, alegre e bem sucedida, se sentem capazes de seguir o mesmo caminho.

Béyonce canta “Soundcastles”, do disco “Lemonade”

Mas isto é pouco para ser considerada uma das maiores vencedoras deste que é um dos maiores prêmios, se não o maior, da música de todos os tempos. Na disputa acirrada com ela estava a cantora americana Beyoncé, com o seu álbum “Lemonade”. Beyoncé, ao contrário de Adele, é áspera, crítica, plural e, sem a menor sombra de dúvidas, tem muito mais corrida e amadurecimento artístico.

A própria vencedora, ao receber seus prêmios, manifestou o amplo constrangimento que sentia, ou ao mesmo fingia muito bem que sentia: “Eu não posso aceitar este prêmio. (…) A artista da minha vida é Beyoncé, e o álbum ‘Lemonade’ é tão monumental (…) e tão bem pensado e tão bonito e tão revelador, que todos nós vimos um lado seu que nem sempre você nos deixa ver, e nós agradecemos por isto. E todos nós, artistas, amamos você. Você é a nossa luz!.”

O fato é que, racismos à parte ou não, das 59 edições do Grammy, apenas dez foram vencidas por artistas negros. Entre eles estão Stevie Wonder, Aretha Franklin, Michael Jackson e Herbie Hancok, este homenageando Joni Mitchell, canadense loira e branca feito cera. A expectativa é que esta seria a vez de Beyoncé, a mulher com mais indicações ao prêmio. Qual nada.

À parte isto, o que salvou a noite mesmo foi o prêmio póstumo ao cantor e compositor David Bowie, que levou na categoria de melhor performance de rock por “Blackstar”. Este foi o primeiro Grammy musical de Bowie, que já havia ganhado como melhor clipe. O álbum foi lançado dois dias antes de sua morte.

O clipe de “Black Star”, de David Bowie

Bowie levou também nas categorias de melhor pacote de gravação, prêmio compartilhado com o diretor artístico Jonathan Barnbrook, e melhor produção de álbum não clássico, junto com Tom Elmhirst, Kevin Killen, Tony Visconti e Joe Laporta, ambos pelo disco “Blackstar”.

No mais, a premiação destoou completamente das inúmeras manifestações anti-Trump que ocorreram durante a premiação e têm acontecido em praticamente todas as apresentações artísticas de vulto nos EUA. Talvez fosse tempo mesmo de se premiar uma grande artista negra com uma obra politizada e interessante. O mercado, no entanto, mais uma vez, venceu.


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