Três filmes políticos para o fim de semana

“Dossiê Jango” é eficiente, porém previsível. “Hanna Arendt” articula, em grande estilo, filosofia e amor. “Bela que Dorme” debate política, moralismo e Vaticano

Cena de "Hannah Arendt" (Divulgação)
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[caption id="attachment_28321" align="alignleft" width="268"] Cena de "Hannah Arendt" (Divulgação)[/caption] “Dossiê Jango” é eficiente, porém previsível. “Hanna Arendt” articula, em grande estilo, filosofia e amor. “Bela que Dorme” debate política, moralismo e Vaticano Por José Gerado Couto, do blog IMS, via Outras Palavras O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, no intuito de desqualificar os protestos diante de sua casa, disse dias atrás que eles tinham “caráter político”. Descobriu a pólvora. Da missa do papa à parada gay, da marcha das vadias ao show de funk, da passeata evangélica ao passeio ciclístico, tudo é política, pois revela uma posição dos indivíduos e grupos no convívio com o outro, com os outros, com a polis. Nestes tempos conturbados, nem o cinema é um refúgio seguro para quem quiser escapar da política. Se, ao menos virtualmente, todo filme é político, há aqueles em que a política é o cerne, o nervo, a substância. É o caso de três títulos em cartaz nos cinemas: Dossiê Jango, Hannah Arendt e A bela que dorme. O primeiro é um documentário brasileiro dirigido por Paulo Henrique Fontenelle e produzido pelo Canal Brasil. Essa origem televisiva é responsável pelo formato de grande reportagem do filme, e talvez explique também a escalação de Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto e Zelito Vianna – figurões do referido canal – para dizer platitudes logo no início da narração. Mas depois o documentário engrena, com preciosas imagens de arquivo e depoimentos de quem de fato tem o que dizer sobre o assunto: parentes do biografado (em especial o filho, João Vicente Goulart, verdadeiro condutor da reportagem), assessores, jornalistas que cobriam o centro do poder e até agentes clandestinos da famigerada Operação Condor, tenebrosa ação conjunta dos governos militares do Cone Sul para eliminar opositores. O objetivo expresso do filme é forçar a reabertura das investigações sobre a morte do ex-presidente João Goulart, a partir da suspeita de que ele pode não ter morrido “de morte morrida” em sua fazenda na Argentina, mas sido vítima de um meticuloso assassinato, digno de um filme de detetive. Missão cumprida: saímos do cinema no mínimo com a pulga atrás da orelha. O clímax do documentário é a confrontação, numa prisão brasileira, entre João Vicente Goulart, sob o disfarce de repórter da TV Senado, e o ex-agente uruguaio da Operação Condor Mario Barreiro Neira, que participou da espionagem e do cerco a Jango na Argentina. A surpresa constrangida de Barreiro quando João Vicente revela sua identidade é um momento de alta densidade dramática, daqueles que a ficção raramente alcança. No mais, trata-se de uma produção bastante convencional, na linha dos documentários políticos de Silvio Tendler, com uma condução unívoca (de todos os depoimentos, só um, o do historiador Moniz Bandeira, refuta a tese do assassinato) e o uso abusivo da música para induzir emoção. Banalidade do mal Mais sóbrio e problematizado, paradoxalmente, é o retrato ficcional que Margarethe von Trotta faz da pensadora alemã Hannah Arendt no filme que leva o nome desta. A narrativa se desloca entre dois polos: a reflexão de Hannah (a extraordinária Barbara Sukowa) sobre a banalidade do mal, feita a partir de sua observação do julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann em Israel, e sua controvertida relação amorosa com o filósofo Martin Heidegger (Klaus Pohl), ele próprio simpatizante do nazismo. É admirável o modo como a veterana diretora de Rosa Luxemburgo e Os anos de chumbo concilia a expressão da sutileza e da ambiguidade dos personagens com um estilo narrativo sólido e inexorável, daqueles em que um plano parece “exigir” o plano seguinte – numa espécie de teleologia narrativa que tem raízes em Fritz Lang. Do íntimo ao político O também veterano Marco Bellocchio, que sempre buscou o lugar geométrico entre Eros e a polis, ou entre o sexo e a política, atinge o ápice da maturidade ética e artística com o esplêndido A bela que dorme. Em torno do episódio real da jovem italiana Eluana Englaro, que levou durante 17 anos uma vida vegetativa, até que os aparelhos que a alimentavam foram desligados, o cineasta tece uma teia de situações-limite nas quais se trata sempre de decidir sobre a vida ou a morte de uma pessoa. Além da polêmica religiosa, o caso Eluana produziu uma crise político-institucional profunda na Itália, pois o então primeiro-ministro Silvio Berlusconi tentou mudar a Constituição para passar por cima da decisão da Suprema Corte de permitir o desligamento dos aparelhos, solicitado pelo pai da moça. Se a questão saiu do foro íntimo para a esfera pública, provocando uma conflagração que dividiu a Itália e repercutiu em todo o mundo, o que Bellocchio faz, de certo modo, é devolvê-la ao âmbito privado, que é por definição o espaço da ética e das convicções pessoais. A proeza do cineasta é concentrar suas múltiplas ações em dois dias e duas noites, tendo como fio condutor a cobertura onipresente da mídia do caso Eluana e como pano de fundo a sombra opressiva do Vaticano. As diversas situações paralelas apresentadas permitem-lhe examinar quase como um entomólogo o sentimento da compaixão, sem perder de vista o que ele contém de vaidade e, eventualmente, de sadomasoquismo. Um grande filme, em suma.