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26 de outubro de 2019, 16h40

Tragédia do óleo no Nordeste: É grave, sim, dona Josefa…

No quarto dia da jornada da Fórum entre as praias poluídas com petróleo, Wilfred Gadêlha esteve na Praia do Forte, onde, além da queda no fluxo de turistas, até mesmo os moradores estão passando mal ao comer peixe pescado na região

Josefa e a neta Stephany, catadoras de siri e marisco em Subaúma (Foto: Wilfred Gadêlha)

Por Wilfred Gadêlha 

Dona Marina, vendedora de acarajé, na Praia do Forte (Foto: Wilfred Gadêlha)

Dona Marina trabalha desde 1992 vendendo comidas típicas da Bahia na Praia do Forte, um dos destinos turísticos mais procurados do Estado. No seu quiosque, um tacho cheio de óleo e acarajés implorando para serem devorados pelos turistas. Mas o movimento está fraco, ela reclama, com uma expressão de sofrimento. “Comi um peixe antes de ontem e tive muita diarreia. Fui ao posto de saúde ontem de novo. Estou aqui morrendo de dor”, explica ela, batizada há 59 anos como Valdimarina Conceição Soares.

A Praia do Forte foi uma das 233 do Nordeste afetadas pela onda de óleo que começou no final de agosto, segundo balanço do Ibama. Nas proximidades do Projeto Tamar, uma das três primeiras bases do programa de proteção das tartarugas marinhas, criadas em 1982, nem parece que houve uma tragédia. Turistas fazem selfies, crianças correm de um lado pro outro e, na beira-mar, um monte de gente se bronzeando, neste sábado ensolarado, quarto dia da nossa jornada em busca das vozes que a mídia tradicional não reverbera: a do povo afetado pelas manchas de óleo.

Mas o olho de quem nunca havia vindo à Praia do Forte se enganou. “Só tem o povo duro de Salvador, de Lauro de Freitas e da Barra. Os paulistas, cariocas, franceses e argentinos vão ao Projeto Tamar e não ficam aqui”, conta a neta de dona Marina, Ana Paula Soares Lago, 39, artesã que comercializa bijuterias na alameda principal do balneário. “Em dias normais, eu tiro até 1.500 reais. Hoje, depois desse óleo, se chegar a 300 é muito”, reclama ela.

Ana Paula, artesã na Praia do Forte (Foto: Wilfred Gadêlha)

No quiosque, dona Marina relata que até às 14h só tinha vendido 50 reais em acarajés. “Normalmente eu vendo 300”, completa ela. “Estou aqui porque tenho que estar. Mas eu vomito desde que comi aquele peixe. Minha neta é quem está atendendo”, lamenta.

Ao norte da Praia do Forte, outra comunidade afetada pelo óleo resiste como pode. Em Subaúma, no município de Entre Rios, a onda negra atingiu os corais que embelezam a praia. E ainda estão sujos. Olhando de perto é possível ver manchas espalhadas pelo delicado ecossistema. Voluntários de mobilizaram e continuam a limpar as “pedras” como podem. O que é retirado é enviado para a Universidade Federal da Bahia, onde pesquisadores conseguiram transformar a borra escura em carvão.

No rio que dá nome à praia, encontramos dona Josefa dos Santos e sua neta Stephany com uma rede, cercando siris. Com água na altura do joelho, ela, que pesca há 20 anos, nos conta que as pessoas estão com medo de comer o pescado. “Mas não chegou aqui, não”, se apressa em dizer, contrariando as notícias publicadas. Assim como dona Josefa, muita gente que encontramos por esses quatro dias quer acreditar que a situação não é tão grave quanto parece. Mas é, sim, dona Josefa.

Nosso destino neste domingo é a capital da Bahia. Como o povo de Salvador está vendo seus cartões postais, como as praias da Barra, Piatã e Itapuã, sendo afetados pelo óleo?

Wilfred Gadêlha é jornalista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco

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