O que o brasileiro pensa?
17 de junho de 2020, 20h44

Secretária do Ministério da Saúde diz que Fiocruz tem ‘pênis’ na porta e imagens de Che Guevara e Lula

Reportagem da revista Piauí revela paranoia e planos de intervenção do governo Bolsonaro na Fundação Oswaldo Cruz, onde “tudo envolve LGBTI”

Foto: Reprodução

A cúpula do Ministério da Saúde do governo Jair Bolsonaro prepara novo ataque contra a ciência no país e planeja interferir na direção da Fundação Oswaldo Cruz, uma das principais instituições de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias para a saúde, e na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, que regula e autoriza as pesquisas científicas no Brasil.

É o que indica um áudio enviado pela secretária de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde, Mayra Pinheiro, a aliados no ministério, sobre as polêmicas envolvendo os dois órgãos, revelado por reportagem de Malu Gaspar, na revista Piauí.

O áudio começou a circular entre gestores do setor de saúde no início de maio e teria sido gravado em 2019.  A secretária é hoje uma das principais dirigentes do ministério e das mais alinhadas ao bolsonarismo. Na gravação, ela diz que a gestão da Fiocruz é pautada por questões relativas às minorias e que a fundação tem um “pênis” na porta de sua sede.

“Tudo deles envolve LGBTI. Eles têm um pênis na porta da Fiocruz, todos os tapetes das portas são a figura do Che Guevara, as salas são figurinhas do Lula Livre, Marielle vive”, disse Pinheiro.

Não há nenhuma figura de pênis na entrada da fundação, tampouco tapetes com a imagem de Che Guevara, nem envolvimento institucional com campanhas pela libertação de Lula ou com debates sobre a morte da vereadora carioca. Mas, para Pinheiro, é preciso intervir na instituição.

“Ano que vem a Fiocruz vai ter eleição, e o que a gente tem de começar a fazer é acabar com essa influência do Conselho Nacional da Saúde, que vaia o presidente, vaia deputado, vaia todo mundo que é contra as medidas de esquerda, e tirar da Fiocruz o poder de direcionar a Saúde no Brasil”, afirmou a secretária.

A direção da instituição, a cada quatro anos, é escolhida elege a partir de uma lista tríplice formada pelo voto direto dos funcionários e pesquisadores com mais de um ano de casa. O presidente da República, por tradição, nomeia o mais votado. A Fiocruz tem um orçamento de quase 4 bilhões de reais e duas fábricas, uma de vacinas e outra de remédios, além de dezesseis unidades de ensino e pesquisa espalhadas pelo Brasil. 

No áudio, a secretária se mostra indignada com o fato da instituição, apesar de ser ligada ao ministério, não seguir suas orientações. “É um órgão que tem um poder imenso porque durante anos eles controlaram, através do movimento sanitarista, que foi todo construído pela esquerda, e da reforma sanitária, controlaram a reforma do país. Eles dão as regras, eles mandam no Ministério da Saúde, e quem fizer oposição a eles, eles começam uma guerra de destruição de reputação.” 

Procurada pela revista, a assessoria da secretária no Ministério da Saúde não se pronunciou. A Fiocruz não quis comentar.

Ex-presidente do sindicato dos médicos do Ceará, Mayra Pinheiro ficou conhecida gravando vídeos criticando a saúde no estado e por atacar o programa Mais Médicos. Ela foi candidata a senadora pelo PSDB em 2018, mas ficou em quarto lugar. Com passagem pelo PSL, foi apoiada por Bolsonaro durante a campanha e hoje é filiada ao Partido Novo. Ela integra o movimento Renova BR.

Pinheiro tem ganhado protagonismo no ministério, chegando a conduzir a maior parte das coletivas e reuniões com outros órgãos, bem como a assumir o comando da política para a cloroquina no Brasil, mesmo não sendo assunto de sua secretaria.

Ela defende o uso do medicamento no tratamento de coronavírus, sempre desconsiderando a ausência de evidências científicas e recomendações internacionais, como quer Jair Bolsonaro.


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