“Se o Diogo tivesse um sobrenome relevante seu caso já estaria próximo de ser solucionado”, critica defesa de Diogo da Paz

Advogado da família diz que demora das investigações pode fazer com que as imagens das câmeras da rua onde Diogo foi agredido, e que podem solucionar o caso, se percam; há suspeita de homofobia na agressão que levou o rapaz ao óbito

A família e a defesa de Diogo da Paz, rapaz negro e gay que foi encontrado desmaiado na rua e depois faleceu no hospital do Servidor Público (HSPM), reclamam que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e outros órgãos responsáveis estão demorando para investigar o caso.

À Revista Fórum, o advogado da família de Diogo da Paz, Musslim Ronaldo Vaz de Oliveira, disse que “está havendo uma demora para que o inquérito ande, isso se dá porque o delegado necessita do laudo IML, mas segundo os policiais que atendem no IML, o laudo só fica pronto após 60 dias”.

Para Oliveira, essa demora “possibilita o perecimento das provas, ou seja, as imagens das câmeras que existem na rua Pirapitingui (onde Diogo foi encontrado), pode ter um período de armazenamento de imagens inferior a tempo de início das investigações”.

O advogado também afirmou para a reportagem que “se o delegado deixar para oficiar as residências e imóveis apenas após 30 ou 60 dias, por certo não teremos mais as imagens. O caso do Diogo seria resolvido em 5 dias se as imagens tivessem sido pedidas de imediato pela polícia”.

Perguntamos para Oliveira se ele acredita na existência de uma homofobia e racismo por parte dos poderes públicos e ele nos disse que “se o Diogo tivesse um sobrenome relevante para a sociedade paulistana, se fosse um rapaz nascido na elite política ou empresarial, seu caso já estaria próximo de ser solucionado”.

“Mas, sendo gay, negro, do interior, as mazelas estruturais de nossa sociedade levam os procedimentos a deportar mais tempo que o razoável”, critica o advogado.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informou à reportagem da Revista Fórum que o caso de Diogo da Paz “é investigado pelo 5º Distrito Policial desde o registro da ocorrência”.


Neste momento “policiais da unidade estão agendando os depoimentos de testemunhas e analisam imagens apreendidas de um posto de combustível localizado próximo do endereço em que o rapaz foi socorrido. Os laudos, que estão em andamento, são peça do inquérito e serão analisados assim que forem disponibilizados à autoridade policial”, informou a Secretaria de Segurança Pública por meio de sua assessoria de imprensa.

Amigos de Diogo vão lançar manifesto para pressionar poder público

Jared Baungartner, o melhor amigo de Diogo, revelou à Revista Fórum que amigos e ativistas vão lançar um manifesto no dia 13 janeiro para pressionar o poder público.

“Estamos organizando um manifesto para o dia 13 de Janeiro, com artistas da mídia, referências de diversos movimentos PRETOS e LGBTQIA+, amigos e família. Essa data representará exatamente 30 dia de silêncio sobre a morte, negligência e violação do corpo do meu melhor amigo”, disse Baungartner à Fórum.

“O Estado vai saber o que está acontecendo com Diogo Paz apartir do dia 13 de Janeiro e se diante disso continuarem com máscaras nos olhos e silvertape na boca já temos recursos preparados em instâncias maiores. O Diogo não será um caso enterrado mais uma vez”, declarou.

Negro e gay, Diogo da Paz ia ser enterrado como indigente

Às 10h45 da manhã, do dia 13 de dezembro, foi dado entrada no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM) de Diogo da Paz, que havia sido socorrido pelo Corpo de Bombeiros depois de ser encontrado caído em uma rua do bairro Liberdade, centro de São Paulo.

Paz, antes de perder a consciência, conseguiu informar seu nome, endereço e os dados de sua mãe. O homem viria a falecer no mesmo dia em que deu entrada no hospital. Porém, algumas questões seguem sem explicações: se Diogo Paz conseguiu informar os seus dados ao hospital, por que ele quase foi enterrado como indigente?

A história só não teve um fim ainda mais trágico porque o amigo de Diogo Paz, o empresário Jared Baungartner, depois de quase uma semana a procura de Diogo, o encontrou no Instituto Médico Legal (IML).

A vereadora eleita Erika Hilton (PSOL) usou as redes sociais para comentar o caso e disse que vai exigir explicações da Secretaria de Segurança Pública sobre o caso.

Ao comentar sobre o caso nas redes, Hilton afirmou que “a nossa comunidade continua no alvo do ódio, na mira da violação dos Direitos Humanos. Eu fiquei sabendo do caso do menino gay que ficou desaparecido por 5 dias e que chegou com vida ao hospital e depois foi tratado como indigente. É um caso assustador de violação dos Direitos Humanos, nós vamos sim cobrar explicações e mandar ofícios ao secretário de Segurança Pública. É lamentável tudo isso que acontece com a nossa comunidade”, criticou a vereadora.

“Revoltante, lamentável, cruel, triste, mas sigamos, pois o nosso luto é verbo. Nós estamos em luta, essa história de genocídio, de violação dos nossos direitos não começa agora e nem vai terminar agora, é por isso que nós vamos nos manter de pé, sendo resistência, cobrando justiça, exigindo resposta e fazendo valer a nossa cidadania e a nossa humanidade”, disse Hilton.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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Renato Rovai
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