Symmy Larrat: travesti e pré-candidata à Câmara pelo PT, ela quer TRANSformar o Brasil

Oriunda dos movimentos sociais e ex-coordenadora nacional de políticas LGBT do governo Dilma Rousseff, a militante afirma que a sua candidatura é coletiva e pertencente aos movimentos sociais

Geralmente o Partido dos Trabalhadores (PT) é lembrado por ser o maior da esquerda latino-americana. Isso é bom, e isso é ruim, pois, uma legenda com o tamanho do PT sempre enfrenta dificuldades locais e nacionais para agregar novas lideranças e assimilar novas pautas.

Todavia, desde a virada do século que o PT entendeu que era preciso se renovar para continuar a ser a partido referência da juventude, dos movimentos sociais e, especificamente, do movimento LGBT, que orbita em torno da legenda desde a sua fundação, em 1980.

Quando governo federal, as gestões de Lula (2002-10) e Dilma Rousseff (2010-16) foram um marco histórico no que diz respeito à execução de políticas públicas LGBT, destaque para o programa Brasil Sem Homofobia, as Conferências Nacionais LGBT – a I contou com o presidente Lula em sua abertura -, e a Coordenação Nacional de Políticas LGBT e é aqui entra a nossa entrevistada: Symmy Larrat.

Não que a vida política de Symmy Larrat tenha começado durante a sua recente passagem pelo governo da então presidenta Dilma Rousseff, pelo contrário, o ativismo de Larrat tem início na década de 1990 com o movimento das bases eclesiais da Igreja Católica e com o estudantil.

É na virada do século que Symmy Larrat toma contato com o movimento LGBT e, no seu estado natal, o Pará, faz parte da organização do movimento LGBT e também da Parada de Belém. O Acúmulo político dessas experiências fará com que Symmy caminhe pelo Brasil e passe por experiências políticas – em governos e movimentos sociais -, até chegar aonde estamos hoje: pré-candidata à deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores de São Paulo às eleições do ano que vem.

Em entrevista exclusiva à Fórum, Symmy LArrat, atualmente presidenta da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), afirma que a pauta LGBT é central, mas que ela tem de acontecer em diálogo com outras questões.

“A pauta LGBT é central porque eu não tenho como, com o meu corpo, com a minha atuação me desligar disso, mas nós não somos só nome social, casamento e criminalização, nós somos muita coisa! Nós somos saúde, somos educação, então a gente tem que disputar uma sociedade para todas as pessoas”, diz Symmy Larrat.

Para Symmy Larrat, as pautas LGBT são transversais/Foto: arquivo pessoal

Fórum – Gostaria que você falasse um pouco sobre a sua trajetória política.

Symmy Larrat – Eu vim do Norte, eu começo em Belém uma militância antes mesmo desse boom das organizações LGBTQIA+. Eu começo a me organizar no movimento de igreja, no movimento estudantil e aí que eu construo um entendimento sobre aquela angústia, sobre aquela inconformidade com o que se apresentava na sociedade.
Aquele incômodo, aquele sentimento de justiça, aquela vontade de mudar as coisas se aprimora na atuação desses movimentos.

Aí eu começo a me organizar no movimento estudantil e nos movimentos de bairro da igreja. Eu fiz comunicação (UFPB), então atuei no movimento da democratização das comunicações… e tem um lance, o ano em que eu entrei na universidade, foi ano em que teve o massacre dos Sem Terra no Pará (Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 militantes do MST foram assassinados, em 1996). Então, quando eu entro na universidade, os movimentos sociais estão em pleno enfrentamento como governo (FHC-1994-02), era muitas marchas, muitas ocupações. A gente chegou a ir em Eldorado com o pessoal da universidade, a estudantada para fazer várias atividades.

Então, alio eu começo a me relacionar com o movimento estudantil, mas também com outros movimentos sociais e vou entendendo qual é a importância do movimento social.

Anos depois a gente começa a organizar a Parada LGBT de Belém, começa a surgir os movimentos como a gente conhece hoje: as associações, as ONGs, fruto muito de um estímulo que era que o Projeto Somos, que foi dando capilaridade às organizações LGBTQIA+ no país.

EU fui para o interior pra trabalhar, depois volto pra Belém e aí eu ingresso no movimento LGBT. Aí, nos do estado do Pará começamos a produzir muito: o I Primero Plano de Segurança Pública e Combate à Homofobia, o primeiro decreto de nome social. A partir daí a gente criou um movimento estadual, do qual eu fui coordenadora e fui secretária do Conselho Estadual LGBT que, na época, em 2012, só tinha cinco conselhos no país e aí um jornal de grande circulação fez uma matéria afirmando que o Conselho do estado do Pará era o mais atuante, que tinha produzido mais conquistas nesse período.

E aí eu fui pra Brasília a convite da Maria do Rosário (deputada federal PT-RS/ à época ministra dos Direitos Humanos) para trabalhar como assistente, e depois fui convidada para o Transcidadania (programa de educação, trabalho e Renda para travestis e transexuais criado na gestão de Fernando Haddad/PT/2012/16). Então, vim para São Paulo para ajudar a implementar o Transcidadania e depois voltei para Brasília pra se Coordenadora Nacional de Políticas LGBT.

Já era golpe, a gente tentou nadar contra a maré, teve o golpe e eu pedi pra voltar, fiquei até o fim do Transcidadania, fiz a transição, fui trabalhar numa ONG que trabalha com projeto de crianças e adolescentes e aí fui pra Bahia para a implantação do Casarão da Diversidade e voltei pra cá (SP) pra casa Neon, que é uma casa de acolhimento.

Symmy Larrat, pré-candidata do PT à Câmara/ Foto: arquivo pessoal

Fórum – Você é uma personagem política dos últimos 20 anos e desde a virada do século que temos candidaturas LGBT e nas últimas eleições houve a eleição de candidaturas LGBT ao redor do Brasil, mas principalmente de candidaturas travestis. Como você vê essa movimentação?

Symmy Larrat – O foco que foi colocado nesse debate com essa pseudo “ideologia de gênero” alimenta a necessidade de algo que a gente dizia há muitos anos: que a pauta gênero é estruturante e é central nesse debate.

E eu vejo isso (a eleição de candidaturas LGBT) como entendimento do movimento de que a gente precisa, para enfrentar o binarismo de gênero, para enfrentar essa narrativa que quer nos exterminar, a gente precisa se reconhecer e se entender nesses lugares de corpas e resistêncais que questionem
Quando parte do movimento entende isso, começa, inclusive, um movimento de reparação com as companheiras travestis que sempre estiveram desde o começo da história, mas nunca estiveram esse agrupamento para ser a grande liderança desse processo.

Também vejo como um fruto do próprio movimento que amadurece, que entende, que ressignifica a sua ótica e a sua estratégia.

A segunda coisa: eu vejo como um grande desabafo contra a opressão moralizadora e conservadora desse país. Essa gente vem com tudo, acaba com todos os direitos… é uma reação conjunta entendendo que quem tem a imagem, o imagético que pode enfrentar esses conservadores está nas corpas travestis ou nas corpas que estão distantes do binarismo de gênero que o patriarcado coloca pra gente.

Fórum – Você é presidenta da ABGLT, você foi a primeira travesti a ocupar um cargo em Brasília (Coordenação de Políticas LGBT)… como foi essa experiência, pois, às pessoas LGBT, mais do que o cargo ou a competência, o corpo é sempre uma questão. Como foi essa sua experiência no governo Dilma?

Symmy Larrat – Tem duas coisas aí: a primeira era o meu receio de ir para o governo e: “eu vejo tanta chegar nesses lugares e mudar”. E eu pensava: “eu não sei fazer outra coisa na vida a não ser movimento social”. Mesmo na prostituição eu fazia movimento o tempo inteiro, eu tava fazendo luta o tempo inteiro. Esse era o meu primeiro medo: será que eu vou me perder no meio caminho? Será que em algum momento eu vou me esquecer que eu estou indo para fazer uma disputa do Estado e não para me tornar governo? Porque isso é um diferencial, muita gente se perde nesse caminho aí.Hoje, ter participado do governo e estar de volta presidindo uma rede que é uma das maiores desse país, senão a maior, isso prova que eu soube conduzir esse processo, sempre em escuta com os movimentos sociais.

O outro ponto é: eu não tinha outras referências quando cheguei. Se eu te disser que eu não senti os impactos, mas eu senti os impactos do machismo. Tinham lugares que as pessoas me mandavam esperar até que alguém dissesse que eu estava ali representando o governo ou que eu representava um ministério. Eu passei isso algumas vezes.
E isso não faz parte apenas de entes do governo, mas inclusive de companheiros de movimentos.
Quando a gente chega nesses lugares a gente tem que fazer diferente do que a cisgeneridade normativa faz. A gente tem que mostrar que o caminho é outro.

Outra coisa é que o Estado não nos cabe, ele feito de uma lógica binária e cisgênera. Não basta a gente ter um documento, e às vezes a gente acha que papel é tudo. “Ah, tem a lei, pronto”, “ah tem a política”… tem mais um monte de estrutura que não vai mudar. Por outro lado, é encantador quando uma coisa aparentemente boba que você fez no processo ou pequena, porque você na sua ansiedade de movimento social você acha que é pouco e quer mais, mas você faz e vê que ajuda pessoas. Eu senti isso no Transcidadania, eu senti isso no governo no decreto do nome social, por exemplo. Eu ouvia relatos de pessoas que o nome social proporcionou que elas fossem até o final de determinados processos, e essas pessoas nem sabiam que eu estava no local (Coordenação de Políticas LGBT). Eu vivi isso algumas vezes. Isso é engrandecedor.

Symmy Larrat afirma que a pauta LGBT é central para transformar a sociedade/Foto: 32xSP

Fórum – Neste momento você está organizando a sua pré-candidatura à Câmara dos Deputados pelo PT. Gostaria que você falasse sobre o seu objetivo com esse projeto.


Symmy Larrat – Nós estamos conversando muito, porque é assim: eu nunca pensei que fosse estar no governo federal e nem em qualquer governo. A minha primeira experiência foi no governo federal (Dilma Rousseff-2010-16).

Eu nunca me imaginei nesse lugar. Eu não planejei estar nesse lugar. Então, quando algumas pessoas do PT me convidaram por avaliar que o cenário nacional precisa dessa ocupação e que a minha experiência nacional e o meu entendimento colaboram com esse processo, me fez pensar que sim, é uma tarefa… então eu encaro como uma tarefa.
Não é uma decisão pessoal “a Symmy quer ser deputada”… na minha trajetória não estava ser deputada. Isso é consequência de uma necessidade que este movimento, dos meus companheiros de luta e do partido colocaram, isso é importante para sabermos onde queremos chegar.

Segundo: a gente precisa debater no campo da esquerda, no campo das resistências, no campo progressista e popular, e no legislativo de que essa é uma pauta (LGBT) central para mudar essa sociedade. Precisamos colocar isso no jogo, não só no que concerne às nossas especificidades, mas no que concerne ao todo.

A pauta LGBT é central porque eu não tenho como, com o meu corpo, com a minha atuação me desligar disso, mas nós não somos só nome social, casamento e criminalização, nós somos muita coisa! Nós somos saúde, somos educação, então a gente tem que disputar uma sociedade para todas as pessoas.

Se eu não tenho educação pública de qualidade, eu não tenho por que ter nome social nas escolas… é dentro dessa lógica que a gente tem que pensar o todo.

Tem alguns temas, como o da educação, que são muito importantes para gente mudar uma sociedade: educação, saúde, segurança pública, são temas que transversalizam com maior potência em nossas ocupações.

Publicidade
Avatar de Marcelo Hailer

Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

Você pode estar junto nesta luta

Fórum é um dos meios de comunicação mais importantes da história da mídia alternativa brasileira e latino-americana. Fazemos jornalismo há 20 anos com compromisso social. Nascemos no Fórum Social Mundial de 2001. Somos parte da resistência contra o neoliberalismo. Você pode fazer parte desta história apoiando nosso jornalismo.

APOIAR