Masculinidade frágil e LGBTfobia: seleção brasileira é a única que não tem o número 24

Por conta da pandemia, a Conmebol liberou até 28 jogadores por time na Copa América, porém, a seleção do Brasil pulou do 23 para o 25; CBF não explicou a razão

Que o mundo do futebol, mas também do esporte em geral, é repleto de LGBTfobia e machismo, não é novidade. Porém, um fato escancara o quanto o Brasil está atrasado em colocar em campo a discussão sobre a homossexualidade nos esportes e, principalmente, no universo futebolístico.

De acordo com reportagem do UOL, a seleção brasileira é a única da Copa América que não tem a camiseta com a numeração 24. Tradicionalmente, os times são compostos por 23 jogadores, mas, por conta da pandemia a Conmebol liberou até 28 jogadores, daí quando a numeração da seleção chega no 23, pula para o 25.

Como se sabe, no Brasil o número 24 é associado à homossexualidade masculina, isso porque no jogo do bixo o número em questão é representado pelo veado. Daí a velha piada homofóbica: “24, número de veado”.

A CBF não explicou o motivo pelo qual o número 24 foi excluído da seleção. Mas, nem precisa, a resposta está no ato e no silêncio da Confederação Brasileira de Futebol.

Todavia, o combate à homofobia tem ganhado cada vez mais espaço no futebol. Recentemente, o Sport Club Recife fez uma homenagem ao ex-BBB Gil do Vigor, que foi vítima de ataques homofóbicos de um conselheiro do clube. Os jogadores, antes de iniciar uma partida, entraram carregando uma faixa pedindo o fim da homofobia.

Além disso, nesta semana, o jogador Los Angeles Raiders, um dos times mais populares de futebol americano nos EUA, Carl Nassib saiu do armário e fez história ao se tornar o primeiro jogador da NFL, na ativa, a assumir a sua homossexualidade.

Em todo caso, se no âmbito da seleção brasileira a masculinidade dos jogadores é frágil ao ponto de se recusarem a vestir a camiseta 24, no universo das torcidas acompanhamos nos últimos anos o surgimento de torcidas LGBT em quase todos os clubes do futebol brasileiro.

Soma-se a esse fato da seleção, outro que também chamou atenção e repercutiu no mundo: a prefeitura de Munique (Alemanha) tinha organizado a iluminação do estádio que receberia o jogo entre Hungria e Alemanha com as cores da bandeira do arco-íris como forma de protestar contra a perseguição às LGBT promovida pelo governo de extrema direita húngaro. a UEFA vetou a ação e afirmou que não se pode politizar o futebol.

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Todo ato é político. A Uefa atendeu a um pedido do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que tem relação estreita com cartolas do futebol europeu, dessa maneira, a Uefa se tornou cúmplice da perseguição às LGBT da Hungria. A CBF, quando decide excluir o número 24 das camisetas da seleção, também se torna cúmplice com os crimes de LGBTfobia do Brasil, que tristemente lidera este ranking no mundo.

A Uefa e a CBF perderam a oportunidade de aproveitar que estamos mês de junho, quando é celebrado no mundo todo o Orgulho LGBT e emitir sinais em prol de um mundo esportivo mais diverso e receptivo às LGBT, mas, resolveram, cada um à sua maneira, ficar ao lado do obscurantismo hoje representado pela extrema direita que ocupa os governos da Hungria e do Brasil.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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