terça-feira, 27 out 2020
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‘Timing’: Zanin diz que operação da Lava Jato acontece um dia após fim do prazo para explicar cooperação com EUA

Advogado de Lula lembra que, após 3 anos de batalha judicial, finalmente teve acesso à 'delação' da Odebrecht, que estava guardado em seu escritório que foi invadido pela PF

Em seu Twitter, o advogado Cristiano Martins Zanin, defensor do ex-presidente Lula, elucida o “timing” da operação realizada nesta quarta-feira (9) que o coloca na mira da Polícia Federal. Ele ressalta que ela acontece após vencer o prazo para que a Lava Jato explicasse sua cooperação com os EUA, sem que o tivesse feito.

“Sobre ‘timing’: 1) No último dia 31/8 o STJ mandou o ministro da Justiça falar em 5 dias sobre as cooperações internacionais da Lava Jato com os EUA – onde alguns juízes e promotores brasileiros fizeram ‘cursos’. O prazo venceu ONTEM e a decisão NÃO FOI CUMPRIDA”, escreveu Zanin.

O advogado do ex-presidente Lula vê ainda outra motivação para a deflagração da operação nesta quarta-feira, que relata em sua rede social. “Nesta semana, após quase 3 anos de batalha judicial, deveríamos começar a fazer o exame do material proveniente do acordo de leniência da Odebrecht, que foi guardado até agora com muito sigilo pela Lava Jato”, contou. “Dá para imaginar por que a Lava Jato invadiu nosso escritório e pegou nosso material?”, questiona.

A operação realizada nesta quarta-feira fez busca e apreensão em endereços ligados a Zanin, entre outros advogados (leia mais abaixo). Ela foi autorizada pelo juiz federal Marcelo Bretas, responsável pela Lava Jato no Rio de Janeiro.

Em nota, o advogado já havia acusado Bretas de agir a mando de Jair Bolsonaro. “Em clara tentativa de intimidação do Estado brasileiro pelo meu trabalho”, escreveu.

“O juiz Marcelo Bretas é notoriamente vinculado ao presidente Jair Bolsonaro e sua decisão no caso concreto está vinculada ao trabalho desenvolvido em favor de um delator assistido por advogados ligados ao Senador Flavio Bolsonaro. A situação fala por si só”, diz o jurista.

No Twitter, Zanin escreve ainda que parecia óbvio que a Lava Jato iria promover alguma retaliação contra ele.  “Nos últimos anos atuei incessantemente para desmascarar seus abusos”, afirma. O advogado diz ainda vai denunciar a invasão de sua casa e de seu escritório “em todos os foros para que os responsáveis sejam punidos”.

A operação

A operação realizada nesta quarta-feira mira supostos desvios de pelo menos R$ 150 milhões do Sistema S por escritórios de advocacia no Rio e em São Paulo. Entre eles, o de Zanin, o de Frederick Wassef, que representou a família do presidente Jair Bolsonaro, e o de Ana Tereza Basílio, advogada do governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel.

Ela é baseada em uma delação premiada do ex-presidente da seção fluminense do Sistema S, de Orlando Diniz. O Sistema S engloba a Fecomércio, Sesc e Senac. Em 2018, Diniz foi preso em um dos desdobramentos da Operação Lava Jato no Rio – no mesmo ano, porém, ele foi solto por determinação do STF.

De acordo com os investigadores, as entidades teriam destinado pelo menos metade do seu orçamento anual a contratos com escritórios de advocacia. A força-tarefa aponta que a Fecomércio-RJ, por exemplo, gastou R$ 355 milhões em advocacia, dos quais “ao menos R$ 151 milhões foram desviados”.

Em seu Twitter, Zanin também escreveu sobre o contrato em si. “Na guerra jurídica travada entre duas entidades privadas, a Fecomercio/RJ e a CNC, temos 12.474 horas de atuação, cerca de 1.400 petições e 77 profissionais envolvidos apenas no nosso escritório, tudo lançado em sistema auditado”, afirmou.

Fabíola Salani
Fabíola Salani
Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.