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05 de setembro de 2019, 19h19

Torturas em supermercados Ricoy acontecem há mais de 8 anos, diz ex-funcionária

Em um dos casos, um adolescente foi jogado da janela por seguranças. Em diversos outros, as agressões eram feitas com garrafas pet cheias de água, para não fazer barulho e não deixar hematomas

Foto: Reprodução

Uma ex-funcionária terceirizada da rede de supermercados Ricoy, localizada em São Paulo (SP), contou à Fórum que presenciou pelo menos dois casos de torturas em lojas diferentes da rede em 2011, época em que começou a trabalhar para a empresa. Foram inúmeras as vezes, no entanto, que ela alegou ter ouvido de outros funcionários histórias similares das mesmas sessões de tortura. A prática era frequente e conhecida, mas muito encoberta.

Segundo o relato da fonte ouvida pela reportagem, era fim de tarde de um feriado prolongado nos últimos meses de 2011. O pequeno supermercado Ricoy do Capão Redondo, bairro da extrema Zona Sul de São Paulo, estava lotado. Funcionários monitoravam o movimento da loja por câmeras de segurança, instruídos a sempre contatarem os seguranças caso presenciassem algum movimento estranho, ou se alguma pessoa “mal vestida” e com aparência suspeita adentrasse no estabelecimento. Em determinado momento, um rapaz negro, adolescente, é avistado nas câmeras tentando furtar produtos da prateleira.

Imediatamente, os seguranças foram contatados via rádio. Discretamente e para que nenhum cliente percebesse, aproximaram-se do menino e o obrigam a acompanhá-los até um espaço vazio e silencioso, dentro da loja. Então, começaram as sessões de tortura. Em determinado momento, depois das agressões, o garoto é arremessado pela janela do primeiro andar, caindo no barranco que ficava aos fundos da propriedade. A ex-funcionária conta que o jovem se machucou muito e que o caso ficou falado no bairro, mas a própria direção da rede preferiu apenas “abafar” o caso, remanejando os seguranças responsáveis para outras lojas.

“Os bandidos da região ameaçaram botar fogo no mercado e os seguranças que trabalhavam lá foram remanejados. A polícia ia pra lá direto… Eu só lembro de pensar: Não vou para aquela loja, não vou arriscar minha vida”, disse.

A ex-funcionária também conta que diversas vezes ouviu de outras pessoas da equipe para não passar perto das salas do fundo das lojas, para não ir ao estoque ou à sala de material de limpeza. Todas esses conselhos seriam para evitar que ela presenciasse os gritos e pedidos de ajuda que escapavam por conta das agressões. “Teve uma hora que eu precisei pegar a etiqueta de preço de um produto e ninguém deixava passar perto, me falavam que tinham pegado um rapaz e que ‘estavam esculachando’”.

“Os seguranças faziam chacotas, espancavam e ainda ameaçavam. Eu ficava horrorizada, só queria sair daquele lugar. Esses fiscais de loja, na sua grande maioria, eram muito violentos”, completou.

Em outro caso de tortura que lembra ter presenciado, a ex-funcionária contou que começou a ouvir tapas, socos e barulhos estranhos vindos do estoque de uma das lojas Ricoy. Ao questionar outros colegas sobre os barulhos, contaram que os seguranças estavam batendo com garrafa d’água para que ninguém conseguisse ouvir e para que não formassem hematomas nas vítimas. A ex-funcionária descobriu, mais tarde, que as garrafas já ficavam estrategicamente nas salas dos fundos, esperando a próxima pessoa a sofrer as agressões. Nesse caso em específico se tratava de outro jovem negro, de cerca de 20 anos, que havia furtado leite em pó e fralda.

“Dificilmente chamavam a polícia. Era sempre os próprios funcionários e fiscais que precisavam resolver. Costumavam a falar para os adolescentes que se voltassem à loja ou se mandassem alguém aprontar algo, que iam chamar a polícia e que a casa ia cair”, disse.

De acordo com ela, todos os funcionários das lojas sabiam da prática, inclusive os gerentes. “Tudo era passado via rádio para os gerentes e subgerentes. Quando tinha correria na loja, a gente sabia que tinham pegado alguém”, contou. Questionada se ela lembra de ter visto alguém se posicionar contra as torturas, a ex-funcionária se lembra que um dos funcionários não ficou nem três meses no emprego novo. Pediu demissão assim que ficou sabendo da política da loja.

Chicotes

Dois casos de tortura protagonizados por seguranças do supermercado vieram à tona nos últimos dias. Em uma delas, um jovem negro, de 17 anos, foi chicoteado com fios elétricos por tentar furtar chocolates. No segundo caso, outro homem também sofreu as mesmas agressões, no tronco e no rosto, por tentar levar frango e linguiça congelados, chicletes, desodorantes e um shampoo.

Em outro caso, também divulgado nesta semana, um funcionário do supermercado tortura psicologicamente uma criança. “Você vai ficar em uma cela cheio de moleques da sua idade, ou mais velho, tem uns lá que gostam de abusar de outro moleque. Olha que legal. Tem uns que vão te dar uma surra bem dada. Olha que legal”, diz ao garoto que supostamente havia tentado praticar furto.

Outro lado 

Diante da repercussão dos primeiros casos de tortura que vieram à tona, a rede Ricoy se manifestou através de nota oficial [confira abaixo]. O espaço segue aberto para eventual manifestação da empresa sobre os novos casos trazidos pela reportagem.

Diante dos graves fatos apresentados nos últimos dias, o Ricoy Supermercados enfatiza:

1- Repudia todos os casos de violência que ocorreram dentro e nos arredores de suas lojas por funcionários ou terceirizados.
2 – Todos os casos de agressão, discriminação ou violação dos direitos humanos devem ser punidos com o maior rigor da lei. Por isso o Ricoy está coloborando com as investigações de forma irrestrita e proativa. Alias, os seguranças, que não trabalham mais em nossos supermercados, já tiveram a prisão decretada pela Justiça.
3 – Se ficar comprovado que qualquer funcionário participou de atos de violência de qualquer natureza, será afastado e demitido sumariamente
4 – A acusação de que adota como prática a utilização de métodos obscuros diante de casos de furto dentro de suas lojas é totalmente falsa e descabida.
5 – A orientação sempre foi encaminhar para a autoridade policial quem for flagrado furtando objetos ou produtos dentro das lojas.
6 – Jamais orientou-se qualquer conduta que estimule a violência, a discriminação, a coação, o constrangimento ou a força desmedida e desnecessária. Qualquer um desses métodos são inaceitáveis nesta ou em qualquer época.
7 – A assistente social está empenhada em promover o acolhimento dos envolvidos no caso em todas as necessidades que forem identificadas.”

 


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