Sustentabilidade: fator norteador no pós-pandemia

" A agricultura sustentável na pandemia se mostrou forte. O encurtamento das cadeias de produção, provocadas pelo momento, conseguiu registrar muitos benefícios, apresentado suas expressões locais para muitas comunidades"

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A pandemia trouxe a necessidade do fomento de negócios em duas frentes: a tecnologia de comunicação e informação e a sustentabilidade.  A tecnologia tornou-se essencial para resolver questões tanto no segmento de saúde, como o caso do combate ao vírus, como para aquelas relacionadas às novas dinâmicas de trabalho. Máquinas e seres humanos interagindo em tempo real, tecnologia aliada à Inteligência Artificial, com sistemas inteligentes e integrados. Tecnologias avançadas como geolocalização, interfaces homem-máquina; tecnologias 3D na confecção de máscaras para a área de saúde; criação e capitação de dados e muito mais. Tudo isso vem impactando nosso dia a dia durante a pandemia de forma mais acelerada do que antes. Ou seja, hoje, nesse momento de crise, a tecnologia vem se desenvolvendo para favorecer o bem-estar do ser humano. No caso do mercado de trabalho, também houve um salto tecnológico para lidar com os desafios que surgiram durante a pandemia: um estudo da consultoria International Data Corporation (IDC) revelou que 62,8% das organizações brasileiras empregaram um modelo de trabalho dinâmico e o reconfiguraram; 52,4% conectaram organizações e indivíduos, independentemente de sua localização; entre outros.

Já no caso da sustentabilidade, o avanço de soluções no campo e o olhar para a valorização do meio ambiente e da proximidade são tendências que vieram para ficar. Por quê a sustentabilidade é tão importante nesse momento?  O mundo todo vem tentando avançar com práticas mais sustentáveis e garantir que os produtos colocados no mercado não estejam associados às atividades ilegais, às práticas de desmatamento ou à promoção de desigualdade.  No setor do agronegócio, por exemplo, muitos grupos estão desenvolvendo soluções nesse sentido, fazendo com que atividades tradicionais convivam com o meio ambiente, com a integração entre produção sustentável e potenciais de conversação. A partir da pandemia, estamos vendo, ainda mais, a necessidade de fomentar novos negócios baseados em sustentabilidade, há um potencial grande para se criar novas ideias relacionadas à conversação ambiental e produção local, com novas abordagens, que respeitem os recursos naturais. Nesse contexto, a tecnologia também se faz importante. As práticas sustentáveis permitem compreender que a nossa economia pode ter um ritmo diferente para respeitar o meio ambiente e que essas crises sanitárias se proliferam muito em locais de baixa diversidade ambiental (por isso, o olhar para o meio ambiente é tão essencial).

Quando olhamos para o agronegócio, essas questões são especialmente visíveis agora. Há uma necessidade, cada vez maior, em humanizar a agricultura, dar destaque para os produtores locais, para as comunidades agrícolas e para as cooperativas. A pandemia fez subir à ribalta a importância dos visionários de nossa agricultura que têm criado soluções para nosso desenvolvimento. Empreendedores pequenos, médios e grandes já observam a importância da união desse setor, assim como, a essencial interligação entre a agricultura e a indústria de alimentos. Especialistas da área são categóricos em afirmar que a agricultura brasileira produz uma riqueza imensa e pode estabelecer práticas sociais e sustentáveis capazes de tirar muitas famílias da pobreza. Há ainda um consenso em apontar a questão humana e ambiental como princípios que constroem a reputação de uma agroempresa, seja de pequeno, médio ou grande porte, não só pelo olhar do consumidor, mas também, e especialmente, pelo olhar dos investidores. E isso é um caminho sem volta.

A agricultura sustentável na pandemia se mostrou forte. O encurtamento das cadeias de produção, provocadas pelo momento, conseguiu registrar muitos benefícios, apresentado suas expressões locais para muitas comunidades. Observamos que, durante a pandemia, comprar produtos oriundos da terra, de produtores locais, não só encurta o caminho do produto até a mesa do consumidor –  diminuindo os custos de logística -, como valoriza o produtor local e colabora com a saúde financeira da comunidade. No que diz respeito à agricultura de grande porte, nossos grãos, por exemplo, sustentam atividades na Ásia, Europa e Oriente Médio e nossos produtos abastecem também produtores da Europa e China. Bons ventos vêm soprando no campo: o país conta atualmente com uma das maiores safras de todos os tempos, com quase 254 milhões de toneladas de grãos, uma alta de 70% sobre a produção registrada no ano de 2010. Ou seja, são 100 milhões de toneladas a mais do que 2010 (dados do jornal Folha de S. Paulo). Já a agropecuária é único setor da atividade econômica a crescer no período da pandemia, com a previsão de avanço de 2,5% no PIB para 2020 e com receita recorde de R$ 730 bilhões, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV).  Como reverter toda essa riqueza gerada pela agricultura de grande porte para a questão social? Quais os caminhos para se obter um retorno positivo dessa produtividade? Seja na agricultura feita pelo pequeno produtor local, seja na agricultura de grande porte, as sustentabilidades social e ambiental devem ser norteadoras.

O agronegócio destacou-se nessa crise pela capacidade de atuar com segurança alimentar, expandindo mercados e apostando em cooperativas. Levantamento recente da Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura (SCRI/Mapa) mostra que o agronegócio foi responsável pela metade das exportações brasileiras em julho (51,2%), somando US$ 10 bilhões no mês de julho de 2020.Segundo o mesmo levantamento, o potencial de investimentos para agricultura sustentável no Brasil até 2030 é de US$ 692 bilhões. O que esses números positivos apontam é que pelo pensamento novo, o olhar para o futuro, para as preocupações sociais e ambientais, podemos crescer e gerar riqueza local e global. O reforço da participação do Brasil na pauta da sustentabilidade e da humanização da produção é essencial para avançarmos ainda mais.

No mundo pós pandemia, o impacto da sustentabilidade dentro dos negócios empresarias crescerão ainda mais, visto que investidores internacionais têm olhado cada vez mais para as companhias que se alinham com esse propósito.  Segundo uma pesquisa da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) com a Pipe Social, no Brasil 50% das empresas entre startups e companhias já atuantes receberam investimentos, em 2018, por serem responsáveis ambientalmente ou se desenvolverem nesse segmento. O mesmo levantamento mostra que as empresas de impacto, como são chamadas, são os principais setores investidos no Brasil.  Há no mundo 3000 investidores focados nessa temática e aqui no país ainda temos uma estrada grande para avançar, visto que 70% dessas empresas nacionais de impacto estão ainda se autofinanciando. Ao redor do globo, EUA e Canadá são os países que se destacam em iniciativas ambientais e sociais, mas os países asiáticos vêm se desenvolvendo nesse aspecto. Porém quando falamos de América Latina e Caribe, ambos já aparecem em segundo lugar na busca pelo fomento de empresas de impacto e captação de investimento para a área de sustentabilidade.

Assim, o debate sobre impacto se torna ainda mais necessário hoje. Os investidores institucionais, certamente, passarão a enxergar a sustentabilidade não só como negócio, mas também como impacto positivo na sociedade, tendo um papel protagonista no acesso ao capital, bens e produtos do segmento. Tanto os bancos de investimentos como as empresas têm funções importantes nesse campo. A sustentabilidade, portanto, será considerada o novo pilar de rentabilidade para a indústria ainda no século XXI.

Cooperativismo: um futuro possível

Entre as transformações pelas quais a pandemia nos fez passar está o olhar, cada vez mais, voltado para as questões humanas e a tendência é a de que nos organizemos em comunidades baseadas na confiança das pessoas. É o caso das cooperativas, uma forma de organizar pessoas para a produção de um bem comum, que se pauta na união de pessoas, na vontade de mudança para produção de riqueza social e que, além disso, precisa aprender a lidar e a desenvolver pessoas. Por isso, hoje as cooperativas estão em ebulição e são uma forte possibilidade para diversos setores.  Esse processo já vinha ocorrendo, porém, a crise epidêmica mundial jogou luz nesse palco, fez com que a união em comunidades acontecesse com maior velocidade.  A cooperativa destaca a importância da mudança de comportamento, destaca o comprometimento do produtor e tem papel fundamental na geração de confiança e de processos de trabalho mais humanizados e sustentáveis.

Embora o mercado brasileiro ainda não esteja no mesmo patamar que outros mercados internacionais, o país tem encontrado bons caminhos para o desenvolvimento humano sustentável. Precisamos trazer esses temas aos debates, fazendo com que eles também façam parte da educação de jovens estudantes e profissionais. É importante ainda reiterar que a crise atual nos fez encarar o óbvio: ninguém sai de uma crise sozinho.

Este post foi modificado pela última vez em 13 set 2020 - 13:51 13:51

Ana Beatriz Prudente: Gestora de Economia Criativa, educadora de mulheres empreendedoras, membro da Comissão Permanente de Combate à Covid-19 da Faculdade de Educação da USP, membro da Comissão de Cooperação Internacional da FEUSP e multiplicadora de Sustentabilidade Ambiental.