terça-feira, 22 set 2020
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“Trump é populista, algo com o que nós, da América Latina, já estamos acostumados”

Especialistas comentam cenário das eleições estadunidenses na reta final e apontam vitória de Hillary “com menos folga do que os democratas esperavam”. Análises apontam ainda, em um possível governo Hillary, para uma política externa ainda mais intervencionista do que na gestão Obama ou Bush

Por Matheus Moreira

Creomar Lima Carvalho de Souza, Professor de Relações Internacionais na Universidade Católica de Brasília, está em Ohio há mais de um mês a convite do governo dos Estados Unidos, para acompanhar as eleições presidenciais desse ano e, quando questionado sobre o cenário nessa reta final da eleição, é contundente.

“A perspectiva aponta que a vitória será de Hillary Clinton, mas não com a distância que os democratas desejariam. A últimas projeções, que vimos agora de manhã, por exemplo, mostram que Hillary tem 274 votos eleitorais e pouco mais de 100 para Donald Trump”.

O professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Carlos Gustavo Poggio Teixeira, complementou explicando que as rápidas mudanças apontadas pelas pesquisas, que mostravam Hillary perdendo na Flórida, agora a colocam à frente no estado chave, evidenciando que “hoje ela tem mais chance que Trump”.

Ambos os especialistas, quando perguntados sobre os possíveis impactos de uma eventual eleição de Trump, apontam para cenários difíceis para a comunidade internacional. Teixeira afirma que o bilonário rompe com o modelo republicano de fazer política, visto que adota uma posição populista, com meandros “autoritários do ponto de vista de personalidade e protecionista, economicamente”, o que pode levar a “profundas transformações no cenário internacional”, uma vez que o candidato já declarou que não honrará alianças do país como a com a OTAN.

Já Carvalho explicou que “é difícil falar dos impactos de uma eventual vitória de Trump, em termos de cenário internacional, por duas questões: a primeira é que todo o discurso dele é baseado em muitos elementos retóricos e carece de um componente efetivo e conteudístico”, ponto amplamente abordado, também, por Teixeira. “Isso quer dizer que as falas [ de Donald Trump] são postas de maneira quase aleatória para empolgar as multidões. Essas multidões se inflamam, mas não há construção clara de realização dessas ações e toda essa agressividade traz, por si, o receio de que efetivamente uma eventual vitória dele traga ainda mais instabilidade ao sistema internacional já marcado pelos elementos como a guerra civil na Síria, as ações do Estado Islâmico e, até mesmo, a crescente violência policial contra jovens negros nos Estados Unidos”.

Mais do mesmo

Hillary Clinton deve seguir em seu governo, se eleita, uma linha similar às medidas que apoiava enquanto Secretária de Estado da administração de Barack Obama – é o que apontou Carvalho. Para ele,  “ela tentaria reforçar os laços estratégicos com alguns parceiros dos Estados Unidos, os europeus na Europa ocidental, na Europa expandida para o leste, alguns parceiros na Ásia, sobretudo Taiwan. E vai tentar construir elementos de contenção, sobretudo aos russos, no que diz respeito ao caso da Ucrânia e também aos chineses. Isso quer dizer, Hillary vai tentar em alguma medida refrear algumas ações de outros entes no sistema internacional que efetivamente tem gerado dificuldades para administração americana nos últimos anos”.

Teixeira aposta em uma abordagem intervencionista mais ativa por parte da democrata, com foco no conflito Sírio. “A Hillary Clinton representa mais uma continuidade de uma certa normalidade, o que não significa a continuidade do governo do Barack Obama. A Hillary Clinton tem uma política externa mais intervencionista. O Barack Obama ele tem muita cautela em intervir, inclusive em momentos nos quais ele ameaçou intervir, como na Síria, ele voltou atrás. A presidência dele foi marcada por essa cautela dos EUA em intervenções externas. A Hillary Clinton é menos reticente nessas intervenções. Ela votou, por exemplo, a favor da intervenção no Iraque, ela é favorável a uma intervenção maior dos EUA na Síria. Então creio que uma política externa Clinton tende a ter um papel mais ativo no ponto de vista das intervenções na Síria e contra o Estado Islâmico”.

 

Foto: Krassotkin (derivative), Gage Skidmore (Donald Trump), Gage Skidmore (Hillary Clinton)

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