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09 de fevereiro de 2012, 10h10

Síria: guerra por procuração

O duplo veto russo e chinês contra a resolução sobre a Síria é um movimento coordenado para desafiar os planos dos EUA no Oriente Médio

O duplo veto russo e chinês contra a resolução sobre a Síria é um movimento coordenado para desafiar os planos dos EUA no Oriente Médio

Por M.K. Bhadrakumar (Publicado por Resistir)

Se fosse necessário fixar uma data que assinalasse o fim da “era pós-soviética” na política mundial, esse dia seria 4 de fevereiro de 2012. O duplo veto da Rússia e da China à resolução proposta pela Liga Árabe ao Conselho de Segurança da ONU é um evento histórico monumental.
Curiosamente, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, escolheu o próprio dia do veto para provocar a Rússia. Disse ele que a Otan terá os primeiros elementos do sistema de mísseis anti-balísticos (ABM) dos EUA implantados e em atividade na Europa na data da próxima reunião da Otan, em maio, em Chicago, sejam quais forem as objeções de Moscou.
O primeiro duplo veto de russos e chineses na questão síria, em reunião do Conselho de Segurança da ONU em outubro, foi movimento coordenado, com o objetivo de barrar uma resolução que poderia ser aproveitada pela Otan para montar uma operação militar na Síria. Mas o segundo duplo veto, em movimento para pressionar o presidente Bashar al-Assad da Síria a deixar o poder, tem significado muito mais amplo.
Guerras por procuração 
A situação na Síria evoluiu desde outubro e aparece afinal como disputa geopolítica pelo futuro do regime iraniano, pelo controle do petróleo do Oriente Médio e pela perpetuação da influência dominante do Ocidente naquela região. Rússia e China sentem que pode acontecer de serem despachadas para fora do Oriente Médio.
Com o duplo veto, a única opção deixada para os EUA e seus aliados na Síria é atropelar a lei internacional e a Carta da ONU e derrubar o governo sírio. Há também a opção da intervenção clandestina, mas é possibilidade remota. Segundo Philip Giraldi, ex-analista da CIA, em artigo publicado na última edição da revista The American Conservative:
Aviões da Otan sem identificação estão aterrissando nas bases militares turcas próximas de Iskenderum, na fronteira síria, trazendo armas recolhidas do arsenal de Muammar Kaddafi e voluntários do Conselho de Transição da Líbia, milícias treinadas, a fim de recrutar grupos locais para combater contra soldados regulares do governo sírio. Tais competências adquiriram no combate contra o exército de Kaddafi. Iskenderum também é base do Exército Síria Livre, braço armado do Conselho Nacional Sírio. Instrutores das forças especiais francesas e britânicas também estão em campo, auxiliando os rebeldes sírios; e a Agência Central de Inteligência (CIA) e agrupamentos de Operações Especiais dos EUA fornecem e operam equipamentos de comunicações a serviço dos grupos rebeldes – o que garante que as milícias possam concentrar-se nos combates contra o exército sírio. [1]
Giraldi acrescenta que os próprios analistas da CIA “duvidam de qualquer possibilidade de guerra”, porque sabem que os números de baixas entre os civis citados e repetidos em relatórios da ONU são obtidos de fontes rebeldes, sem qualquer confirmação. A CIA também se “recusou a confirmar notícias sobre deserção em massa de soldados sírios”. E, para a CIA, relatos de combates entre desertores e soldados leais “parecem não passar de boatos”, uma vez que, até agora, “só se confirmaram pouquíssimas deserções”.
Se Washington conhece a real situação em campo na Síria, Moscou e Pequim também a conhecem. Assim, está em curso uma “braço de ferro” na disputa pela Síria. Os EUA, os seus aliados e a Turquia podem optar por uma escalada nas operações clandestinas. Mas a Rússia tem meios para fazer com que o ‘custo’ militar da guerra clandestina aumente muito. O ministro das Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov disse, em Moscovo, no final de semana, que Moscovo “fará todo o possível para evitar uma agressão militar armada contra a Síria”, mas que nada poderá fazer “para impedir intervenção militar nos assuntos sírios, se a decisão de intervir for tomada por qualquer outro país”.
Por outro lado, o ocidente não aceita a Rússia como árbitro na Síria e tem-se dedicado a frustrar as repetidas tentativas russas de levar as facções da oposição e o governo sírio à mesa da negociação e do diálogo políticos. Moscou sente que a posição política do presidente Bashar Al-Assad está enfraquecendo; e o ocidente avalia que a posição russa se vai tornando cada dia menos sustentável.
Quanto à China, o ocidente decidiu ignorar o veto chinês. Obviamente, o ocidente tende a não dar importância às ambições do dragão no Oriente Médio; e concentra-se em resistir furiosamente aos avanços do urso – porque o urso, muito mais que o dragão, tem vastíssima experiência acumulada em longa história de participação nos negócios da região. Assim sendo, a barragem de propaganda ocidental já está apresentando a Rússia como obstáculo a quaisquer reformas ou mudanças democráticas no Oriente Médio. A embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, escolheu cuidadosamente as palavras, para dizer, em tom grandiloquente, que os EUA se sentiam “desgostosos” (“disgusted”) perante o veto russo.
A Rússia está decidida a não se deixar arrastar para guerras por procuração, que são sorvedouros de recursos insaciáveis. O Ocidente sente-se seguro, porque o emir do Qatar pôs sua fabulosa fortuna à disposição, para financiar as operações. A Rússia não poderá abandonar a Síria, seu aliado tradicional, exatamente quando esta está sob ataque, porque esse movimento comprometeria muito gravemente a imagem que a Rússia tenta construir e preservar no Oriente Médio, num momento crucial, logo nas primeiras escaramuças de uma nova disputa geoestratégica – que terá impactos globais de longo prazo. Por tudo isso, é prioridade absoluta nas estratégias ocidentais já há várias décadas, impedir que a Rússia – grande consumidora de energia – construa laços de solidariedade e amizade com as oligarquias do petróleo e gás do Golfo Persa.
Por via das dúvidas, Lavrov e o chefe da Inteligência Exterior da Rússia Mikhail Fradkov estão hoje em Damasco [2] . O ministro russo de Relações Exteriores disse no domingo que “a Rússia, depois de ouvir vários outros países, está decidida a buscar a imediata estabilização da situação na Síria, o que será alcançado mediante a rápida implantação das transformações democráticas há muito necessárias.”
Na declaração, Lavrov sugere que a Liga Árabe envie missão de observadores também à Síria, “dado que aquela comissão já se demonstrou eficaz para promover a desescalada da violência”. É evidente o senso de urgência. Mas não há dúvida de que o ocidente bloqueará os efeitos da missão de Lavrov.
O fato é que o ocidente não sabe como agir, porque o seu procurador oficial, Burhan Ghalioun, do chamado Conselho Nacional Sírio (exilado sírio que vive na França e dá aulas na Sorbonne) não desperta nenhum entusiasmo entre os sírios e nada garante que possa retornar ao país nos próximos tempos. E a guerra civil espalha-se pelo interior da Síria. Por tudo isso, a situação vai rapidamente ganhando contornos idênticos aos de outras guerras por procuração típicas da Guerra-Fria.
O pano de fundo também está carregado de paralelos muito perturbadores. Não só a Rússia, mas também a China, está sob a pressão dos EUA, desde o anúncio da “virada estratégica” dos EUA na direcção da Ásia.
‘Preocupações sino-russas’ 
Depois de os EUA inaugurarem uma base militar na Austrália, Washington trabalha hoje em contatos com Manilha para aumentar a presença militar dos EUA no Sudeste da Ásia. Manilha está disposta a receber navios e aviões de vigilância dos EUA para manobras militares conjuntas e pede o apoio dos EUA, duas décadas depois de soldados norte-americanos terem sido expulsos da base de Subic Bay, então a maior base dos EUA no Pacífico.
Na conferência anual de segurança em Munique, dias 4 e 5 de Fevereiro, Pequim não escondeu seu desagrado. O vice-ministro de Relações Exteriores Zhang Zhijun conclamou “países fora da Ásia” a desistir de qualquer tentativa de “deliberadamente expandir suas agendas militares e de segurança, criar novas tensões ou reforçar a presença militar ou alianças militares” na região, e a não procurarem “impor seus desejos à Ásia”. Disse ele: “A via asiática deve ser respeitada”. E repetiu o alerta contra “qualquer tentativa de subverter o direito internacional.” Zhang sublinhou que o crescimento da Ásia “indica um movimento na direcção de maior equilíbrio na estrutura internacional do poder.”
Significativamente, o jornal The Global Times, de Pequim, sugeriu há pouco que a beligerante projeção do poder militar dos EUA vai aos poucos deixando Pequim e Moscou sem alternativa, obrigando-as a reagir. Lê-se ali:
Até aqui, Moscou e Pequim têm-se mantido relativamente contidas, apesar de a Otan procurar expandir sua presença estratégica na Europa Oriental, e de os EUA reforçarem suas alianças militares na Ásia. Mas não poderão permanecer contidas para sempre. Tanto para Pequim como para Moscou, os laços com os EUA sempre foram complexos e tensos. As duas capitais não querem que se gerem suspeitas sobre o recente ‘aquecimento’ das relações entre elas. Mas nos dois países cresce o número de vozes que agora advogam uma aliança Moscou-Pequim. Ambas as capitais têm contra-medidas a implantar contra os EUA, e competências para conter aliados dos EUA. Se realmente decidirem darem-se as mãos, o equilíbrio do poder em muitas questões mundiais começará a ser deslocado. [3]
Do mesmo modo, deterioraram-se os laços entre Moscou e o ocidente. As conversações entre EUA e Rússia sobre os mísseis anti-balísticos estão paralisadas. Washington rejeita a exigência de Moscovo, para que se criem mecanismos que impeçam os EUA de usarem os sistemas de mísseis anti-balísticos a serem implantados na Europa como arma de contenção estratégica contra a Rússia
Dmitry Rogozin, vice-primeiro-ministro russo, disse recentemente em Moscou que os EUA e seus aliados da Otan têm atualmente 1.000 mísseis capazes de interceptar os mísseis balísticos intercontinentais russos, cobrindo toda a Rússia europeia até os Urais. Disse ele:
Não há quaisquer garantias de que depois de a primeira, segunda e terceira fase [do projeto de mísseis anti-balísticos dos EUA] estarem completadas, não virão fases quarta, quinta e sexta. Alguém supõe que os EUA paralisarão todas as suas tecnologias depois de 2020? Não faz sentido! É claro que prosseguirão e desenvolverão parâmetros técnicos sempre superiores para seus mísseis de interceptação e para as capacidades e desempenho de seus sistemas de interceptação [os mísseis de defesa] (…).
O fato de o sistema de mísseis de defesa ter capacidade para destruir mísseis estratégicos e o fato de essas bases e frotas estarem estacionadas em mares do Norte evidenciam o claro caráter anti-russo que se constata em todo o programa de mísseis de defesa dos EUA. [4]
Muito claramente, o duplo veto russo e chinês contra a resolução sobre a Síria é um movimento coordenado para desafiar os planos de marcha triunfalista dos EUA, da Líbia à Síria e dali ao Irã. Lavrov reuniu-se com o embaixador chinês no Conselho de Segurança, Yang Jiechen, pouco antes da votação no Conselho de Segurança. Ao apresentar seu voto, o embaixador chinês, Li Baodong, afirmou: “A China apoia a proposta de resolução revista e emendada pela Rússia.”
A Agência Xinhua comentou que o duplo veto “visa a estimular a busca de solução pacífica” na Síria e “a evitar possíveis soluções drásticas e arriscadas.” Explicou detalhadamente “as preocupações sino-russas” sobre a Síria. Os comentaristas chineses destacaram que “a globalização impôs uma nova lógica nas relações internacionais” e a Síria é teatro chave na agenda ocidental, para fazer do Oriente Médio esfera de influência do ocidente.
[2] Acerca da visita de Lavrov a Damasco, em 7/2/2012, ver http://rt.com/news/syria-lavrov-talks-damascus-657/ 
[3] 20/1/2012, em www.globaltimes.cn/
[4] 20/1/2012, em www.nation.com.pk/
[*] Antigo embaixador da Índia em Moscovo.

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